sábado, 15 de outubro de 2011

"Os Boas-Vidas" - 1953 by Federico Fellini

"Os Boas-Vidas" tem a fama de ser o primeiro filme importante de Fellini apesar de ser seu terceiro trabalho de direção e o segundo dirigido integralmente por ele.
"Abismo de um Sonho" tem seu lugar nesse humilde blog.
Fellini com esse filme(que é incrivel que seja o seu segundo)começa a se utilizar de temas maduros,humanos com certos simbolismos.Como o mar,por exemplo,que é o simbolo maior.O lugar onde os 5 amigos costumam passar seu tempo de ocio.O mar como a busca pela esperança,como a possivel salvação.
Ao contar o surgimento da reflexão da maturidade na vida de Alberto,Moraldo,Fausto,Leopoldo e Riccardo,Fellini introduz uma tematica no cinema com uma abrangencia psicologica que influenciaria George Lucas em " American Graffitti",Joel Shumacher em "St. Elmo's Fire",Scorcese em "Caminhos Perigosos" e Levinson em "Diner".
O roteiro de "Os Boas-Vidas"surgiu depois do desprezo do produtor Lorenzo Pegoraro pelo roteiro inicial de "La strada";achando que esse fosse um possivel desastre de audiencia sugeriu a Fellini que este escrevesse uma comedia.O ajuntamento das lembranças de adolescentes de Fellini e seus co-roteiristas Enio Flaiano e Tulio Pinelli foram a gênese para "Os Boas-Vidas"
Logo na introdução do filme somos apresentados aos 5 personagens principais com um plano sequencia cuja camera se dirige ao rosto de cada um( como Scorcese faria em "Os bons Companheiros"):
Alberto,considerado por muitos um personagem homossexual,(principalmente na cena em que ele se transveste na festa),é um solteirão filinho da mamãe que sustenta seus jogos com o dinheiro da irma que por sua vez é envolvida com um homem casado.Interpretado pelo comediante Alberto Sordi,que viria a se tornar um dos comediantes mais populares da Italia,a personagem é protagonista de dois grandes momentos do filme.A pungente e sensivel cena na praia,ende ele descobre o proibido e reatado envolvimento de sua irmã;e seu revelador discurso bebado depois da festa.

Leopoldo,interpretado pelo comediante Leopoldo Triestre(que foi brilhante em "O Abismo de um Sonho")é um escritor de peças cuja intelectualidade o destaca de seus amigos materialistas,como ele mesmo reclama pro seu idolo ator Sergio Natali(por sua vez interpretado pelo grande ator de teatro Achille Majeroni)
numa grande paeticipação sua no filme que culmina num assedio homossexual engraçado por sua honestidade e chocante pela epoca fria em que o filme foi exibido
.
Fausto é interpretado pelo galã Franco Fabrizi,o "Cary Grant italiano".No papel de guru sedutor do grupo ele engravida a irmã de seu amigo Moraldo e se vê obrigado a casar e trabalhar.As suas irresponsabilidades e desventuras amorosas e tentativa de pular a cerca é o que ha de mais engraçado e charmoso no filme.Talvez o personagem mais importante por ser ele o estopim da reflexão sobre a mudança que acontece ao seus amigos.

Por fim Moraldo e Riccardo.Moraldo como o cerebro e prudencia do filme é o que vaga sozinho na noite procurando uma resposta pro futuro e faz amizade com um garotinho que trabalha na ferrovia,amizade essa que ira gerar a magica cena com do freeze-frame final.Riccardo é um personagem menor,um tenor;na verdade é Riccardo Fellini,irmão do diretor,interpretando ele mesmo.
O filme foi filmado em varias cidades da Italia seguindo a turne de Alberto Sordi que interpretava em sua horas livres.A revolução começou porem na fotografia e edição.Em 6 meses Fellini trabalho com um time de fotografos pra desenvolver um estilo baseado em planos lentos pra capturar a essencia do que o personagem esta sentindo,e a utilização de zooms para efeito dramatico.Com Rolando Benedetti criou um ritmo de edição onde pequenas sequencias eram permeadas de cortes abruptos enquanto as longas se dissolviam.
O filme se tornou um sucesso de publico e critica.Foi premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza e seu brilhante roteiro foi indicado ao Oscar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

La Dolce Vita ou Os 7 Passos de Rubini em Direção ao Inferno da Completa Alienação

Fellini no seu auge coloca seu costumeiro heroi em busca de uma redenção, como uma marionete do modernismo futil,dos avanços alienatorios do capitalismo,da superficialidade vencendo o intelectualismo,do feio vencendo o belo,do belo vencendo o feio...Com um senso satirico,amargo e feroz o filme chegou a ser "vendido" como comedia dramatica,mas na vedade é um perfeccionista ensaio sobre a descida ao inferno;uma obra-prima absolutamente ironica contra o anti-pensamento da sociedade midiatica e as mudanças comportamentais de uma geração perdida.
Visto hoje o filme é atualissimo dada a correta profecia dirigida pelo mestre italiano que com sua danças,suas musicas ,sua camera intrusa e safada,seus chapeis ,seus oculos, e sua incrivel habilidade de emoldurar seus enquadramentos com seus personagens nos mostra o que uma vez ja foi avisado e o que hoje se concretizou:a alienação,o conformismo em relação a falsos valores esteticos.
A brilhante epópeia epica de alguem que passa por diversos episodios mostrando a multifacetada cara da decadencia social é dividida em 7 episódios (propositalmente talvez devido a existencia dos 7 pecados capitais,os 7 sacramentos,as 7 virtudes e os 7 dias da criação,misturando o profano e o sagrado que ornamentam o filme).Foi percussor de tudo o que aconteceu tudo o que ia rolar na incrivel decada de 60 e...mais...

PROLOGO:um helicoptero sobrevoa Roma carregando uma estatua de cristo como se a propria estivesse abençoando a cidade.
Interessante peceber a influencia neorealistica do filme ser abandonada nessa cena.Os trabalhadores que ajudam a reconstruir a cidade e o povo pobre admiram com fé e devoção comum a estatua;um corte e vemos mulheres de biquini(a trilha de Rota muda para um jazz safado) e aqueles que pilotam o helicoptero começam a paquera-las.O sagrado e o profano.
Cristo como marionete do homem alienado.
O abandono de Deus.

PRIMEIRO PASSO -SEXO,FETICHE OCIOSIDADE
   NOITE -Depois de apresentar Rubini ,seu trabalho como reporter de celebridades,o desprezo que outros sentem por ele,seu amigo fotor-reporter Paparazzi e uma dança exotica felliniana,surge Madeleine,uma rica entediada que encontra em sexo sua fuga da realidade.
As putas no terraço dão entrada para a pianola ironica de Nino Rota e a idéia de Madeleine em dar carona a uma delas é seguida de dialogos pervertidos filmados para realmente chocar e mostrar que um novo estilo franco,real e despudorado estava nascendo.
   AMANHECER - depois de ter satisfeito o fetiche de Madeleine de ser comida na casa da puta, fazendo-nos perceber que na verdade o inicio da trajetoria de Rubini ja nasce no negativo,sua mulher é encontrada quase em overdose depois de uma tentativa de suicidio em um tenso e pequeno intermezzo onde somos apresentados a cenarios geometricos,lampadas e figurantes pictoriamente posicionados.


SEGUNDO PASSO - O FEITIÇO
A chegada da linda celebridade Sylvia mostra o coreografo de atores que fellini é com aquela massa de fotografos se juntando,correndo para um lado,para o outro,se atropelando,é simplesmente sensacional!
Sylvia é o feitiço que a beleza nos proporciona e nos atinge letargicamente ,uma metafora da bela superficialidade a serviço de nosso tempo.Enfeitiçado ficará tambem Rubini dentro da catedral de São Pedro que é invadida por toda a trupe de homens e mulheres a serviço da "profana alienação".Essa invasão vertiginosa mistura mais uma vez o sagrado e profano.
  NOITE - depois de uma dança brilhantemente dirigida que mistura rumba ,maracas ,rock'n roll com uma versão de Little Richard sensacional(sabe-se que na época muitos se levantaram no cinema pra dançar junto)...me emociono demais com essa cena,ela é a prova de que a adrenalina se encontra tambem em estilo,tecnica,musica,canto,gritos,som e furia
.AMANHECER Enfim como uma sereia que leva os homens a se afogarem por ela a noite acaba numa Fontana di Trevi belissima e num final frustrante para o nosso heroi,e mais uma brilhante participação dos fotografos na engraçadissima cena da briga.
STEINER --------Steiner seria o personagem salvação,o amigo intelectual de Rubini que se mostra disposto a compartilhar de sua amizade.Um personagem importante para o destino do pensamento de Rubini que é encontrado por ele numa igreja onde,em poucos momentos,depois de tanto retrato do futil,ele apresenta uma gramatica de sanscrito e uma musica de Bach tocada ao orgão.
Alem de uma importante declaração dos sons que não ouvimos mais.

TERCEIRO PASSO - A FALSA FÉ MIDIATICA 
  NOITE -em uma cobertura jornalistica sobre duas crianças que viram a virgem maria(obviamente falsa e feita para aprecer) Fellini se deleita.Todos os envolvidos na visão são retratados como comicos anonimos querendo um lugar de destaque na tv ou jornal.O lugar se torna um circo midiatico misturando aleijados,crianças doentes,mães desesperadas com fotografos oportunistas(como narra o sempre bem posicionado narrador do radio),curiosos e a falsidade do circo todo em geral(o fotografo que prefere tirar fotos do aleijado deitado na chuva em vez de ajuda-lo)...resultado...a chuva cai...as crianças cochicham...a hora da mentira...atropelamento,morte,e final tragico...a propria fé sendo destruida,os proprios principios religiosos corrompidos pelos 15 minutos de fama...mais atual impossivel.
  AMANHECER -o funeral de uma criança morta naquilo que era pra ser sua cura...
  
STEINER -----------Rubini é convidado junto com sua carente,inoportuna e obsessiva esposa para uma festa na casa de Steiner onde se encontra diversos inteçlectuais dispares recitando poemas e fazendo observações auspiciosas,filosofando,uma instrumentista negra ornamenta as apresentações com sua voz e instrumento,um respeitado escritor divaga sobre mulheres orientais...um oasis para Rubini mergulhado na lama de jornalecos fascistas(sua propria vergonha é sua acomodação)Mas a festa infelizmente nos serve como mostra do pessimismo acima da esperança com um amargo Steiner disparando frases de angustia quanto a falta de amor e logica numa sociedade com a mente organizada como um quadrado.

O ANJO -um anjo aparece na figura de uma garota num restaurante  e se mostra a propor o conforto que a inocencia infantil coloca na decisão de Rubini em se acalmar e fazer a ligação pra sua esposa.

QUARTO PASSO - A DESAPROXIMAÇÃO FAMILIAR
   NOITE - o encontro de Rubini com seu pai se inicia com um contentamento e um  confronto de valores familiares,principalmente com os de Paparazzi,a decepção de seu pai com a brevidade da vida e do poder de possuir seus prazeres resulta num egoista ato falho na tentavi de reaproximação.Na verdade os valores atuais ja não sao mais para homens como ele...
Tecnicamente é incrivel ver a sensibilidade artistica de Fellini em filmar numeros musicais ou teatrais como os do cabaré...absolutamente magico.
AMANHECER - depois de quase sofrer um enfarto seu pai praticamente foge de suas mãos,retirando mais uma tentaiva de salvação de Rubini.
Como a maioria dos herois de Fellini até esse filme,uma decepção atras da outra nos é revelada.

QUINTO PASSO - O PURGATORIO DOS PRINCIPES  
NOITE -  com a fama de precursor das modas e revoluções dos anos 60 que esse filme tem ,é notorio ver o Rubini de Mastroianni encontrando de forma intima a modelo Nico,que cantaria no revolucionario album do Velvet Underground em 1967(conhecido como o album da banda do patrono Andy Warhol). 
 Ela será a guia de Rubini para uma viagem a um castelo de principes e princesas decadentes que usam seus ancestrais e pertences para jogos e macetes ociosos e inuteis.
Como um bando de fantasmas infantis pervertidos e sem nada da sedutora aristocracia antiga.A salvação de Rubini é tão urgente que quase se encontra em Madeleine que novamente aparece e na brilhante cena do eco,que revela que sua personalidade instavel sexualmente não tem a cura para um relacionamento saudavel.Rubini acaba tendo como opção a fuga rapida da cortesã devoradora de homens  
AMANHECER - exaustos os principes se retiram para as mão da obscura e cabisbaixa rainha,enquanto seus companheiros retornam de uma viagem sem rumo.

SEXTO PASSO - ABANDONO E DESESPERO 
Steiner mata seus filhos e se mata,matando a esperança de rubini que desce ao ultimo degrau do inferno
SETIMO PASSO - DERROTA
  Noite - A espetacular cena da orgia mostra um Rubini mais velho entregue as bebidas,falsos conceitos e vivendo como um mentiroso agente de publicidade.A trilha de rota(absolutamente sensacional o filme todo com uma mistura de mambo,jazz,tarantela original tanto quanto o filme)encerra em meio a penas de travesseiro,homossexuais travestis,sexo grupal e strip-tease a trajetoria de Rubini em busca do contentamento e satisfação no mundo moderno


EPILOGO-um monstro marinho aparece na praia,um homossexual profetiza "Em 1965 será uma depravação total!" e os personagens são regidos por Fellini num sensacional desfile.O inocente animal morto...quem será o monstro aqui...quem deve olhar e julgar quem...a sociedade atual é o real monstro?..."o peixe olha até mesmo depois de morto"

O ANJO - ela grita pra ele e ele não ouve,ela chama e ele não vai...uma despedida,e um sorriso ironico e esperto dirigido a nós...



domingo, 9 de outubro de 2011

A trapaça de Fellini-"Il Bidone"

Em seus primeiros filmes Fellini se utilizou de uma maneira de mostrar sua Italia decadente apenas como pano de fundo para aquilo que seria o plot principal do filme.É o que acontece em " A Trapaça".
Um ano depois do seu sucesso "La Strada", Fellini queria Humphrey Bogart para interpretar um filme sobre um trapaceiro ja velho que se encontra a procura de um sentido real pra sua vida.Infelizmente o icone americano ja estava com cancer de pulmão e tragicamente inapto(apesar que se for pensado agora,seu jeito cansado nessa fase da vida era propicia até demais pra esse personagem).Broderick Crawford foi escolhido depois de ser visto num poster de "A Grande Ilusão" ,filme pelo qual ele ganhou o oscar em 1949.
A pelicula começa mostrando a execução de seu golpe mais comum,que ironicamente eles cometem contra a parte pobre da população,tirando tudo o que elas possuem
Como ter simpatia pelos personagens?
Num pais pos-guerra todos vivem como podem.Fellini  quase sempre se posicionou do lado do marginalizado.As vitimas desses malandros são o mote pra denucia neo-realistica do filme.
Fellini ja começava a cutucar a igreja como nenhum italiano antes fizera e que acabaria com qualquer apoio que teria dela nos posteriores filmes,aqui o conto-do-vigario é levado ao pe da letra.
Em seguida somos apresentados à vida particular de cada um desses ladrões, como Picasso(Richard Baseheart)o pai de familia sensivel e aspirante a pintor possui uma adoravel filha e uma mulher fiel(Giulieta Masina num efemero mas importante papel) ;Roberto(Franco Fabrizi,o Cary Grant italiano ainda como um sedutor barato como em "I Vitelloni") como o mulherengo sem etica ou moral; e Augusto como o mais velho de todos atormentado pela falta de objetivo na vida e cerne de todo o filme.
A interpretação de Crawford não é menos que excelente,ele carrega uma cruz.Como disse Trouffaut:"Eu vi Broderick Crawford morrer por todo o filme!"

Com a chegada de seu amigo Reinaldo(numa sensacional entrada de cena),um amigo ladrão da antiga que se encontra bem sucedido e posicionado na cúpula da alta sociedade,Augusto muda sua vida.Na festa de Reinaldo,absolutamente felliniana,Augusto encontra a humilhação em ser aos 48 anos apenas um reles patife.Sua unica esperança de ser aguem é sua filha,que ele não tem o costume de encontrar,mas que apos um breve reencontro ele se prontifica a ajudar a pagar sesus estudos.
Tanto Augusto como seus amigos são o maximo do reles atacando de forma tão crua os miseraveis e mesmo assim é dificil irmos contra o ponrto de vista deles.Essa aproximação por sua vez é alcançada pelo humanismo da camera de Fellini.Como na cena em que eles invadem uma favela,mostrada com um realismo denunciativo,como John Ford e Tolland fizeram em  "Vinhas da Ira".Enfim,mais uma classe de pessoas que Fellini nos joga pra ser analisada,mesmo que não haja pre-julgamentos em seu conceito final,apenas uma demonstração da realidade da epoca.
Mais um anti-heroi sem redenção,mais uma vez a realidade vence o sonho em Fellini.

"La Strada"

Quando Fellini filmava "I Vitelloni",o roteirista Tulio Pinelli voltou em uma viagem que ele fez pelas montanhas, pela falta de auto-estrada que ligasse Roma à Turin.
Disse ter visto um homem com problemas mecânicos numa estranha "carruagem" e uma pequena mulher a empurrando.Quando retornou contou a Fellini o sucedido e disse que a historia àrdua desses dois seria um otimo argumento pra seu proximo filme.Seria o ideal para uma tematica/estilo neo-realista  do qual Fellini ainda era adepto;uma viagem,um road-movie com a Italia de background.
Porem Fellni teve aquilo que os deuses chamam de inpiração da alma e resolveu transformar eses dois personagens em Zampano e Gelsomina.
Zampano(inspirado por um açougueiro de Rimini,da infancia do diretor,que apesar de brutamontes levava todas as mulheres pra cama)é um monstro que carrega consigo um espetaculo itinerante em que ele arrebenta correntes com o peito.
Gelsomina,um dos personagens mais complexos de todos os tempos.Uma das vitimas  da pobreza do pós guerra,sequelada pela fome,vendida pela mãe para Zampano por 10.000 liras,vivendo num mundo proprio,mundo esse que sera violentado e corrompido por Zampano.
A partir dai seremos brindados pelas atuações magistrais de Giulietta Masina(que vai do amor ao odio com um movimento dos olhos,não os olhos de qualquer um,mas de alguem da inocente complexidade de Gelsomina) e de Anthony Quinn,um violoncelo carnal de paixão e violencia.
A mente fraca,timida,inocente e ludica de Gelsomina sofrerá a violencia moral e física de Zampano.Gelsomina será o seu cachorro.Quando aprende à base de varadas a ser sua assistente e descobrir o prazer de se viver em entreter um publico,é arremedada com imprecações.Quando o sexo pode se tornar um elo de ligação entre os dois,ela descobre que Zampano despudoradamente leva outras mulheres para a cama,relegando ela a segundo plano.Nessa sucessão de desventuras e aprendizados da louca Gelsomina,Fellini mistura o realismo e vulgaridade das mulheres,das ruas,da multidão e de Zampano(como se a Italia fosse ela toda um caldo de desespero e vulgaridade)com a esperança de amor que personagem de Masina por si só ja representa.O real negativo,o sonho como salvação e o amor lutando para surgir entre os dois.
Quando Gelsomina foge de Zampano e percorre o centro da cidade sozinha,ela é mostrada do ponto de vista de quem não pertence ao mudo dela e de Zampano.Quantos de nós não nos colocamos no lugar daqueles jovens que a bulinaram chamando-a de louca e se assustaram com o estranho Zampano chegando para recolhe-la com insolitas ameaças e imprecações.Como esses jovens,percebemos que estamos presenciando o retrato de duas personas unicas.Nunca conheceriamos a vida de alguem como Gelsomina e Zampano se não vivendo no mundo deles;ou num filme.

Richard Basehart é outro ator que merece menção honrosa com sua interpretação de "Il Matto",um personagem cigano que representa a loucura da alienação referente tanto à realidade quanto à arte.Ao contrario de Gelsomina ele conhece a realidade,e por isso usa do anarquismo para "combate-la",atormentando Zampano com sucessivas sacanagens que acabam resultando na tragedia conclusiva.

Por fim Fellini não se contenta em contar uma ótima e original historia,mas seu estilo,sua camera,sua edição,seus atores e Nino Rota(principalmente com o pungente e importante tema "Travelling Down a Lonely Road"tocado por Gelsomina no trompete)tornam concretos os sentimentos,desejos e decepções desses personagens,nos tornando testemunhas de algo que pertence aos nossos sonhos pela consciência coletiva
e transformando o melodrama em fruto do real visto pelos olhos do magico.
A cena em que Zampano percebe que a solidão foi resultado de sua propia ignorancia e desprezo pelo amor que ele sempre teve capacidade de sentir mas sempre renegou;os olhos de Quinn mostrando a unica brecha de fragilidade do personagem,vale a revisão do filme como obra absolutamente sensitiva.

sábado, 8 de outubro de 2011

Michael Viner's Incredible Bongo Band


Michael Viner foi um diretor da Pride,subsidiaria da MGM, que em 1972 juntou  a Incredible Bongo Band pra criar a trilha sonora do incrivel filme "The Thing With Two Heads" fazendo cover de classicos dos 50's e 60's  com uma peagada funky recoberta dos estalos selvagens e estricnados dos bongos.

Ele se entusiasmou e gravou um album:"Bongo Rock" em 1973.
De todas as faixas destaco as que mais me emocionaram:
"Apache" - a musica famosa  por ter sido inumeras vezes sampleada pelo hip-hop realmente tem a pegada  com atitude necessaria pra cumprir o papel de pioneira no som das ruas
"Bongolia" - pelo nome ja se vê,o bongo inicial ja mostra que a entrada na selva da luxuria esta garantida
"Dueling  bongos" - necessaria no volume alto no auge da chapadeira - aqui quem manda é o Deus da percussão
"In a gadda da vida" - esse cover do Iron butterfly pra mim é a melhor do disco,com toda a magia daquela extraodinaria musica acrescentada de um virtuoso solo de bongos no meio.
Nota-se que não é só nos bongos que a virtuosidade comanda,mas o mais misterioso do album é que tirando a falsa-banda usada nas fotografias ,ninguem sabe realmente quem tocou o que aqui;o unico que sabia e dizia que esqueceu,foi Michal Viner que morreu em 2009.
A nós so nos resta chapar o coco com tamanho presente cult.



Um filme surpreendente do começo ao fim.
O que dizer da introdução onde em menos de 10 minutos vemos a camera surgir do nada seguindo um camburão policial,a policia invadindo a favela,capturando o suspeito,a manifestação das pessoas da viela contra a policia,o interrogatorio,a coleta de impressões,até chegar no fim onde os policiais conversam no banheiro no final do expediente.Tudo isso pra explicar como é o trabalho do protagonista do filme ,um policial da Scotland Yard.Foda.
De repente eles começam a falar,e isso foi como asssitir 2001 em 1968.
A cena no restaurante da espaço a conotações sxuais,estudo dos relacionamentos e muita SACANAGEM com o Hitch dando close na Ondra mordendo os labios para um estranho enquanto seu namorado não vê.Uma briga,ele sai do restaurante tenta voltar arrependido,faz um sorriso de esperto e ve ela sair com esse mesmo estranho.
A conversa desse estranho com a moça demora mais de 10 minutos,depois que ele literalmente arrasta ela pro seu apartamento.Então entra outra coisa sensacional,uma divagação ao mesmo tempo ligada ao teatro do qual o filme foi originado,mas originando por sua vez uma propria linguagem cinematografica atraves do som, com os personagens passeando pelo apartamento num (pasmem!) pré-"A Bout de Souffle" ou " Le Mepris"(lembram qual era um dos diretores mais venerados pela nouvelle vague?=Hitch).
Uma especie de distração artistica ao publico,vemos uma brilhante cena de desenho em dupla(muuuuuuito sexo subentendido),a protagonista semi-nua em 1929,dialogos economicos que culminam numa das mais brilhantes cenas de estrupo e assassinato onde Ondra brilha numa interpretação que sem duvida eh uma das mais marcantes em filmes de Hichcock.O terror entra de supetão.O terror mesmo!!!!O falso romance e de repente em poucos segundo estrupo ,assassinato e Ondra matando a pau!!!!Assistam!!A cena em que ela caminha traumatizada eh de um brilhantismo,o trauma não tinha entrado no cinema dessa forma ainda,com uma profundidade psicologica tão pungente.O som gritando noticias de assassinto,"Faca!",tudo remetendo a morte se depara com a apavorante face de Ondra e a edição sempre brilhante e quadrinhesca.

A forma como o chantagista faz sua insinuação atraves de um charuto eh uma aula de construção de cena.Nos rimos e nos pergunatamos e nos indgamos com o personagem intruso.
A cena final eh tão aterradora quanto aquelas que Hitch colocava em seus episodios televisivos posteriores remetendo ao mesmo calafrio das melhores do "Twilight Zone" por exemplo.Um dos melhores finais de um filme dele.

A aparição dele xingando um moleque chato no trem é  uma das mais hilarias.
10 anos antes de Welles e Renoir,vemos Hitch mexendo a camera que nem louco.
A camera se move dos olhos do suspeito para um espelho;zoom-in no espelho e nos deparamos com o reflexo distorcido de dois detetives.
Close nos detetives e vemos as famosas persianas que muitos creditam a Wilder.
Cenas simples como os dois personagens subindo a escada de um predio nas mãos do Hitch aqui nesse filme vira magia.Quem duvida:comprove!Quem ja viu e duvida:comprove tambem!
Esse filme não usa otimos elementos de suspense,ele cria elementos de suspense senhor!
Essa eh a diferença!

O Sheik Branco de Fellini - "Abismo de um Sonho"

Não sei quanto a vcs mas a mistura de sonho e realidade permeia qualquer um que tenha começado a ler cedo,a se aventurar nas ruas cedo,a compreender a arte cedo...
Esse é o primeiro filme de Fellini dirigido integralmente por ele,me encantou sobremaneira o talento que ele ja demonstrava ter ,o talento de um auteur,de alguem que nasceu pra isso...Seu trabalho como roteirista no neo-realismo lhe deu a convivencia necessaria para desenvolver as ferramentas do dicionario cinematografico que ele evoluiria mais tarde.
Uma comedia primeiramente,com o talentosissimo,inacreditavel Leopoldo Triestre com sua cara de panico inimitavel explorada por Copolla em "The Godfather 2".As situações criadas em torno dele são de dar gargalhada.Me assustei com os primeiros 10 minutos de filme que aparentava um certo amadorismo com o casal chegando de trem na Roma pos-guerra onde nada ainda era glamour,mas acho que era porque eu tava ajorjado da maconha;porem a medida que a o rosto da esposa se mostrava intrigante e suspeito como se ela quisesse algo urgente ali em Roma,a narrativa me deixou deveras intrigado.

Interessante dizer que os titulos inicias mostravam algo oriental com véus voando contra o vento;o titulo original do filme parecia remeter a um filme das mil e uma noites.Mas a historia de um casal que se separa depois da fuga da mulher pra conhecer o astro das fotonovelas ,o sheik branco,se converte em duas ramificações: as aventuras da mulher com a troupe de artistas que acompanham o sheik,uma tentativa do sheik de comer ela depois de fumar algo que parecia um baseado(acredite!),e bom vou parar com spoilers.Mas Fellini é descrição de cenas,como o primeiro encontro dela com o sheik e sua longa conversação que mistura na genese do estilo felliniano a realidade com fantasia na persona de um idolo como Allen fez em "A rosa purpura do cairo",ela encontra um sheik num balanço no galho mais alto da arvore,ele leva ela pra passear e pra ver como a vida é dura como o sonho tambem pode ser...uma das frases mais pungentes de um filme de fellini dita pela protagonista chorando depois de suas aventuras "Sim a verdadeira vida é a vida dos sonhos,mas as vezes o sonho é um abismo!",pungente no contexto de um filme que ja dizia coisa que muitos filme não diziam na epoca 
O modo como os personagens surgem coreograficamente na frente da camera, o modo como Fellini usa essa sua tatica para o humor,os movimentos que ela dá, a caracterização forte do personagem mais banal,é foda...
pela primeira vez surge Giulieta Massina como Cabiria, e o mais impressionante pra mim foi ver que Fellini parecia saber que faria "Noites de Cabiria" anos depois,pois o personagem surge breve mas forte e engraçado,trazendo a tão rara magia cinematografica à época,na figura de um cuspidor de fogo...prostitutas e artistas numa roma decadente e mesmo assim o sonho parece exaltar a realidade ,a vida.
Vou repetir,vcs devem assisitr e comprovar,Leopoldo Triestre é dono de um terço do filme....agora o outro terço vai pra Nino Rota,o cara é Deus.Acho que no inicio da decada de 50 essa sua maneira de espelhar de forma psicologica a intenção do diretor só era comparavel com o Bernard do Hitch.Tem uma variação  do mambo usadao em "8 1/2"(na verdade a variaçãoestá em "81/2" que é posterior) mas de repente quando é necessario o suspense ele rege soturnamente,quando surge o melodrama ele rege ternamente.Nino Rota foi genio...sua trilha sempre descamba para o lado mais ludico divertido e safado da arte na vida e da vida na arte.Fellini om sue humor,com seus devaneios e com seu humanismo.
A cena em que eles mostram os bastidores da fotonovela é sensacional,a influencia dos quadrinhos e dos seu passado como cartoonista é fluente no cinema de Fellini,primeiramente no seu começo usado em prol da reflexão corriqueira para posteriormente nos seus filmes pos-"La Dolce Vita" serem usados para reflexões e designs mais profundos porem simples na sua significação da arte e do homem(ou seja,de todos nós)e enfim revolucionar uma das faces da multifacetada linguagem cinematografia e suas diversas personalidades que a utilizam.
E por fim "Vamos pessoal ,apertem o passo!" e seus personagens marcham pela primeira vez ao ritmo de Rota como se fossem personagens de uma apresentação circense.Um filme pra se assistir descalço no carpete tomando caipirinha.Finis