domingo, 19 de agosto de 2012

"A Letra Escarlate"(1926) - Victor Sjostrom

Uma coisa é certa,independente das qualidades de seus filmes posteriores,Victor Sjostrom nunca superou sua obra-prima "A Carruagem Fantasma"(1921),um filme estupendo,influente,com uma filosofia profunda e um senso de direção ousado.Dos filmes que ele fez pra MGM são mais conhecidos "Vento e Areia"(1928,onde a melhor coisa no filme é o vento) e esse "A Letra Escarlate",onde todas as expectativas de uma obra que te atinja de uma forma tão metafisica quanto seu filme sueco são frustradas em prol de um melodrama bem filmado.
Lilian Gish está nos dois filmes e assisti-la é sempre um prazer.Uma das atrizes mais incríveis das primeiras décadas do cinema,o seu olhar a favor dos demorados planos de Victor que gostam de extrair do ator o verdadeiro sentimento do personagem não deixam insatisfeitos aqueles que apreciam boas atuações.

O problema é que "A Letra Escarlate" é baseado num romance de 1850,auge do Romanticismo Gótico americano voltado a questões como expiação,pecado e religião.E para ser adaptado às exigências de um povo de 1926,já cansado dos melodramas literários da era muda,seria necessario um roteiro enxuto,objetivo,e uma direção estimulante.
Contendo um diretor de tal calibre não é injustiça dizer que por muitas vezes a direção se arrasta em situações que poderiam ser melhor trabalhadas.Assim como o roteiro poderia aprofundar personagens que são importantíssimos pra historia mas que surgem apenas como coadjuvantes de um romance impossível.

O modo como o puritanismo é condenado não só pela historia original do livro de Nathaniel Hawthorne mas pelo comum humanismo dos filmes que Sjostrom filma,sempre será atual.A religião serve como refugio do medo e durante a historia da humanidade o medo do pecado,ocasionador do fanatismo e do extremismo religioso,é a ferramenta da hipocrisia que aponta o dedo para pessoas que apenas foram vitimas das convenções de seu tempo,do amor,e de pseudo-filosofias de sua época.
Hoje em dia isso ainda pode ser visto no modo como a igreja evangelica é homofóbica e preconceituosa,ou nos dogmas da igreja católica assim como nas leis assassinas de fundamentalistas orientais.É o que torna um romance melodramatico e antiquado digno de uma revisão e uma contextualização.


Os dedos aqui estão apontados para uma das grandes heroinas do imaginario literario americano da segunda metade do seculo XIX:Hester Pryne(Lilian Gish).
Ja mal vista pela comunidade desgraçadamente puritana da Boston-colonia do sec. XVII por agir de forma pouco convencional,ela é amparada pelo prestigiado pastor local Arthur Diemesdale(interpretado pelo ótimo ator sueco Lars Hanson).Os dois se apaixonam e ao descobrir que na verdade ela é casada com um médico desparecido ha anos ele decide não levar adiante seu affair e viaja pra Inglaterra.Um ano depois ele volta e descobre Hester sendo condenada brutalmente por ter dado à luz a um filho seu e obrigada a usar uma letra A de Adultera em cor vermelha bordada no seu peito.
Para não perder o seu posto de clérigo o segredo é mantido e Arthur é obrigado a conviver vendo sua amada como uma banida/expurgada tentando criar sua filha com uma dignidade isolada enquanto que no seu intimo a tortura se crava na forma de ressentimento e impotencia.

Um grande final surge como um desabafo mortal para um filme que deixa a desejar por ser de Sjostrom,mas  que mesmo assim ainda é a maior adaptação do livro(na época,desde 1908,ja haviam sido feitas 6)que merece ser assistido pelo amor que seus atores despejam em seus personagens numa historia que merece ser contada nos colégios.

"O Cavalo de Ferro"(1924) - John Ford

John Ford ja havia filmado dezenas de filmes em 1924 mas "Cavalo de Ferro" foi o ponto de partida da mitologia western num épico-historico.Uma produção caríssima com milhares de figurantes,indios,búfalos e duas cidades construidas o filme se provou um sucesso mundial arrecadando quase 10 vezes mais o seu custo.Não se deixem enganar por ser um filme da era muda do Ford porque,como eu disse,ele ja havia feito muitos filmes e filmar era quase como respirar;Ford apenas dirigia uma historia,as suas marcas registradas surgiam ao natural.

O filme começa com Miriam Marsh e Davy Brandon brincando enquanto crianças,sendo observadas por Abraham Lincoln.
O pai de Davy,um agrimensor,diz sonhar com o dia em que as ferrovias acalmem o territorio selvagem  de leste a oeste enquanto o seu amigo empreendedor  Marsh(pai de Miriam)duvida de seus sonhos.
Brandon parte com Davy pra começar seu sonho e descobre um atalho que encurtaria 200 milhas o caminho original, mas um incoveniente com os indios Cheyenne faz com que ele seja morto à machadadas por um renegado de dois dedos enquanto Davy assiste tudo escondido.
Os anos se passam e em 1864 o Presidente Lincoln,que assistiu a partida de Brandon,assina a autorização para o inicio da construção da Primeira Ferrovia Transcontinental.O inicialmente cético Marsh se encontra como o responsavel pelo empreendimento e sua filha Miriam esta noiva do engenheiro chefe Jesson.
Marsh precisa descobrir um atalho que se encontra justamente nas terras do poderoso Bauman que quer evitar o seus intentos subornando Jesson atraves de uma prostituta e de muito dinheiro.
Nisso reaparece Davy,agora como um mensageiro,para reacender o seu amor de infância por Miriam,causar ciúmes em Jesson e desiludir os planos de Bauman pois só ele sabe a localização do atalho encontrado com o seu pai anos atrás.

Ford filma uma historia de pioneiros sendo ele mesmo um pioneiro no cinema.Não só do ponto de vista homérico ao consolidar uma mitologia cinematografica mas tambem na maneira de contar uma historia.A camera na mão em cenas de batalhas e os indios no topo da colina ja se encontram desbravadores aqui.A locação de Sierra Nevada serve como pano de fundo de uma odisseia do povo americano no intuito de unir sua terra.O herói macho,a briga de soco,os momentos comicos-etilicos e o companheirismo fordiano ja parecem consolidados.George O'Brien faria ainda mais 6 filmes com Ford devido ao sucesso desse filme,e realmente seu Davy Brandon é quase um super-herói de testosterona e carisma.Durante o interminavel trabalho nas ferrovias surgem ataques de indios,grandes batalhas,revelações bombasticas e festas em bordéis.
Não foi o primeiro filme e nem o primeiro western de Ford(muito menos primeiro western do cinema sendo que Bronco Billy e Tom Mix ja eram sucessos)mas foi o inicio de uma nova era.
E viva o soco na cara!!

sábado, 18 de agosto de 2012

"Tempestade Sobre a Ásia"(1928) - A Aventura de Pudovkin

A Mongólia sempre teve que lutar arduamente pela sua Independencia.Desde que foi fundado o Imperio Mongol por Genghis Khan no final do seculo XII a sua dependencia em relação à outras culturas e povos foi desde os monges tibetanos na Idade Média,passando pela Dinastia Qing manchu que tinha dominado a China,e a União Soviética.
Durante a Guerra Civil Russa que se deu entre 1918 e 1921 a Russia se dividia entre Exercito Branco(ex-tzaristas e cadetes) e Exercito Vermelho( mais conhecidos como bolcheviques) que tinham instaurado um governo após a Revolução de Outubro de 1917.Os Aliados da Primeira Guerra como a Inglaterra e França mandaram tropas de apoio ao Exercito Branco com medo do avanço comunista dos bolcheviques.

É nesse contexto que se encontra as areias mongólicas desse maravilhoso filme de Pudovkin,areias que abrem o filme onde numa cabana um Lama faz sua oração para o chefe doente de uma familia de vaqueiros e caçadores que vivem de vender peles de raposa no mercado prinicipal.Impossibilitado ele manda seu filho ir no seu lugar revelando em sua posse uma magnifica pele que faz os olhos de todos quase lacrimejarem devido a sua beleza e aconselha a vender a um preço de 500 pratas e não menos que isso.O proprio Lama ao ver que recebia um pagamento mísero se agarra à pele numa briga hilaria e depois de tomar um empurrão e ser derrubado foge e na fuga deixa cair um amuleto sem perceber.A mãe vendo o amuleto e não conseguindo avisar o Lama que ja cavalgava ao longe deixa na posse do filho para servir de proteção durante a viagem.
Ao chegar no mercado os Capitalistas(Exército Britânico) são avisados que o jovem carrega uma valiosa pele,roubam ela numa injusta troca,o mongol não aceita,briga,perde,foge pras montanhas e entra para o exercito partisan dos bolcheviques onde um tempo depois ele é capturado pelos ingleses e mandado ao fuzilamento.Mas ao descobrirem que o  amuleto continha um escrito que dizia que o proprietario de tal era descendente direto de Genghis Khan( a figura mais venerada da Mongólia até hoje)os ingleses decidem usar desse prestigio natural para torna-lo um rei à favor de seus interesses politicos.


Interessante é perceber que enquanto Eisenstein vestia a camisa do comunismo ao ponto propagandistico e tendo o coletivo como protagonista,Pudovkin criava um individuo marginal de um povo que servia de rebanho para a  União Soviética e narra fatos que iam ser causas do proprio regime comunista,como a manipulação dos lideres politicos mongóis para aumentar a sua influência.Até porque os ingleses nunca tiveram na Mongolia e os opressores na verdade eram o Exercito Branco,mas como mostrar isso na Russia ja stalinista de 1928?
A idéia foi esquecer que haviam russos contrario aos bolcheviques e mostrar o extrangeiro como vilão.
Mas fica a pergunta:será que Pudovkin não estava desiludido com o esperançoso comunismo mas ainda desmascarando o predatório capitalismo?
Essa desilusão esta sutilmente encravada na direção que seus filmes tomavam rumo ao individualismo e às formas que o individuo,e não a massa,tinha de resistencia.Mas ainda assim à serviço do ideal bolchevique,claro.
Porque no mundo das idéias o comunismo continua mais honroso que o capitalismo,mas na pratica o socialismo se mostrou um sistema fragil e tirânico.Tanto que o Capitalista de Pudovkin é caricatura,olhos frios imersos em belas peles caras e generais assassinos sem coração usando da diplomacia hipocrita pra se estabelecer.Mas o socialismo aqui é visto apenas como um refugio,a unica opção de salvamento do personagem,de se salvar e de salvar o seu povo.Uma escolha individual e tambem de vingança,o que distancia o enredo aventuresco de Pudovkin do maniqueismo explicitamente panfletario de Eisenstein.O filme é muito mais um épico sobre um herói vitima das circunstancias.

Um pouco mais de 20 anos da invenção do cinema e os russos ja se debruçavam a escrever livros e livros sobre edição e suas diferentes formas de manifestação.
Pudovkin foi um dos que brilhantemente sistematizaram os diferentes tipos de edição e os aplicaram aos seus filmes.Portanto todas as principais leis se encontram aqui como nos filmes de seus conterraneos como Eisenstein e em outros filmes de Pudovkin como "A Mãe".
A base pratico-teorica da montagem construtiva que constroi o entendimento da cena de forma organica e que deve ser pensada ja na filmagem se ramificando numa montagem-da-sequencia onde a coesão deve gerar um estimulo de interesse no telespectador em relação ao seu desfecho gerando uma tensão incrivel.E isso percebe-se claramente em momentos magicos como quando o mongol é roubado no mercado e no excelente porem abrupto final.
Montagem por Contraste:como quando simultaneamente são mostrados o nosso herói sendo capturado enquanto o general e sua esposa estão se arrumando para diplomaticamente visitar o templo budista.
Até na apresentação de um cenario é a montagem que nos conduz como quando o templo nos é mostrado de seus diferentes angulos.
Mas Pudovkin se interessa no interesse causado pela narrativa,então são nas cenas de perigo,de divertimento e de suspense,que a edição se mostra um quebra-cabeças magico e até vertiginoso que influenciaria,como todo o cinema sovietico daquela época,futuras gerações.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"A Caixa de Pandora"(1929) -Pabst,a Puta e a Nova Objetividade

Impressionante o quanto foi frutífera pro cinema a arvore do cinema alemão da Republica de Weimar.Mesmo com outros contemporâneos da era muda em outros lugares do planeta como Griffith,Feuidalle,Gance ou Sjostrom...não há como negar que uma visão de um cinema puro,sem ligação com outras vertentes,e de uma ampla conceitualização artistica, se daria com o expressionismo desses alemães.

A tal Republica de Weimar foi paradoxalmente a que mais fudeu com a Alemanha pós Primeira-Guerra e que queimou os filmes da democracia ineficiente que alimentava o fanatismo nazista.
A prova de que um povo falido,humilhado e destruido perante ao mundo produziu otimos filmes é de que o sofrimento causa dor e a dor é uma das bases da arte.Seja em cenarios neo-goticos associados à uma psicologia inerente à um enredo sombrio como em "Nosferatu" de Murnau e "O Gabinete do Dr. Caligari" de Robert Wiene ou ao retrato realista condenatorio de "A Ultima Gargalhada"   (um dos filmes mais importantes da historia do cinema),de novo do mestre Murnau,ou do futuristico "Metropolis" de Fritz Lang.
O cinema representava um povo tão sombrio como seus filmes,e  essa ligação filme sombrio/povo zumbi é que assusta até hoje.

Porêm....Pabst e seu "A Caixa de Pandora" é um refresco  dentro de sua fatalidade tão real quanto cínica mostrando os humanos despidos de qualquer hipocrisia.É um filme pós-expressionismo ou até melhor dizer,anti-expressionismo pois contraria todas as caracteristicas do primeiro em favor de uma sobriedade,a favor dos fatos.Esse movimento chamado de Nova Objetividade com grande destaque na pintura e na arquitetura conviveu nos anos 20 com o Expressionismo no cinema,mas Pabst no final dos anos 20 com este filme e "Diary of a Lost Girl" criou o que ele chamou de SEU momento Nova Objetividade em contraste com os exuberantes Lang e Murnau.
O cerne do melodrama não esta mais em uma epopéia esquizofrenica ,mas em uma puta e seus amantes e sua queda de uma maneira ao mesmo tempo divertida como o cinismo confere,e triste como todo o grande ciclo vicioso que se depara com o final infeliz pra cada individuo dependente da sorte em meio à paixões desenfreadas.Não importam mais os cenarios estilizados mas o que interessa agora são os movimentos de camera acompanhando os hormonios de Lulu quando ela corre feliz,saltita excitada,sorri inebriada ou bate em todo o mundo.O que importa é o ser humano.

Louise Brooks não resistiu ao cinema falado mas seu corte se chama Lulu até hoje e seu magnetismo foi descoberto por Pabst depois de meses de procura
Eu assisti um unico filme de Louise Brooks antes desse,"Beggars of Life"(1928),que ela fez nos EUA antes de fugir e que ela mostra um talento incrivel atuando como uma garota que se junta com um mendigo numa fuga pela ferrovia depois de matar o abusivo padastro.Mas em "A Caixa de Pandora" ela se supera e vira um mito se agarrando nos braços de homens fortes,se aproveitando de homens fracos e carregando todos num redemoinho que acaba em jogos,assassinato,fuga,prostituição e um encontro com Jack The Ripper.
Ela tem maldade?Não.O que ela tem é uma sexualidade maliciosa e despudorada tão latente (um "it" perverso de Clara Bow)que inevitalmente é usado pra atingir seus objetivos ambiciosos acompanhado de uma personalidade ciumenta,magnética e promiscua.E é sempre a pessoa "adorável" que se transforma em monstro,como se o amor que um homem sente por uma mulher como ela fosse a pior das maldições(vide "Sunrise" do Murnau e "O Anjo Azul" de Sternberg).E essa natureza feminina de inebriação e capacidade de destruição é representada na figura de Pandora da mitologia grega que Deus enviou com uma caixa repleta de vicios pra castigar a humanidade pelo roubo do fogo por Prometeu.

Nesse filme está  a prova da consolidação de um mito cinematografico influente e importante num contexto social.Até a  Condessa Geschwitz se apaixona por Lulu e possui olhares lesbicos excitantes e quentes o que transforma a sensualidade de uma Gloria Swanson em algo puritano perto da libido de Brooks capaz de atrair e subjugar ambos os sexos.

Pabst usou Louise Brooks para inaugurar uma forma de mostrar o mundo do ponto de vista dos dramas psicosexuais de uma sociedade REAL mas sem esquecer da poética da camera que seria seguido por Renoir,Lubitsch,etc.
Um marco.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"A Cruz dos Anos" - by Leo McCarey - 1937

"Um filme que faria até as pedras chorarem" - Orson Welles




Realmente nos anos 30 Leo McCarey nos presenteou com uma obra cuja sensibilidade e humanismo em plena era da depressão e da desvalorização familiar não era só essencial,como tambem digna de reflexão.A historia de dois velhos pais que são desterrados pelo banco e ignorados pelos filhos só encontrou obra passivel de comparação em 1953 com "Era Uma Vez em Tóquio"(1953) de Yasujiro Ozu,roteirizado por Kogo Noda que assistiu "A Cruz dos Anos" em 1937,que por sua vez teve grande sucesso no Japão.A diferença mais crucial portanto é que no filme de Ozu os pais são vitimas do esquecimento dos filhos diante do homem moderno e suas ocupações enquanto que no filme de McCarey os pais não são só vistos constantemente como obstaculos,mas têm suas vidas separadas para sempre.

O filme começa com o casal de idosos interpretados pelos veteranos e excelentes Victor Moore e Beulah Bondi reunindo os filhos para contar a tragica noticia de seu despejo.Os filhos passam essa situação de um para outro decidindo por ter que separar os pais pela "impossibilidade" de cuidar dos dois juntos de uma vez,ficando  a mãe na casa do filho George(o excelente Thomas Mitchell) e o pai na casa da desprezivel filha Cora( a inglesa Elizabeth Risdon),a milhas de distancia.

Dificilmente nos anos 30 a câmera ficou tão a serviço do seu excelente elenco e suas sensiveis atuações num tema moderno à epoca,do ponto de vista social,e tão pungente,mostrando o humanismo de seu diretor.Os velhos são vistos como impertinentes como na cena em que a mulher de George tenta dar uma aula de bridge enquanto a velha mãe faz barulho na cadeira de balanço;quando ela atende o telefone e com uma voz alta conversa com seu distante marido,os elegantes alunos assistem e escutam no background mudando suas expressões do amuo à tristeza a medida que vão sentindo  a dor e a angustia na voz da velha senhora.Ou quando ela encontra na correspondencia a carta do asilo e a câmera acompanha sua face triste com a chegada de George para dar a noticia,sendo interrompido pela renuncia da propria ao perceber a impossibilidade de continuar com seu velho amor ou de ser realmente amada por quem se ama,seus proprios filhos.A neta barulhenta e putinha que a abandona na sal de cinema pra se relacionar com um homem mais velho,os valores modernos eram tratados sem receio como nas grandes obras de McCarey.O casamento moderno e seus superfluos valores de George junto com os problemas financeiros e a neura egoista de Cora que põe seu pai doente pra dormir no sofão ,o transferindo para a cama após a chegada do médico,são retratos sociais que mostram a indiferença familiar a que  estava sendo conduzida o mundo naquela época,até o caos total do pós-guerra.


Quando eles se encontram para uma despedida antes da viagem do velho para California para motivos de saúde(na verdade uma desculpa para Cora o abandonar),McCarey os coloca lado a lado de braços dados num passeio final em que as horas tem que ser contadas,num desespero apaixonante de dois jovens amantes.A lembrança dos velhos tempos surge na visita de ambos ao hotel onde passaram sua lua-de-mel,onde são bem atendidos,onde a valsa é retocada para dançarem...onde a nostalgia e o amor na vida de duas pessoas condenadas ao esmagamento que o desprezo causa no destino de dois velhos,toma corpo na forma de lagrimas de quem assiste.
Aquela honestidade,solidariedade e compaixão dignos do humano mais sensivel e que não se encontra em seus filhos,ironicamente toma corpo nos desconhecidos como o vendedor de carro que promove uma tour pela cidade,o funcionario do hotel,ou o dono do armazem Sr. Reubens(que não consegue conter ao choro ao ler a carta,e em seguida chama sua mãe por pelo menos poder avista-la após ser testemunho de um terrivel descaso).Leo McCarey fez o filme logo após seu pai morrer,e se encontra tal familiaridade na entrega de alma que o diretor oferece atraves da despedida de um trem,triste como nenhuma despedida....

domingo, 13 de novembro de 2011

"Diabo a Quatro" by Leo McCarey - 1933

 Anarquia cômica sonora e visual.

Em 1933 a inclusão do som e da fala no cinema teria uma reviravolta na comédia mundial com Groucho Marx usando de ofensas,atitudes non-senses e tiradas inteligentes de forma debochada  e seus irmãos Harpo e Chico,donos de incriveis e perturbadoras gags visuais.

Leo McCarey ,um californiano,começou sua carreira como assistente de Tod Browning nos anos 20,(Browning foi diretor de obras-primas como "O monstro do Circo"(1927))antes de assumir a cadeira em produções cômicas de Hal Roach.
McCarey na época teve a importante decisão histórica de unir Stan Laurel e Oliver Hardy e criou o "O Gordo e Magro",a maior dupla comica do cinema.
O estilo cartoonesco adotado por McCarey em curtas da dupla como "We Faw Down"(1928) e "Liberty"(1929),junto com as experimentações surrealisticas que exercitou em dois curtas que dirigiu do comediante Charley Chase,são utilizadas em prol da originalidade do humor dos Marx.Um dos filmes de Gordo e Magro supervisionado por Leo McCarey ja se chamava "Duck Soup"(1927),uma giria que poderia ser vista como "facil de fazer,ou "barbada"...uma duck soup.

Groucho Marx faz Rufus T. Firefly,o lider anarquico e ditador da nação de Freedonia escolhido pela rica Mrs.Teasdale(a sempre vitima de Groucho,Margaret Dumont),que sofre tentativas de sabotagem do embaixador Trentino(Louis Calhern),de uma dançarina e dos espiões atrapalhados Chicolini(Chico Marx) e Pinky(Harpo Marx).
Groucho se sobressai de forma genial como um metralhadora de frases inteligentemente ofensivas e de conotação sexual onde dança,canta,insulta,da tapa na cara...seu numero cantando  "Just Wait 'Til I Get Through With It"onde desfila as leis ditatoriais de seu Estado como permissão de adulterio,aumento de impostos,etc. tudo de forma tão hilaria é tão genial que Mussolini proibiu o filme achando que fosse diretamente direcionado a ele.Talvez a ascenção de Hitler na Alemanha e Mussolini na Italia ligado a Depresão de 1929 contribuiu pro filme ser o menos favoravel economicamente dos filmes dos Marx.Tirar sarro de tudo isso rendeu um flop nas bilheterias e um desacordo com a Paramount,onde eles ja haviam filmado alguns ótimos filmes.Apesar dessa sátira politica conseguir atingir apices de brilhantismo de ironia denunciativa,a história é pano de fundo para o humor verborragico e ofensivo de Groucho em contraste com o humor visual de Chico e Harpo(que fala com buzinas e utiliza tesouras para cortar tudo o que vê pela frente).


A experiencia de MacCarey em conduzir gags e experimentar novas possibilidades são devidamente equilibradas com grandes canções escritas por Bert Kalmar e Harry Ruby como a incrivel cena após o absurdo julgamento de Chicolini onde todos cantam "This Country's Going To War",inclusive o irmão Zeppo em sua ultima aparição;cena usada como elixir de otimismo no final de "Hannah e Suas Irmãs"(1986) de Woody Allen(diretor que tambem filmou "Bananas"(1971) que muitos consideram uma homenagem sequencia de "Diabo a Quatro").A incrivel gag do chapéu do vendedor de amendoim(Edgar Kennedy),cuja velocidade e sincronia de movimentos faz com que chapéis sejam trocados e a vida do vendedor destruida( a cena da banheira é engraçadissima);a tatuagem viva de Harpo;a cena do espelho,uma aula...imitada em varias midias;e o final na guerra onde Groucho encontra o auge da inspiração desfilando em diversos uniformes,de escoteiro-mestre a soldado sovietico até a cena final,uma obra-de-arte,um dos melhores finais de todos os tempos(como MacCarey sabe fazer como ninguem).
Um filme onde a coleção de frases geniais é grande e que mostraria o caminho pra futuras comedias numa transição dos comediantes da era muda pra nova geração da era falada.Uma comédia importantissima pra historia do cinema.

domingo, 6 de novembro de 2011

"Uma Janela Para o Amor" by James Ivory - 1985

A união do americano James Ivory,o produtor indiano Ismail Merchant e a roteirista alemã Ruth Prawer Jhabvala resultou em pelo menos 4 grandes filmes perfeccionistas e absolutamente perfeitas adaptações de romances.
Parece ser uma grande melosidade,filmes de época ingleses não encontra lugar na exigencia dos jovens brasileiros por exemplo,mas James Ivory e suas produções são nomes a serem considerados e não só por adoradores do Oscar cujas varias estatuetas foram para seus filmes,alêm das indicações é claro.
O livro de E.M Forster foi escrito em 1908 na época em que o Rei Eduardo VII incentivava as artes e o sufragio feminino numa transição da sociedade inglesa visando a modernidade.
E claro,ingleses jogando tenis nos gramados ao sol eram imagens frequentes desse periodo.

Miss Lucy Honeychurch é um exemplo de garota que encontra a liberdade de escolha,o poder e a possibilidade da escolha em meio a sua descoberta sexual.O começo em Florença onde Lucy se encontra como turista com sua prima Charlotte(a tipica inglesa conservadora interpretada pela sempre competente Maggie Smith)em um hotel cujas presenças de diversoso outros personagens são compartilhadas,como os turistas ingleses Mr Emersom(um desbocado progressista fã de Thoureau) e seu filho George(absolutamente filosofico e aventureiro a ponto de extremas divagações),alêm do vigario malicioso Beebs(o sempre otimo Simon Callow),as duas velhotas Allans e a escritora libertaria Eleanor Lavish(que puta aparição de Judi Dench,cada momento seu é sublime) de uma importancia quase que metafisica no enredo final do filme,que leva Charlotte para uma divagação sobre o fogo escondido em Lucy numa viagem por Florença sem o Baedeker.
Após a visão da violência num homem esfaqueado (numa cena que me fez lembrar "O Atalante" de Jean Vigo)ela é acolhida por George e atraida por seu jeito selvagem.
Nota-se que o trunfo da produção do filme vai do figurino à direção de arte,a direção de Ivory tem o trunfo de harmonizar a edição e a fotografia a ponto de apresentar seus personagens através do estilo quadrinesco-literario que a sétima arte pode alcançar como ponto maximo de equalização com a literatura e o modo de se digerir um historia sem contar com excessos cansativos ou bordas gordurosas.
Os filmes de Ivory são polidos mesmo transpondo na decada de 80 um romance cujos temas ja eram pouco ligados por si só à contemporaneidade,mas que devem ser julgadas dentro da sua proposta.
Se direcionar ao romance e aprofundar tudo o que estiver ligado a ele,não importa se moderno ou não.
Prazeroso é ver Bonham-Carter linda como nunca em seu debut detonando como Lucy,uma mulher no fio da navalha entre o conservadorismo tedioso de se casar com Cecil Vyse(Daniel Day-Lewis,cuja atuação sublime lhe alçou ao patamar dos grandes talentos),que não sabe beijar,não sabe o que é uma mulher,não sabe jogar tênis...
Valores individuais são jogadas pro alto no romance de E.M. Forster que queria retratar a transição feminina à época, a queda da Belle Époque e dos costumes aristocraticos eram iminentes num comportamento mais a favor do livre -arbitrio feminista.Como Ivory nos mostra de forma brilhante no paralelo do beijo com pegada,demorado e verdadeiro de George em Lucy em meio as flores,com o beijo de Cecil,engraçadissimo,torto,seco e erratico.
Bonham-Carter passa de forma descomunal a tensão sexual e a dúvida do comportamento a favor do desejo verdadeiro de querer seu homem verdadeiro.E o final na janela com uma vista exala de forma orgasmica o final triunfante de uma mulher representando uma época,veja aí a riqueza de profundidade que seus personagens principais adquirem.
James Ivory é a prova através de suas adaptações que o cinema não é só travellings e piruetas mas a conjugação de musica,edição e fotografia(alem de figurino,direção de arte...)para se contar uma boa historia sem a pretensão senão de contar uma boa historia.
A de uma garota cujo Beethoven tocado com um fogo no piano,lhe falta na vida real.
Um terno,profundo e engraçadissimo filme.Importante!