quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"Giulietta dos Espiritos" by Federico Fellini - 1965

"Giulietta dos Espiritos" é um filme dedicado à descoberta sexual.
O primeiro filme de Fellini colorido  tambem é um filme dedicado aos anos 60,uma absorção felliniana de conceitos new wave.Representativo de uma época,assim como varios dos filmes dele.
Esse filme é dedicado tambem(ou principalmente) à Giulietta Masina,sua mulher e protagonista deste filme, alêm dos filmes da época neo-realista dos anos 50 como "A Estrada da Vida" ou "Noites de Cabiria.
Excepcional atriz que se entrega à um sutil porem perfeito retrato de uma mulher de casa normal,reprimida sexualmente e casada com um homem ausente que a trai;o mais divertido é que seria Giulietta interpretando Giulietta.Os pontos autobiograficos podem ser dificieis de reconhecer,mas o casamento de Fellini andava em polvorosa devido à sua personalidade dificil de artista,e como a trajetoria de Giulietta é repleta de frustrações e desejos reprimidos,os sets do filme ficaram cheio de faiscas do casal.


  Após ter criado  "81/2", Fellini praticamente deu esse filme à Giulietta.Visto que o primeiro era um filme sobre a mente de um artista com traços autobiograficos,nada mais interessante que dirigir um filme sobre o auto-descobrimento libertario de sua mulher com a devida utilização de sonhos,arquetipos e situações que façam com que participamos na analise psicologica do protagonista.
Fellini como sempre da um passo a frente ao abordar influencias espiritas e misticas numa bela utilização da cor como o mais novo instrumento de sua sofisticação tecnico-artistica.A tecnica de Fellini sim estava no auge,logo nas primeiras cenas vemos que sua camera deslizará em um mundo novo,planos sequencias longos que seguem apresentando os personagens que vão surgindo numa dança picaresca.Nino Rota tambêm sempre da um passo a frente,agora com uma trilha digamos que mais psicodelica,ja que a decada de 60 começava a revolucionar em varios ramos culturais,filmes como o de Fellini não só acabavam absorvendo os temas recorrentes à sua época como tambem instigavam novas modas e tendencias filosoficas e artisticas.
O sexo era um dos temas principais da decada de 60 e é o tema principal desse filme visto que Giulietta corre atras de sua libertação sexual.Espiritos são ouvidos por ela em meio à um tulmutuoso caso de tentativa de descobrir se seu marido a está traindo,o que fica óbvio o filme inteiro.A causa seria sua repressão sexual contrastante até com a persona de sua mãe e suas duas irmãs.Ela é uma mulher docil e amavel,excelente dona de casa....mas e o sexo?Eis a causa da infidelidade do marido.É como diz o medico no inicio na cena da praia  "Diga para seu marido fazer mais amor!".Espirtos que fazem parte de sua infãncia,assim como espiritos intrusos,acabam sendo seus guias.Como na casa da vizinha Suzy,dona de uma excêntrica e  libertina mansão onde Giulietta conhece quartos com espelho no teto,com escorregadores pra piscinas,casas no teto...quando Fellini filma dois jovens subindo a casa da arvore para um menage a trois com Suzy,que ja aparece semi-nua,é uma total entrega do diretor à revolução de sua época.Há outros personagens que surgem como possiveis messias de Giulieta em sua libertação sexual como o guru que cita o kama sutra e ensina os sons do sexo;o amigo espanhol de seu marido que surge numa misteriosa sombra,como um ideal imaginado e que seria sua devida vingança.


Poderia dizer muita coisa ainda sobre o filme como as brilhantes recordações da infância de Giulietta assim como a ligação que essas lembranças tem com sua possivel estagnação pessoal.
Mas o que eu acho mais importante é ver como Fellini transforma um caleidoscopio de referencias psicologicas pessoais com temas universais referentes à epoca,se arriscando em retratar seu casamento como algo perturbador;é ver como Masina se entrega a seu marido,mesmo que brigando no set,aceitando com servilidade artistica a visão de Fellini sobre o problema de ambos,assim como a visão de Fellini sobre sua possivel personalidade.
Um grande filme do magico Fellini,mais uma coleção de temas a serem expostos oniricamente em tela sem demonstrar nenhuma pretensão.A grande duvida que fica é se o caminhar solitario de Giulietta no fim do filme significa sua libertação ou sua trajetoria em direção à completa solidão.Pode ser um conformismo como o de Guido em "8 1/2".
Os espiritos continuarão ali,e são amigos...ou não.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"8 1/2" by Federico Fellini - 1963

Nunca cheguei a ler um livro sobre Fellini,sobre sua vida.Mas alêm das caracteristicas artisticas,plasticas,denota-se uma alma à procura de uma explicação para a existência,mas principalmente um auto-conhecimento.
Sei que ele procurou ler Carl Jung e consultar o I Ching,associou seus sonhos com as teorias junguianas,aprendeu sobre os arquetipos herdados em nossos subconsciente pelas gerações antepassadas.Arquetipos comum a todos,à um grupo de pessoas,ao incosciente coletivo de Jung.Podem ser simbolos,animais,plantas...mas podemn ser tambem a mãe,o pai,a morte,o sexo...todos eles inerentes à uma compreensão mais abrangente dos fantasmas que assombram uma mente.
A mente de um artista é normal?
Não sei.
Mas Fellini demonstrou que pode exorcisar seus demonios atraves de um filme
.Durante um bloqueio criativo apos o excepcional e igualmente revolucionario "A Doce Vida" ele se dedicou a isso,a uma analise em celuloide.Seria seu oitavo filme,mais uma co-direção = 8 1/2.Pronto!Se tornou nada mais nada menos que um divisor de aguas não só devido ao auge da tecnica do diretor assim como a tematica psicologica e metalinguistica conduzida sem pretensão,de forma redonda.

O filme em si é uma analise sobre a mente de Guido Anselmo,um diretor com bloqueio criativo com a saude prejudicada devido a pressão de todos aqueles que o cercam.Um homem sufocado como mostra o sonho da cena introdutoria...sufocante....quando consegue se libertar é pescado pelo pé por um burocrata de gravata à cavalo.Cenas de sonho e imagens de subconsciente encontram porem uma influencia do mestre Bergman,principalmente "Morangos Silvestres".
Sonhos como quando o arquetipo do pai e da mãe são postos juntos,mostrando o pai do lado do caixão(a ausencia),seu padrinho comendador(dependencia e substituição),o afastamento da mãe, e por fim o rosto da sua mulher na face de sua mãe numa obvia alusão ao complexo edipiano causador dos mais leves "disturbios".Outros fatores como a Igreja e sua incapacidade de ser monogamico tambem são explorados na obra.
A genialidade de Fellini tem seu auge em cenas como aquela que nos introduz ao spa embalado por um Wagner e todos aqueles personagens velhos e burgueses com sombrinhas,oculos e chapeis extravagantes cumprimentando a camera.A visão que Guido tem de sua musa ou salvação Claudia Cardinale(interpretando ela mesmo!).Tudo é filmado como um espetaculo e todas as particularidades devem ser aproveitadas,como o critico e roteirista que Guido contratou para ajuda-lo e cujas pedantes observações resultam num simbolico e divertido enforcamento no final..
Não são menos que geniais por exemplo a cena em que Guido lembra de Saraghina,puta que vivia na beira da praia na época em que ele estudava num colegio de padres.A dança do mambo( uma trilha imbativel de Nino Rota que nuca me cansarei de assobiar) e todo o castigo que ele sofre da figura da igreja,a influencia desta no seu subconsciente e o rosto de sua mãe chorando.

As mulheres de Guido rendem outra cena magnificamente orquestrada onde ele imagina um harem.Tudo é inebriante...tudo...o modo como a musica interage(como na dança da negrinha),o modo como as mulheres coreograficamente bailam em frente à camera,a sombra dele estalando o chicote controlando um motim num estilo pre-Indiana Jones,tudo...até o discurso final da vedete rejeitada.

Por mais que Guido tente,como a maioria dos herois fellinianos,ele não consegue plenos resultados.Após uma histeria e inebriante coletiva de imprensa(outra cena inacreditavelmente dirigida com louvor)ele sabe que seu suicidio como pessoa publica será o resultado.Fellini traduz simbolicamente e de forma quase comica esse suicidio em imagem.E mesmo que Guido não tenha feito filme nenhum,ou se redimido perante quem ama,seu discurso final é quase que um profundo suspiro de compreensão,confissão e entrega.
E todos aqueles arquetipos junguianos,ou apenas pessoas que contribuiram pra Guido ser o que é,no ruim ou no bom,surgem de branco numa passeata para juntos dançarem de mãos dadas sob a direção de Guido e a apoteotica trilha de Rota.Porque...apesar de tudo....a vida é curta e é pra ser vivida...façamos dela uma obra de arte!

"Noites de Cabíria" by Federico Fellini-1957

Logo na cena inicial esse filme mostra a que veio.A despedida de Fellini a qualquer melodrama do neo-realismo tem uma pungencia que seus filmes posteriores não teriam,e que pode ser comparavel apenas à "A Estrada da Vida",algo que se deve em 50 % a Giulietta Masina e sua forte e corajosa interpretação e 50% ao pai do conceito da obra,tanto do personagem quanto da poetica do tratamento dado ao tema em questão.Um filme de prostitutas em 1957 era improvavel,assim como tornar uma puta,uma heroina capaz de nos fazer chorar.
O que é verdade!
Vencer os podres do pós-guerra dependia de cada um.As prostitutas tambem venciam por elas mesmos.Por mais histerica que a excentricidade de Cabiria possa ser, o real amargo comum à Fellini aparece tanto na violencia que é mostrada de forma crua como na cena inicial do afogamento,assim como na vulgaridade da Vila Cecilia(onde se encontram todas as putas),assim como nos cabelos sebosos de sua amiga Wanda e assim como no epilogo de cada uma de suas desventuras.
O filme é sobre o orgulho de um excluido,um marginal,uma personagem petulante e explosiva,mais proxima da real personalidade de Masina do que Gelsomina.Cabiria ja tinha aparecido em "Abismo de um Sonho" de forma breve mas forte,mostrando a capacidade de Masina.
Quando filmava "A Trapaça" Fellini conheceu e acolheu no set(por solidariedade) uma puta chamada Wanda e ouviu e aprendeu um pouco mais de sua vida.Apesar disso o polemico e inteligentissimo Pasolini foi contratado pra consultas no roteiro devido seu conhecimanto sobre o caso.O nome Cabiria vem do pre-"O Nascimento  de uma Nação" filme de 1914 "Cabiria",considerado o verdadeiro marco inicial da narrativa cinematografica.
A veracidade do local onde elas fazem ponto por exemplo é tão incrivel(quem conhece sabe) que acho que a contribuição de Pasolini esta aí.Na descrição do modo como elas se relacionam no ambiente de trabalho.Um estranho ecossistema com a camera de Fellini rodopiando entre putas de diferentes personalidades num louco senso de espetaculo circense.

A principal busca de Cabiria é pelo amor,e o amor verdadeiro pra uma puta ,ainda mais pra uma puta como ela(a mais reles) é dificil de achar.Com um pessimismo agoniante cada uma de suas possiveis esperanças de amor são frustradas,mesmo que ela sempre erga a cabeça depois de tudo,todos nós a conhecemos suficiente pra compreender que o orgulho esconde o desespero.Como na sua tour noturna com o ator Alberto Lazzari(Amadeo Nazzari em uma auto-referencia,dada a estrela do cinema italiano que ele realmente era),que mesmo sendo entremeada de exoticas danças fellinianas(com o seu persistente encanto com o mambo dançante) e faiscas de esperança,acaba com Cabiria na mesma posição de um cachorro,E quando surge o close seguido da trilha-arranca lagrimas,ja estamos tão proximos da personagem que nada mais é obvio.

O desapontamento de Fellini com a igreja é exposto aqui de forma agressiva e ironica.Como no deslumbre de Cabiria com uma procissão sendo interrompido por um rude caminhoneiro exigindo seus serviços.O mesmo caminhoneiro que a joga no meio do nada.É no meio desse nada que ela encontra um homem que cuida dos mendigos que moram nas cavernas.Nas cavernas conhecemos a historia da decadencia de Bomba,mostrando que todos que vivem a margem andam na corda-bamba.E por mais que essa cena seja a mais honesta,a mais denunciativa,a que mais motra o sofrimento de um povo desconhecido atras da mascara de uma sociedade em reconstrução capitalista....foi essa a cena que a Igreja baniu.Totalmente justificavel o odio de Fellini contra a hipocrisia da Igreja.

A constante humilhação de Cabiria vem de atitudes inocentes como a cena do hipnotismo.Nós como espectadores chegamos ao ponto de não querermos mais essa humilhação,a simbiose personagem-espectador é tanta que a possivel e quase óbvia aparição de um possivel verdadeiro amor é digna de nossa torcida.Mas quando percebemos que o mal pode persistir,gritar pra Cabiria não adianta.Choramos e mandamos a vida a merda enquanto ela se debate no chão.
Porem Fellini,com jovens,musica,sorrisos,cumprimentos e alegria,cerca Cabiria de anjos para a ambiguidade final da possivel epifania esperançosa nas lagrimas da prostituta sem-teto.........ou um destino igual ao da Bomba das cavernas.

sábado, 15 de outubro de 2011

"Os Boas-Vidas" - 1953 by Federico Fellini

"Os Boas-Vidas" tem a fama de ser o primeiro filme importante de Fellini apesar de ser seu terceiro trabalho de direção e o segundo dirigido integralmente por ele.
"Abismo de um Sonho" tem seu lugar nesse humilde blog.
Fellini com esse filme(que é incrivel que seja o seu segundo)começa a se utilizar de temas maduros,humanos com certos simbolismos.Como o mar,por exemplo,que é o simbolo maior.O lugar onde os 5 amigos costumam passar seu tempo de ocio.O mar como a busca pela esperança,como a possivel salvação.
Ao contar o surgimento da reflexão da maturidade na vida de Alberto,Moraldo,Fausto,Leopoldo e Riccardo,Fellini introduz uma tematica no cinema com uma abrangencia psicologica que influenciaria George Lucas em " American Graffitti",Joel Shumacher em "St. Elmo's Fire",Scorcese em "Caminhos Perigosos" e Levinson em "Diner".
O roteiro de "Os Boas-Vidas"surgiu depois do desprezo do produtor Lorenzo Pegoraro pelo roteiro inicial de "La strada";achando que esse fosse um possivel desastre de audiencia sugeriu a Fellini que este escrevesse uma comedia.O ajuntamento das lembranças de adolescentes de Fellini e seus co-roteiristas Enio Flaiano e Tulio Pinelli foram a gênese para "Os Boas-Vidas"
Logo na introdução do filme somos apresentados aos 5 personagens principais com um plano sequencia cuja camera se dirige ao rosto de cada um( como Scorcese faria em "Os bons Companheiros"):
Alberto,considerado por muitos um personagem homossexual,(principalmente na cena em que ele se transveste na festa),é um solteirão filinho da mamãe que sustenta seus jogos com o dinheiro da irma que por sua vez é envolvida com um homem casado.Interpretado pelo comediante Alberto Sordi,que viria a se tornar um dos comediantes mais populares da Italia,a personagem é protagonista de dois grandes momentos do filme.A pungente e sensivel cena na praia,ende ele descobre o proibido e reatado envolvimento de sua irmã;e seu revelador discurso bebado depois da festa.

Leopoldo,interpretado pelo comediante Leopoldo Triestre(que foi brilhante em "O Abismo de um Sonho")é um escritor de peças cuja intelectualidade o destaca de seus amigos materialistas,como ele mesmo reclama pro seu idolo ator Sergio Natali(por sua vez interpretado pelo grande ator de teatro Achille Majeroni)
numa grande paeticipação sua no filme que culmina num assedio homossexual engraçado por sua honestidade e chocante pela epoca fria em que o filme foi exibido
.
Fausto é interpretado pelo galã Franco Fabrizi,o "Cary Grant italiano".No papel de guru sedutor do grupo ele engravida a irmã de seu amigo Moraldo e se vê obrigado a casar e trabalhar.As suas irresponsabilidades e desventuras amorosas e tentativa de pular a cerca é o que ha de mais engraçado e charmoso no filme.Talvez o personagem mais importante por ser ele o estopim da reflexão sobre a mudança que acontece ao seus amigos.

Por fim Moraldo e Riccardo.Moraldo como o cerebro e prudencia do filme é o que vaga sozinho na noite procurando uma resposta pro futuro e faz amizade com um garotinho que trabalha na ferrovia,amizade essa que ira gerar a magica cena com do freeze-frame final.Riccardo é um personagem menor,um tenor;na verdade é Riccardo Fellini,irmão do diretor,interpretando ele mesmo.
O filme foi filmado em varias cidades da Italia seguindo a turne de Alberto Sordi que interpretava em sua horas livres.A revolução começou porem na fotografia e edição.Em 6 meses Fellini trabalho com um time de fotografos pra desenvolver um estilo baseado em planos lentos pra capturar a essencia do que o personagem esta sentindo,e a utilização de zooms para efeito dramatico.Com Rolando Benedetti criou um ritmo de edição onde pequenas sequencias eram permeadas de cortes abruptos enquanto as longas se dissolviam.
O filme se tornou um sucesso de publico e critica.Foi premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza e seu brilhante roteiro foi indicado ao Oscar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

La Dolce Vita ou Os 7 Passos de Rubini em Direção ao Inferno da Completa Alienação

Fellini no seu auge coloca seu costumeiro heroi em busca de uma redenção, como uma marionete do modernismo futil,dos avanços alienatorios do capitalismo,da superficialidade vencendo o intelectualismo,do feio vencendo o belo,do belo vencendo o feio...Com um senso satirico,amargo e feroz o filme chegou a ser "vendido" como comedia dramatica,mas na vedade é um perfeccionista ensaio sobre a descida ao inferno;uma obra-prima absolutamente ironica contra o anti-pensamento da sociedade midiatica e as mudanças comportamentais de uma geração perdida.
Visto hoje o filme é atualissimo dada a correta profecia dirigida pelo mestre italiano que com sua danças,suas musicas ,sua camera intrusa e safada,seus chapeis ,seus oculos, e sua incrivel habilidade de emoldurar seus enquadramentos com seus personagens nos mostra o que uma vez ja foi avisado e o que hoje se concretizou:a alienação,o conformismo em relação a falsos valores esteticos.
A brilhante epópeia epica de alguem que passa por diversos episodios mostrando a multifacetada cara da decadencia social é dividida em 7 episódios (propositalmente talvez devido a existencia dos 7 pecados capitais,os 7 sacramentos,as 7 virtudes e os 7 dias da criação,misturando o profano e o sagrado que ornamentam o filme).Foi percussor de tudo o que aconteceu tudo o que ia rolar na incrivel decada de 60 e...mais...

PROLOGO:um helicoptero sobrevoa Roma carregando uma estatua de cristo como se a propria estivesse abençoando a cidade.
Interessante peceber a influencia neorealistica do filme ser abandonada nessa cena.Os trabalhadores que ajudam a reconstruir a cidade e o povo pobre admiram com fé e devoção comum a estatua;um corte e vemos mulheres de biquini(a trilha de Rota muda para um jazz safado) e aqueles que pilotam o helicoptero começam a paquera-las.O sagrado e o profano.
Cristo como marionete do homem alienado.
O abandono de Deus.

PRIMEIRO PASSO -SEXO,FETICHE OCIOSIDADE
   NOITE -Depois de apresentar Rubini ,seu trabalho como reporter de celebridades,o desprezo que outros sentem por ele,seu amigo fotor-reporter Paparazzi e uma dança exotica felliniana,surge Madeleine,uma rica entediada que encontra em sexo sua fuga da realidade.
As putas no terraço dão entrada para a pianola ironica de Nino Rota e a idéia de Madeleine em dar carona a uma delas é seguida de dialogos pervertidos filmados para realmente chocar e mostrar que um novo estilo franco,real e despudorado estava nascendo.
   AMANHECER - depois de ter satisfeito o fetiche de Madeleine de ser comida na casa da puta, fazendo-nos perceber que na verdade o inicio da trajetoria de Rubini ja nasce no negativo,sua mulher é encontrada quase em overdose depois de uma tentativa de suicidio em um tenso e pequeno intermezzo onde somos apresentados a cenarios geometricos,lampadas e figurantes pictoriamente posicionados.


SEGUNDO PASSO - O FEITIÇO
A chegada da linda celebridade Sylvia mostra o coreografo de atores que fellini é com aquela massa de fotografos se juntando,correndo para um lado,para o outro,se atropelando,é simplesmente sensacional!
Sylvia é o feitiço que a beleza nos proporciona e nos atinge letargicamente ,uma metafora da bela superficialidade a serviço de nosso tempo.Enfeitiçado ficará tambem Rubini dentro da catedral de São Pedro que é invadida por toda a trupe de homens e mulheres a serviço da "profana alienação".Essa invasão vertiginosa mistura mais uma vez o sagrado e profano.
  NOITE - depois de uma dança brilhantemente dirigida que mistura rumba ,maracas ,rock'n roll com uma versão de Little Richard sensacional(sabe-se que na época muitos se levantaram no cinema pra dançar junto)...me emociono demais com essa cena,ela é a prova de que a adrenalina se encontra tambem em estilo,tecnica,musica,canto,gritos,som e furia
.AMANHECER Enfim como uma sereia que leva os homens a se afogarem por ela a noite acaba numa Fontana di Trevi belissima e num final frustrante para o nosso heroi,e mais uma brilhante participação dos fotografos na engraçadissima cena da briga.
STEINER --------Steiner seria o personagem salvação,o amigo intelectual de Rubini que se mostra disposto a compartilhar de sua amizade.Um personagem importante para o destino do pensamento de Rubini que é encontrado por ele numa igreja onde,em poucos momentos,depois de tanto retrato do futil,ele apresenta uma gramatica de sanscrito e uma musica de Bach tocada ao orgão.
Alem de uma importante declaração dos sons que não ouvimos mais.

TERCEIRO PASSO - A FALSA FÉ MIDIATICA 
  NOITE -em uma cobertura jornalistica sobre duas crianças que viram a virgem maria(obviamente falsa e feita para aprecer) Fellini se deleita.Todos os envolvidos na visão são retratados como comicos anonimos querendo um lugar de destaque na tv ou jornal.O lugar se torna um circo midiatico misturando aleijados,crianças doentes,mães desesperadas com fotografos oportunistas(como narra o sempre bem posicionado narrador do radio),curiosos e a falsidade do circo todo em geral(o fotografo que prefere tirar fotos do aleijado deitado na chuva em vez de ajuda-lo)...resultado...a chuva cai...as crianças cochicham...a hora da mentira...atropelamento,morte,e final tragico...a propria fé sendo destruida,os proprios principios religiosos corrompidos pelos 15 minutos de fama...mais atual impossivel.
  AMANHECER -o funeral de uma criança morta naquilo que era pra ser sua cura...
  
STEINER -----------Rubini é convidado junto com sua carente,inoportuna e obsessiva esposa para uma festa na casa de Steiner onde se encontra diversos inteçlectuais dispares recitando poemas e fazendo observações auspiciosas,filosofando,uma instrumentista negra ornamenta as apresentações com sua voz e instrumento,um respeitado escritor divaga sobre mulheres orientais...um oasis para Rubini mergulhado na lama de jornalecos fascistas(sua propria vergonha é sua acomodação)Mas a festa infelizmente nos serve como mostra do pessimismo acima da esperança com um amargo Steiner disparando frases de angustia quanto a falta de amor e logica numa sociedade com a mente organizada como um quadrado.

O ANJO -um anjo aparece na figura de uma garota num restaurante  e se mostra a propor o conforto que a inocencia infantil coloca na decisão de Rubini em se acalmar e fazer a ligação pra sua esposa.

QUARTO PASSO - A DESAPROXIMAÇÃO FAMILIAR
   NOITE - o encontro de Rubini com seu pai se inicia com um contentamento e um  confronto de valores familiares,principalmente com os de Paparazzi,a decepção de seu pai com a brevidade da vida e do poder de possuir seus prazeres resulta num egoista ato falho na tentavi de reaproximação.Na verdade os valores atuais ja não sao mais para homens como ele...
Tecnicamente é incrivel ver a sensibilidade artistica de Fellini em filmar numeros musicais ou teatrais como os do cabaré...absolutamente magico.
AMANHECER - depois de quase sofrer um enfarto seu pai praticamente foge de suas mãos,retirando mais uma tentaiva de salvação de Rubini.
Como a maioria dos herois de Fellini até esse filme,uma decepção atras da outra nos é revelada.

QUINTO PASSO - O PURGATORIO DOS PRINCIPES  
NOITE -  com a fama de precursor das modas e revoluções dos anos 60 que esse filme tem ,é notorio ver o Rubini de Mastroianni encontrando de forma intima a modelo Nico,que cantaria no revolucionario album do Velvet Underground em 1967(conhecido como o album da banda do patrono Andy Warhol). 
 Ela será a guia de Rubini para uma viagem a um castelo de principes e princesas decadentes que usam seus ancestrais e pertences para jogos e macetes ociosos e inuteis.
Como um bando de fantasmas infantis pervertidos e sem nada da sedutora aristocracia antiga.A salvação de Rubini é tão urgente que quase se encontra em Madeleine que novamente aparece e na brilhante cena do eco,que revela que sua personalidade instavel sexualmente não tem a cura para um relacionamento saudavel.Rubini acaba tendo como opção a fuga rapida da cortesã devoradora de homens  
AMANHECER - exaustos os principes se retiram para as mão da obscura e cabisbaixa rainha,enquanto seus companheiros retornam de uma viagem sem rumo.

SEXTO PASSO - ABANDONO E DESESPERO 
Steiner mata seus filhos e se mata,matando a esperança de rubini que desce ao ultimo degrau do inferno
SETIMO PASSO - DERROTA
  Noite - A espetacular cena da orgia mostra um Rubini mais velho entregue as bebidas,falsos conceitos e vivendo como um mentiroso agente de publicidade.A trilha de rota(absolutamente sensacional o filme todo com uma mistura de mambo,jazz,tarantela original tanto quanto o filme)encerra em meio a penas de travesseiro,homossexuais travestis,sexo grupal e strip-tease a trajetoria de Rubini em busca do contentamento e satisfação no mundo moderno


EPILOGO-um monstro marinho aparece na praia,um homossexual profetiza "Em 1965 será uma depravação total!" e os personagens são regidos por Fellini num sensacional desfile.O inocente animal morto...quem será o monstro aqui...quem deve olhar e julgar quem...a sociedade atual é o real monstro?..."o peixe olha até mesmo depois de morto"

O ANJO - ela grita pra ele e ele não ouve,ela chama e ele não vai...uma despedida,e um sorriso ironico e esperto dirigido a nós...



domingo, 9 de outubro de 2011

A trapaça de Fellini-"Il Bidone"

Em seus primeiros filmes Fellini se utilizou de uma maneira de mostrar sua Italia decadente apenas como pano de fundo para aquilo que seria o plot principal do filme.É o que acontece em " A Trapaça".
Um ano depois do seu sucesso "La Strada", Fellini queria Humphrey Bogart para interpretar um filme sobre um trapaceiro ja velho que se encontra a procura de um sentido real pra sua vida.Infelizmente o icone americano ja estava com cancer de pulmão e tragicamente inapto(apesar que se for pensado agora,seu jeito cansado nessa fase da vida era propicia até demais pra esse personagem).Broderick Crawford foi escolhido depois de ser visto num poster de "A Grande Ilusão" ,filme pelo qual ele ganhou o oscar em 1949.
A pelicula começa mostrando a execução de seu golpe mais comum,que ironicamente eles cometem contra a parte pobre da população,tirando tudo o que elas possuem
Como ter simpatia pelos personagens?
Num pais pos-guerra todos vivem como podem.Fellini  quase sempre se posicionou do lado do marginalizado.As vitimas desses malandros são o mote pra denucia neo-realistica do filme.
Fellini ja começava a cutucar a igreja como nenhum italiano antes fizera e que acabaria com qualquer apoio que teria dela nos posteriores filmes,aqui o conto-do-vigario é levado ao pe da letra.
Em seguida somos apresentados à vida particular de cada um desses ladrões, como Picasso(Richard Baseheart)o pai de familia sensivel e aspirante a pintor possui uma adoravel filha e uma mulher fiel(Giulieta Masina num efemero mas importante papel) ;Roberto(Franco Fabrizi,o Cary Grant italiano ainda como um sedutor barato como em "I Vitelloni") como o mulherengo sem etica ou moral; e Augusto como o mais velho de todos atormentado pela falta de objetivo na vida e cerne de todo o filme.
A interpretação de Crawford não é menos que excelente,ele carrega uma cruz.Como disse Trouffaut:"Eu vi Broderick Crawford morrer por todo o filme!"

Com a chegada de seu amigo Reinaldo(numa sensacional entrada de cena),um amigo ladrão da antiga que se encontra bem sucedido e posicionado na cúpula da alta sociedade,Augusto muda sua vida.Na festa de Reinaldo,absolutamente felliniana,Augusto encontra a humilhação em ser aos 48 anos apenas um reles patife.Sua unica esperança de ser aguem é sua filha,que ele não tem o costume de encontrar,mas que apos um breve reencontro ele se prontifica a ajudar a pagar sesus estudos.
Tanto Augusto como seus amigos são o maximo do reles atacando de forma tão crua os miseraveis e mesmo assim é dificil irmos contra o ponrto de vista deles.Essa aproximação por sua vez é alcançada pelo humanismo da camera de Fellini.Como na cena em que eles invadem uma favela,mostrada com um realismo denunciativo,como John Ford e Tolland fizeram em  "Vinhas da Ira".Enfim,mais uma classe de pessoas que Fellini nos joga pra ser analisada,mesmo que não haja pre-julgamentos em seu conceito final,apenas uma demonstração da realidade da epoca.
Mais um anti-heroi sem redenção,mais uma vez a realidade vence o sonho em Fellini.

"La Strada"

Quando Fellini filmava "I Vitelloni",o roteirista Tulio Pinelli voltou em uma viagem que ele fez pelas montanhas, pela falta de auto-estrada que ligasse Roma à Turin.
Disse ter visto um homem com problemas mecânicos numa estranha "carruagem" e uma pequena mulher a empurrando.Quando retornou contou a Fellini o sucedido e disse que a historia àrdua desses dois seria um otimo argumento pra seu proximo filme.Seria o ideal para uma tematica/estilo neo-realista  do qual Fellini ainda era adepto;uma viagem,um road-movie com a Italia de background.
Porem Fellni teve aquilo que os deuses chamam de inpiração da alma e resolveu transformar eses dois personagens em Zampano e Gelsomina.
Zampano(inspirado por um açougueiro de Rimini,da infancia do diretor,que apesar de brutamontes levava todas as mulheres pra cama)é um monstro que carrega consigo um espetaculo itinerante em que ele arrebenta correntes com o peito.
Gelsomina,um dos personagens mais complexos de todos os tempos.Uma das vitimas  da pobreza do pós guerra,sequelada pela fome,vendida pela mãe para Zampano por 10.000 liras,vivendo num mundo proprio,mundo esse que sera violentado e corrompido por Zampano.
A partir dai seremos brindados pelas atuações magistrais de Giulietta Masina(que vai do amor ao odio com um movimento dos olhos,não os olhos de qualquer um,mas de alguem da inocente complexidade de Gelsomina) e de Anthony Quinn,um violoncelo carnal de paixão e violencia.
A mente fraca,timida,inocente e ludica de Gelsomina sofrerá a violencia moral e física de Zampano.Gelsomina será o seu cachorro.Quando aprende à base de varadas a ser sua assistente e descobrir o prazer de se viver em entreter um publico,é arremedada com imprecações.Quando o sexo pode se tornar um elo de ligação entre os dois,ela descobre que Zampano despudoradamente leva outras mulheres para a cama,relegando ela a segundo plano.Nessa sucessão de desventuras e aprendizados da louca Gelsomina,Fellini mistura o realismo e vulgaridade das mulheres,das ruas,da multidão e de Zampano(como se a Italia fosse ela toda um caldo de desespero e vulgaridade)com a esperança de amor que personagem de Masina por si só ja representa.O real negativo,o sonho como salvação e o amor lutando para surgir entre os dois.
Quando Gelsomina foge de Zampano e percorre o centro da cidade sozinha,ela é mostrada do ponto de vista de quem não pertence ao mudo dela e de Zampano.Quantos de nós não nos colocamos no lugar daqueles jovens que a bulinaram chamando-a de louca e se assustaram com o estranho Zampano chegando para recolhe-la com insolitas ameaças e imprecações.Como esses jovens,percebemos que estamos presenciando o retrato de duas personas unicas.Nunca conheceriamos a vida de alguem como Gelsomina e Zampano se não vivendo no mundo deles;ou num filme.

Richard Basehart é outro ator que merece menção honrosa com sua interpretação de "Il Matto",um personagem cigano que representa a loucura da alienação referente tanto à realidade quanto à arte.Ao contrario de Gelsomina ele conhece a realidade,e por isso usa do anarquismo para "combate-la",atormentando Zampano com sucessivas sacanagens que acabam resultando na tragedia conclusiva.

Por fim Fellini não se contenta em contar uma ótima e original historia,mas seu estilo,sua camera,sua edição,seus atores e Nino Rota(principalmente com o pungente e importante tema "Travelling Down a Lonely Road"tocado por Gelsomina no trompete)tornam concretos os sentimentos,desejos e decepções desses personagens,nos tornando testemunhas de algo que pertence aos nossos sonhos pela consciência coletiva
e transformando o melodrama em fruto do real visto pelos olhos do magico.
A cena em que Zampano percebe que a solidão foi resultado de sua propia ignorancia e desprezo pelo amor que ele sempre teve capacidade de sentir mas sempre renegou;os olhos de Quinn mostrando a unica brecha de fragilidade do personagem,vale a revisão do filme como obra absolutamente sensitiva.