domingo, 2 de setembro de 2012

"Bande à Part"(1964) - Jean-Luc Godard




"Bande à Part" é a liberdade acima de tudo.O "Jules e Jim" de Godard.O glamour da vadiagem,da cidade,das ruas,de Ana Karina.A tentação direcionada ao crime,ao fazer o errado.Ao realismo com cara de improviso.É a linguagem new wave de Godard menos pretensiosa e mais apaixonada.Sem retro-projeção,a câmera se posiciona como observadora e se movimenta como uma pedestre,fazendo de Paris o personagem principal,e os sentimentos da cidade são o que há de mais honesto em sua sociedade de  delinquentes que guardam armas na lavanderia,e iludem moças a cometerem crimes tendo a cultura pulp de filmes-b como influencia comportamental.Aqui no caso,Franz e Arthur tentando fazer a cabeça de Odile (Karina) para cometer um roubo dentro de sua própria casa.Em meio a flertes ,ciumes e seduções sinceras,a cabeça de Odile vai se voltando claramente à uma cumplicidade no anseio ao proibido.

Anti-heróis marginais convivendo nas margens dos arroios lendo a coluna policial em voz alta,sofrendo violência em casa,que chegam ao ponto de correr nos corredores do Louvre e gastam um bom tempo em café.Uma dança soul.Toda uma influência posterior em Tarantino.Anti-heróis sujeitos à anti-convenções narrativas,como digressões em  narração do próprio diretor se colocando numa intertextualidade, explicando os sentimentos dos personagens que interagem de maneira adolescente no cursinho de inglês,nos chamando à realidade.
Modernos acima de tudo,cosmopolitas e globais;o fatalismo do marginal é o que Godard mais capta no noir norte-americano.Assim como a liberdade que a câmera adquire em tracking shots ou closes que possuem a mesma intenção proposta pelo neo-realista Rosselini -expor a crueza do rosto humano,sem qualquer máscara.
A câmera no banco de trás do conversível sentindo o cheiro das ruas.
Cada um dos três possuem a sua malandragem independente das diferentes reações face ao trágico desfecho da irresponsabilidade.

Assim como em "Acossado" e "Pierrot le Fou",o que importa pra Godard é o anarquico,o anti-social,o vadio,o malandro como representante da liberdade da Nouvelle Vague.É a crônica de uma cidade estilizada,a arte do low budget,do do it yourself.Os atores nem são mais atores,estão imersos na frescura de uma interpretação descompromisadamente familiar.Karina somente se deixa ser Karina com seus olhos expressivos e sua beleza sensual,a musa do movimento,mais linda que Jeanne Moureau.
"Bande a Parte" é Godard em estado bruto,paradoxalmente exaltando a despretensão.

"A Noviça Rebelde"(1965) - Robert Wise



Depois de filmar seu primeiro musical,"Amor,Sublime,Amor"(1961),e praticamente restituir o gênero à uma nova posição,Robert Wise decidiu voltar ao intimismo do romance de "Dois na Gangorra"(1962) ou o horror psicológico de "Desafio do Além" (1963).Mesmo que o musical da dupla Rodgers and Hammrstein's já fizesse sucesso intenso na Broadway,a sua fama de açucarado demais não só afastou o próprio diretor no início,como nomes como Donen e Gene Kelly também recusaram o projeto,que esteve nas mão de William Wyler  e que ao fim de tudo largou de mão para filmar "O Colecionador".Essa batata quente voltou nas mão de Wise que como de costume,usou de seu profissionalismo para extrair o máximo do cerne da obra.
É aí que entra a indignação quanto ao título brasileiro,já que a noviça rebelde nada mais é do que o instrumento da verdadeira protagonista do filme,que é o som da música.O que move o filme é a paixão pela música e na sua capacidade de  transformação espiritual,porque é a música que constantemente durante a historia se encontra como a heroína tanto nos conflitos de relacionamento familiar,quanto no êxtase hiperativo e sexual da noviça nas colinas,seja na forma como a noviça se integra ao convívio com as crianças,ou quando serve de mote pra a fuga politica no final.O som da música e sua influencia são o que interessa aqui.

Se formos comparar com "Amor,Estranho,Amor",enquanto a música de Bernstein é meio tradicional e acomodada demais,a música de Rodgers e Hammerstein já nasce com a pretensão de se unir um excelente arranjo com uma melodia envolvente,alcançando o objetivo.Musicas realmente brilhantes como "Do-re-mi"(com uma edição invocando o êxtase da liberdade através da escala musical),"My Favorite Things"(que virou peça de jazz de 14 minutos nas mãos de John Coltrane),constrastam com despreziveis letras-de-puberdade de "16Goin On 17"(cantada na inútil cena da chuva tendo a descoberta sexual de Liesl como mote de conservadorismo irritantemente canastrão na forma do primeiro beijo)ou as poucas inspiradas cenas de cantoria das freiras no inicio do filme.Assim como "Amor,Estranho,Amor",o modo de Wise conduzir os momentos de cantoria contando com montagem repleta de sinapses temporais é o que dá o grande prazer emocional ao filme,e assim soube-se retirar o que há de pungente em cada uma das grandes músicas."Sound of Music" por exemplo,é tão auto-afirmativa em seu poder melódico de exaltação,que Wise só se contentou em introduzi-la no filme,antes dos créditos iniciais,no estupendo plano filmado de um helicóptero onde a câmera sobrevoa as colinas e encontra Julie Andrews de forma brilhante cantando "The hills are alive,with the sound of music...".É "Sound of Music" que descongela o Capitão Von Trapp.Afinal,é essa canção que dá nome ao filme(plim!) representando consequentemente a intenção supra-citada de mostrar como a música insere o amor e a esperança no ser humano através de uma melodia tocante.

Como o Capitão Von Trapp  é um viúvo Capitão da Marinha Austríaca,anti-nazi,que vive no final da década de 30 quando a Austria está prestes a ser invadida pelo Nazismo,e recebe como nova governanta a espirituosa noviça Maria que traz de volta o amor ao seu coração congelado através das cantorias e brincadeiras,os defeitos do filme começam quando a transição do efeito da musica sai do caráter individual dos corações da pessoas em seu retorno ao carinho familiar,e pula para a visão politica do nazismo,que não tem um desenvolvimento tão completo,ao ponto de ser baseado num relacionamento tosco e superfical de Liesl com o mensageiro Rolfe circundado de personagens caricatos que resumem o autoritarismo à ameaças kafkianas.Enquanto o enredo se torna uma ode ao catolicismo e ao conservadorismo, esses vilões/caricaturas vão surgindo em situações que destoam do caráter metafísico e redentor da primeira metade.Seria o facismo do conservadorismo do casamento,contra o facismo politico.

Alem da música,Julie Andrews tem o carisma necessário para uma heroína,e aqui as atuações dos adultos supram sobremaneira as previsíveis crianças.O carisma não foi o suficiente para omitir a clara mudança de seu personagem depois do casamento,numa obvia renúncia patriarcal que não condizia com o aspecto mais libertário de sua personalidade pura do convento,onde o êxtase sexual se resumia só a cantarolar e se atrasar às igualmente facistas obrigações do convento.Com filosofias anacrônicas e hipócritas tanto pro seu tempo quanto para o tempo em que a historia se desenrola,foi essa esperança no conservadorismo que o panico do mundo capitalista do pós-guerra proliferou que fez do filme um sucesso-família.
Se nos concentrarmos apenas no poder da música conduzida pelas imagens do Wise  e na santificada presença do talento de Andrews,pode-se sem dúvida extrair um imenso prazer acima das questões morais e políticas que o destino da historia insere na humanidade e em diversas manifestações artísticas que se tornam retrógadas com o passar do tempo.

"Desafio do Além"(1963) - Robert Wise




"Desafio do Alêm" foi a prova definitiva do talento de Wise.Depois do extravagante e colorido "Amor,Sublime,Amor",ele retorna ao preto-e-branco e se associa a motivos hitchcockianos e artimanhas sonoro-visuais para adaptar um dos livros de terror mais elogiados do seculo XX.
Se voltando ao psicológico individual e criando um conflito entre o sobrenatural e a paranóia,"Desafio do Alem" foi,junto com filmes como "Psicose" e "Vertigo",um dos grandes representantes do retrato do distúrbio mental em um enredo de horror.O uso de uma mansão mal-assombrada como catalisador das emoções humanas faz perdoar o mal que Wise fez para o filme "Soberba" de Orson Welles,que coincidentemente tambêm usava uma mansão como cenário do desenvolvimento de seus principais personagens.

Os primeiros 6 minutos do filme são narrados pelo Professor Markway e conta todo o antepassado percorrido por tragedias que a mansão carrega em si,em uma série de flashbacks,numa síntese magistral que comprova mais uma vez o talento do diretor para montagem,e o seu costume de sempre começar seus filmes de forma impactante.O tal Professor decide reunir um grupo de paranormais para conseguir descobrir algo que prove o sobrenatural presente na casa.Servindo de sempre convenientes observações,Markway é o homem respeitavel que defende apaixonadamente a existência do sobrenatural em resposta à incredulidade arrogante do jovem Luke Sanderson ,herdeiro da mansão que decide se juntar ao empreendimento.As duas paranormais são Theodora e Eleanor Vance.Enquanto Theo usa de sua telepatia de forma provocativa carregando consigo uma lascividade lésbica,Eleanor é uma jovem reprimida sexualmente que procura desesperadamente por uma fuga do sofá da casa de sua irmã,onde ela vive após ter cuidado anos da mãe doente e ter presenciado um poltergeist.

Diferente do livro de Shirley Jackson,o filme se afasta dos outros personagens e se concentra exclusivamente na esquizofrenia irritadiça e neurótica de Eleanor,usando a sua repressão de forma quase que doentia como a principal vítima dos fenômenos paranormais.Devido à sua fraqueza,o sobrenatural a utiliza de todas as formas possíveis,fazendo dela a causadora dos mais trágicos desfechos na casa.
É no retrato de Eleanor que Wise se mostra genial,sem exagero.O seu uso de profundidade de campo pra ressaltar a alienação da personagem,assim como a utilização de voice-over em que Eleanor explicita todos seus medos,desejos e anseios,são o que deixa tênue a linha entre os fantasmas interiores e os exteriores.E ha de se ressaltar que Julie Harris faz mais outro grande trabalho metódico de atuação que faz com que o horror do filme se concentre mais no medo da nossa perspectiva em relação ao destino de uma personagem tão frágil,do que qualquer susto no escuro.

"Amor,Sublime,Amor"(1961)-Robert Wise



O musical "West Side Story" de Arthur Laurents foi uma das primeiras modernizações de uma famosa peça de Shakespeare,"Romeu e Julieta",transposto para as gangs do lado oeste da Nova York contemporânea,onde os americanos brancos se encontram em constantes guerras com os imigrantes porto-riquenhos pelo domínio do território.Robert Wise nunca tinha dirigido um musical e o seu conhecimento das ruas de Nova York só eram expostos em noirs sombrios e melodramáticos.A sua já conhecida versatilidade e o seu currículo extenso lhe garantiu não só dar o primeiro passo no gênero musical,como revolucionar tal gênero,usando montagem para expressar o ritmo ou o tema da letra,tendo a sorte de ainda serem confeitadas com acrobacias incríveis de Jerome Robbins(coreógrafo a quem foi concedido o credito de co-diretor pelo próprio Wise.

Diferente de uma produção musical feita para os teatros mágicos da Broadway,a adaptação para o cinema leva consigo um certo perigo.Porque apesar do triunfo da direção conseguir criar imensas danças e refúgios visuais com a ambivalência da cor violeta e amarela assim como momentos sublimes: a maravilhosa introdução com a câmera esvoaçando entre bailarinos se digladiando entre si num cenário até então pouco explorado por um musical,protagonizar com danças assuntos sérios como marginalização,xenofobia e racismo envolve uma certa responsabilidade.E em levantar questões referente a esse aspecto social,o filme é falho,por não conseguir fazer com que uma denúncia se sobressaia em meio ao tratamento fantástico-visual.
Percebe-se  que o filme tenta mostrar que ambas as gangs estão inconscientemente unidas pelo mesmo preconceito que fere a  marginalização social,como o aspecto de vilão da policia,indisposta ao entendimento psicológico dos delinquentes,porem é uma questão que fica sempre de lado para favorecer o desenvolvimento do romance e das sequencias eufóricas.
Os latinos ofendidos por serem imigrantes  e os brancos pertencentes á "social disease" ,é demonstrativo do receio do filme se auto-impor como uma forma de julgar qualquer lado.
As atuações de Russ Tamblyn como Riff(o líder dos brancos),que se mostra atleticamente favorável ao personagem,e em Rita Moreno,como Anita,são as mais sinceras e condizíveis  sem cair no abuso de recursos melodramáticos do resto do elenco.Toda essa artificialidade contrastando com pseudo-realismo faz com seja impossível  desassociar a imagem de filme-de-Oscar-aparência-política,visualmente lindo e aparentemente inofensivo.
O crédito de Wise não é a toa,o visual é o que mais impressiona,criando uma forma de simbiose imagem-musica que influenciaria Bob Fosse e Bahz Luhrmans e se sobrepondo até mesmo às musicas de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim,sendo que esse ultimo mostra na letra  analítica de "Gee,Officer Krupke" o que teve de mais astucioso em toda a tentativa do filme em retratar o jovem delinquente.

"O Dia em que a Terra Parou"(1951) - Robert Wise



Robert Wise não se importava intelectualmente com o quanto os  seus filmes poderiam representar de acordo com uma visão de mundo particular sua.A ligação dele com o filme era primordialmente estética.O seu domínio estava muito mais ligado com a edição e os recursos plásticos,que convergiam para o tema contextual do filme que lhe era imposto a dirigir.O que se pode chamar de versatilidade habilidosa.Um homem de diferentes gêneros,extraindo de cada um sua expressão artística mais latente.Trabalhando nos diversos componentes do esqueleto fílmico de mestres como Ford e Welles - de edição de som à montagem - ,sua experiencia lhe deu a capacidade de exprimir de si mesmo a linguagem pura do cinema independente da mensagem a ser emitida.Robert Wise foi um grande inspirador dos cineastas da New Hollywood,que buscaram percorrer pelos diferentes gêneros clássicos do cinema,sem se esquecer da honestidade estilística de cada um.

O que impressiona é  o contexto histórico.Situado em plena Guerra Fria e um pouco mais de 5 anos após o fim da Segunda Guerra e o surgimento da ONU,uma mensagem anti-atômica vindo do espaço substituiu os monstros perigosos e ou guerras de naves espaciais da ficção cientifica mais popular até então,abrindo as portas para uma abordagem mais metaforicamente politica,servindo às exigências intelectuais de uma humanidade muito mais realística e prestes a esbravejar contra o caos da modernidade.Situado num mundo que se apresentava como um tabuleiro de xadrez entre duas ideologias,com a coragem de revelar sutilmente o quão desprezível e ridícula são tais domínios ideológicos diante de uma realidade superior.
É ai que entra a genialidade do roteirista Edmund H. North em fazer uma analogia do extraterrestre Klaatu - cuja aparência humana também muda a face da ficção cientifica,nos aproximando do que é desconhecido de nós mesmos - ,com Jesus Cristo,dentro da subliminaridade da mensagem pacífica e de alerta,da condenação,da morte e da ressurreição.

O modo abrangente de Wise arranjar o artefato fílmico no conjunto de todas as partes vai desde o sons da nave espacial até o modo como Bernard Herrman usa o teremin(por sinal um dos primeiros instrumentos eletrônicos),ou a direção de arte embasbacante do interior da nave, só fazem se sobrepor àquele ufanismo recorrente de filmes americanos do pós-guerra em se colocarem como estereótipos da eficiência,não só distantes do resto do mundo em sua prepotência,mas se vendo sempre como se fossem somente eles os olhos do mundo.Ufanismo que irritantemente percorre as entrelinhas da visita de Klaatu ao american way of life desestruturado,ou de um país que não perde o orgulho nem no meio do pavor.O que é perigoso num filme com semelhante mensagem e caminha bambeamente na linha da propaganda ideológica do capitalismo mascarada num discurso anti-bélico.Mas a paranoia que a obra representa é muito sincera,e é esse medo sincero no mundo da ameaça atômica que faz com o que o intuito principal da mensagem do filme seja atingido acima de qualquer facção,dentro da aparência de um episodio bem produzido do "Twilight Zone".


sábado, 1 de setembro de 2012

"Fausto"(1926) -F.W. Murnau




Fruto de um buscar pelo perfeccionismo,o uso de efeitos especiais e de elementos expressionistas à favor da magia,"Fausto" foi um dos filmes mais impactantes em sua época e um dos mais caros produzidos pela UFA antes de Fritz Lang surgir com seu "Metrópolis" um ano depois.
Misturando elementos referentes tanto à lenda medieval  quanto à peça de Goethe,o filme consegue ser um êxtase imagético aliado à representação alegórica da liberdade do homem de decidir entre o bem e o mal.

Cavaleiros vassalos do demonio espalham a fome e a doença enquanto raios de luz fulminantes cortam a tela antecipando o surgimento ofuscante de um arcanjo que resolve fazer uma aposta com Mephisto(o demonio) sobre a vulnerabilidade de Fausto,um alquimista considerado um exemplo de religiosidade e virtude.
Iniciada a aposta,numa cena magistral e horripilante,um grande trabalho de maquete e enquadramento - recurso que,assim como a sobreposição, é utilizado para mostrar o dominio do diabo -  Mephisto espalha a peste negra sobre a cidade do sábio iniciando uma histeria geral.
Ao ver que seus conhecimentos e sua fé não são aptos para ajudar seu povo,Fausto decide renunciar à Deus jogando a Biblia ao fogo.Mephisto então se aproveita e através de mensagens  no próprio livro em chamas,sugere que Fausto invoque seu nome numa encruzilhada.
Hesitante,temeroso,arrependido mas certo de que seria uma chance de ajudar os necessitados,Fausto assina um pacto com o demônio para ter o poder da cura.Numa tentativa  ineficiente de curar uma criança pela presença da sagrada Cruz,os populares percebem o seu pacto e o apedrejam sem dó.Vendo que a união com o Diabo não lhe proporcionaria paz,ele tenta o suicídio. Mephisto então lhe oferece a juventude fazendo com que o ancião se  entregue à uma séries de tentações desenfreadas.Depois de desfrutar das benesses do diabo - inclusive fazer amor com a Princesa de Parma,a mais linda mulher do mundo, destruindo com seu casamento -Fausto se encontra insatisfeito e decide voltar para sua cidade natal.
É quando conhece a linda e cristã Gretchen que vive adoravelmente com seu irmão e sua mãe numa casa cheia de felicidade.Vitima das traições de Mephisto,uma série de desgraças faz com que Fausto se afaste de sua amada ao mesmo tempo que destrói a vida da inocente.

Através de uma série de fatalismos o filme tem como mensagem a supremacia do amor acima de tudo,mas de uma forma melodramaticamente progressiva.
Muito se criticou sobre o demorado flerte entre Gretchen e Fausto e o aspecto cômico que o Diabo(o sempre genial Emmil Jannings) toma no momento em que ele distrai a tia da garota,distanciando o filme das verdades metafísicas que o conto de Fausto alegoricamente encerraria.Mas são momentos de suspiro,onde qualquer displicência de Fausto é posta de lado para um namoro bucólico em meio à referencias a anjos de Boticelli em forma de crianças,que cercam os amantes enquanto o demônio é só um bufão arquitetando a desgraça.Essencial esses momentos de distração se prolongarem o suficiente,pois o choque necessário para a compreensão do objetivo do filme é o sofrimento posterior de Gretchen,que perde sua familia,é humilhada,rejeitada,perde o filho e passa todas as dores do mundo.
Afinal não é a dor física,o desprezo de seu povo,ou a falta de prestígio que causou a desgraça de Fausto...mas o sofrimento do ente amado.E é impossível quem ama ou já amou não sentir a dor no peito de ver Gretchen em duras penas até o final redentor nas chamas.Gretchen acaba sendo uma personagem superior ao protagonista,representando o ato salvador,o brilho do halo do arcanjo, o amor.O sentimento supremo explicitado em letras grandes no final,e que vinha a calhar numa Alemanha onde o nazismo era ascendente.E é essa união do romântico com o expressionista que faz com que ao final do filme permaneça a sensação de algo adquirido,de uma obra que pretendeu ser desde o início uma síntese máxima do decadente Expressionismo -nas atuações meticulosas dos atores dentro da escola Reinhardt ou nos objetos de lugares pequenos enquadrados com o claro/escuro em planos psicologicamente montados -que conseguiu dar uma lição sem ser moralista,mas pungente e absolutamente honesto dentro da proposta estética do autor,assim como Murnau fez em "A Ultima Gargalhada" ou o posterior "Aurora" se tornando a figura mais influente dentro do gérmen que originaria o cinema moderno,dentro da geração pré-Kane ou Renoir.




terça-feira, 28 de agosto de 2012

"Nossos Parabéns ao Freitas"(2003)- Felipe Marcondes Sant'Angelo


Apesar de ter ganhado vários prêmios,principalmente de caráter universitário(é um filme da USP),muitas pessoas viram a cara para esse filme.
Por quê?

Muita gente acha que só porque o Brasil mostra bundas nuas de milhares de mulatas no Carnaval,por ser um país festivo,por ser um país de suor e cerveja,por ser um país que se livrou da Ditadura...ele é um país livre da hipocrisia e da intolerância.
Muito pelo contrario.
É um país que sofre os resquícios da ditadura.
É um país que se esbalda em falsos conceitos.
É um país que proíbe comediantes de fazer humor em época de eleição.
É um país retrógado onde o monopólio cultural não é o cinema,nem a literatura,nem o teatro,nem a música...mas a tv Globo.
É o quinto maior pais do mundo em extensão e não consegue mais que 3 medalhas de ouro nas Olimpiadas...porque não há incentivo governamental.
É um país feito de peões de firma...onde o que importa não é a cultura,mas uma grande quantidade de alienados que cheguem do trabalho para poderem assistir sua novelinha descansado.
Uma grande quantidade de gente que não se preocupa em votar no justo,mas naquele que te consiga um cargo de confiança.
A falta de incentivo não é só no esporte,mas o monopólio da televisão evita o desenvolvimento do cinema.
A falta de incentivo à leitura faz com que escritores passem fome(conheço moleque cujo pai pagou 11 anos de colégio particular,e ainda assim o moleque saiu da escola sem saber o valor da literatura).
A música brasileira vive ainda nos nostálgicos anos 70 da MPB enquanto hoje em dia o que importa é um refrão grudento com que a mídia alimenta uma industria superficial.
O povo brasileiro é rebanho e se serve de um patriotismo sem-noção pra se acomodar e dizer
"-Está tudo bem.O Brasil está melhorando!" ou " - Fazer o que?!A vida é assim!".
O povo brasileiro é aquele que quem faz acontecer...tem que suar pra ver resultado.Aquele que reclama...não tira o rabo da frente da tv pra tornar seus reclames públicos.
E a grande maioria se ilude com um governo que vive dando aperitivos sócio-democratas,não quer mudar,não quer pensar...mas mesmo assim gosta de dar opiniões infundadas em prol da BURRICE INSTITUCIONALIZADA.

Por isso tudo não é de se espantar que um curta de apenas 11 minutos como "Nossos Parabéns ao Freitas" passe despercebido.O protagonista é um cara fissurado em comer cú de puta.
Varios sentiriam seu mundinho superficial ofendido por semelhante herói,por semelhante argumento,ou por desfechos "infames".
Se o filme fosse superficial,banal,mal-feito e inútil...tudo bem.Mas não é o que acontece aqui.Esse curta faz a gente pensar e muito mais do que novelinha das oito,revistas retrógadas de esquerda ou jornais manipulativos.Tem como objetivo esclarecer fatos simples da sexualidade humana,da "má-educação",do antigo axioma "Olhe para si mesmo antes de falar dos outros!", de um modo irônico..não é nada ofensivo. Mesmo assim permanece na obscuridade devido a cegueira hipócrita dos intelectuais brasileiros.É muito mais fácil assistir filmes legendados dos Farrely e não se sentir ofendido por aquilo que não se  entende..ou ir escondido se masturbar na internet devido à rotina de um casamento frustrante.
Mas valorizar um curta como esse?!Ha hahahahahhha.A gente ainda não vive num país como esse...e visto como anda,ainda vai demorar muito para podermos ser considerados intelectualmente(e não pseudo-intelectualmente) dignos.
O Brasil esta se desenvolvendo economicamente tendo nós como gado para isso...e o gado não pode pensar.

O curta abre com um monólogo de Freitas sobre sua obsessão por cú,diretamete pra câmera,cagando numa privada.Usando da vulgaridade proposital,o curta se mostra contra o machismo verborrágico e desenfrado de Freitas e seus amigos para dar a lição final de que: "As mulheres não são objetos.Aprenda a lidar com a sociedade à sua volta!".
Afinal é legal pagar de comedor de cú,fodedor,chupador de buceta...mas e quanto às mulheres que estão a sua volta em sua familia?Sua filha?Sua irmã?Existem pessoas que vão pensar a mesma coisa em relação à elas.E é aí que surge o aprendizado de Freitas da pior forma possível e nas mãos do cara considerado mais infame do Brasil,Alexandre Frota,que aparece para desferir a frase de efeito:"Passarinho que come pedra sabe o cú que tem".O comedor de cú se mostra um reprimido...um reacionario.

Feito de uma maneira profissional com uma edição maravilhosa(com direito à jump-cuts),atuações profissionais,trilha sonora certeira e fotografia esperta,o filme é uma pérola do cinema de curta-metragem brasileiro.E visto a característica de "bundão" do cinema nacional atual(dominado pela Globo filmes),acaba sendo valioso dentro do cinema nacional de maneira geral.É uma comédia de costumes que beira o surreal.Com tantos críticos de cinema tendo o background suficiente pra fazer ótimos curtas e fazendo porcarias com falta de originalidade mascarada como referencias e textos pretensiosos que beiram à imbecilidade como o péssimo "A Ética" do irrelevante Pablo Villaça...esse curta não só mostra como filosofar de forma cômica sobre comportamentos aparentemente banais do ser humano,como tambêm ensina a como ser um artista original em apenas 11 minutos.
Excelente.