domingo, 9 de setembro de 2012
"Rebecca"(1940) - Alfred Hitchcock
Quando desembarcou nos EUA,Hitchcock já iniciou com dois filmes no mesmo ano: "Correspondente Estrangeiro" e "Rebecca".
Enquanto o primeiro foi o thriller inglês elevado ao status de super-produção e tinha mais a cara do diretor,o segundo foi o carro-chefe de David O. Selznick para ganhar o Oscar usando do talento alheio.Dinheiro não faltou na produção,o que claramente é mostrado na gótica introdução apresentando uma das maiores mansões cenográficas do cinema,e Hitchcock gostava de Daphne du Maurier,já tendo inclusive filmado a adaptação "Jamaica Inn" na Inglaterra um ano antes.
Independente de ter sido oportunista ou não,o filme abriu as portas para novas possibilidades no cinema de Hitchcock,sendo o primeiro a tomar um rumo psicologicamente intenso,se tornando a gênese da análise mental de "A Sombra de uma Dúvida"(1943),"Spellbound"(1945),e do ápice de "Um Corpo Que Cai"(1958),"Psicose"(1960) e Marnie(1964).
"Rebecca" é um dos filmes mais opressores,mais claustrofóbicos de Hitchcock,onde o pânico do deslocamento se reflete de forma angustiante na personagem de Joan Fontaine.
Fontaine é uma jovem órfã tímida e desajeitada que trabalha como acompanhante de uma falastrona ricaça em Monte Carlo quando conhece o viúvo Maxim de Winter(Laurence Olivier),proprietário da mansão de Manderlay,no que parece uma tentativa de suicídio deste.
Meio que seduzido pela forma desajeitada e infantil da jovem,Maxim decide se casar com ela.O problema é que uma nerd ,acostumada sempre a servir os mandos mais reles como acompanhante,está longe de ser a administradora aristocrática de uma mansão.Ao chegar em Manderley ela se depara com a presença opressora da casa,do fantasma presente de Rebecca(a falecida e popular ex-esposa de Maxim),e da tortura psicológica da Governanta Denvers que ainda guarda uma adoração fantasmagoricamente lésbica com Rebecca e faz de tudo para transformar num inferno a vida da nova Mrs.deWinter.
Num dos primeiros exercícios de manipulação psicológica do cinema,Hitchcock mistura elementos góticos e expressionistas para transformar apenas um nome num protagonista onipresente e que influencia os personagens em cada uma de suas reações,nem que seja na forma de um R bordado.
O personagem de Fontaine por exemplo,é anônimo,só sendo reconhecida como Mrs. deWinter após se casar,o que aumenta ainda mais o poder do nome Rebecca.
Eu só destaco atuações em filme quando sei que ajuda realmente uma porcentagem do desenvolvimento do filme.E o que Joan Fontaine faz aqui é inacreditável.Vivendo em constante ansiedade e amando um homem que vive num ambiente turbulento e neurastênico de recordações,sua personagem não consegue manter a cabeça ereta em frente aos empregados e é massacrada pelas altas paredes da mansão.
Fontaine era tratada de forma indescritivelmente cruel por Laurence Olivier nos sets,que queria sua mulher Vivien Leigh no filme.Hitchcock sabendo disso mentiu que não só Olivier como toda a produção a odiava,aumentando a autenticidade da incomunicabilidade da personagem e ao mesmo tempo se colocando como um dos diretores mais cruéis da história.
Judith Anderson por sua vez adquire o caráter mais expressionista do filme quando entra em interação com o cenário da mansão para manipular a mente de Mrs. Denver ou induzi-la ao suicidio,enquanto invoca o fantasma de Rebecca e se arrasta nosferaticamente como uma necrófila de saia.
"Rebecca" usaria de forma muito mais ampla que em seus filmes anteriores técnicas visuais que influenciariam cineastas posteriores(pleonasmo dizer isso),principalmente aquelas mais assimiladas pelos americanos,como zoom-in dramático,pioneiro uso de deep focus,tensão obtida pela montagem e alternância de closes,movimentos de câmera auto-explicativos(como quando a câmera vai relatando visualmente a confissão de Maxim sobre a morte de Rebecca na cabana),e a trilha sonora climática de Franz Waxman(antes de Bernard Herrman em "Cidadão Kane"),além claro do terror psicológico e da reviravolta que desestrutura a trama.
Os minutos finais continuam sublimes acima de tudo,com a camera invadindo a mansão que se incendeia presenciando o destino trágico da governanta que não se entregou e preferiu a morte,assim como a morte de Rebecca,simbolizada por um traveling em direção à um R bordado num travesseiro em chamas.Orson welles claramente chapou o coco com esse final.
"Alien 3"(1992) - David Fincher
O debut de David Fincher consegue mostrar muito mais das características soturnas e opressoras de seus melhores filmes do que "O Curioso caso de Benjamin Button"(2008) ou "A Rede Social"(2010).Aquela estética do desagradável fria que estaria muito mais elaboradamente expressa posteriormente em filmes em que ele teria um controle autoral maior como "Seven"(1995) ou "Clube da Luta"(1999),acaba se tornando superior à intervenções agonizantes que ele sofria do estúdio,fazendo com que o rascunho do estilo de Fincher acabe criando um clima sufocante condizente com a visão de mundo fria dos anos 90.
Conseguindo colocar suas idéias no roteiro,Fincher põe para escanteio qualquer possibilidade de respeito à mitologia dos filmes anteriores.E ele estava certo.O monopólio dos personagens não pertencia à Ridley Scott ou James Cameron.Enquanto o primeiro se mostrou habilidoso no suspense de ficcção científica em 1979,Cameron construiu uma militarizada carnificina testosterônica americana no espaço.A saga estava ali para que cada autor colocasse a sua visão.Fincher queria extrair o horror autêntico,e se tem um filme da série que mais chegue perto do puro gênero do horror,é "Alien 3".Principalmente do horror vigente na época,com gore realista e câmera subjetiva em corredores.
Em "Aliens - O Resgate"(1986) de Cameron,Ripley tem que defender à duras penas uma criança órfã enquanto se envolve amorosamente com Hicks(Michael Biehn) e adquire confiança no salvador andróide Bishop.Num final feliz e aliviador,os 4 personagens se salvam,quase que numa exaltação alegórica à família,hibernando todos juntos num módulo espacial.
Nos créditos iniciais de "Alien 3" Fincher mata todos esses personagens,deixando apenas Ripley como sobrevivente,quando o módulo é mais uma vez invadido pelo alienígena.Numa negação quase absoluta de bem,o módulo cai numa prisão-refinaria espacial habitada por condenados estrupadores,assassinos e afins, que resguardam a ordem e o respeito por uma fanática religião enquanto convivem numa atmosfera claustrofóbica de ar amarelado,cheiro de podridão,canos que servem de ninhos para vermes,barulho de portas de aço se fechando constantemente e eterna desconfiança.Ripley é afundada num universo de niilismo angustiante.Não só descobre que sua "filha" está morta como,na inevitabilidade de ter que descobrir como a criança morreu,ela tem que presenciar o médico da prisão Dr. Clemens(Charles Dance) abrir seu tórax com a edição de som cuidando dos ruídos mais desconfortáveis.Para concluir com o pessimismo,Ripley descobre não haver armas de fogo no local e estar grávida do alienígena partindo para uma corrida suicida quando qualquer chance de salvamento é implodida.
O niilismo é o que importa em "Alien 3",o niilismo acima de qualquer desenvolvimento psicológico.Se Ripley se encontra constantemente vitima de seu nemesis,aqui ela se encontra vítima do negativismo de Fincher.Dr. Clemens,que satisfaz a seca sexual da tenente,é abruptamente eliminado quando justamente parece ser ele o facho de luz,evitando espertamente a inutilidade romântica do conceito de horror que o diretor resguarda.Sigourney Weaver com sua cabeça raspada e com sua interação natural e até superiormente masculina diante dos presidiários,entrega sua Ripley mais resignadamente dura,destruida,experiente e devastada.A música do excelente compositor Elliot Goldenthal é igualmente eficiente na simbiose climática que adquire com o filme e que demorou um ano para ser desenvolvida com a colaboração do diretor.
"Aliens 3",se revisto, acaba sendo um dos horrores mais eficientes da década de 90 mesmo em sua incompletude,como o fraco uso do CGI ,inferior ao trabalho de Stan Winston(mas mesmo assim indicado ao Oscar,afinal é 1992),e o final do parto-suicida,por demais exagerado.
sábado, 8 de setembro de 2012
"Depois do Vendaval"(1952) - John Ford
"Depois do Vendaval" é o mais próximo que o cinema chegou da pintura.Uma das mais belas fotografias do cinema que não beiram a pretensão,muito pelo contrário,espelham a alma de um diretor.É o filme de Ford que mais vontade dá de ver e rever.É um sonho realizado,um universo retratado.Cada fotograma envolvendo a paisagem é uma obra-de-arte particular,cada interação entre os personagens um remédio para a alma.Tendo que filmar o western "Rio Grande" para que financiassem "Depois do Vendaval",Ford surpreendeu fazendo do filme seu maior sucesso até então,e um dos maiores expoentes de sua arte.
A Innesfree(Irlanda) é o Rosebud de John Ford,a infância perdida que ele sempre tentou buscar em filmes como "Como Era Verde o Meu Vale"(1941),mas que atinge a plena realização psicoanalítica com "Depois do Vendaval" não só devido à cor,mas pelo claro posicionamento de um alter-ego.Muitos que não conhecem o estilo autoral de Ford se julgam erroneamente no direito de julgar o suposto conservadorismo e sentimentalismo que o filme encerra,o que passa longe de ser uma verdade."Depois do Vendaval" é o subconsciente de Ford sendo espremido como um limão,resultando em todos os seus arquétipos junguianos convivendo numa utópica e idealizada sociedade onde Sean Thorton(John Wayne) desembarca vindo dos EUA para achar refúgio espiritual,perturbado por ter matado acidentalmente um adversário seu numa luta.Chegando no vilarejo de Innisfree ele já consegue inimizade com Will Danaher(Victor MacLaglen,grande e engraçado)pela compra da propriedade em que nasceu,ao mesmo tempo que se apaixona por Mary Kate(Maureen O'Hara)...irmã de Will.
Conseguindo se casar com a ajuda dos outros habitantes,Will não entrega o dote de Mary,sendo que para isso Sean teria que encarar Will no soco,o que ele não faz devido ao trauma do boxe,lhe dando uma fama de homem quieto enquanto sua recém-mulher o despreza acusando-o de falta de masculinidade.
Numa Irlanda onde católicos e protestantes se apoiam mutualmente,e onde pescar,plantar e beber regem a rotina diária,Ford coloca o sexo como o motor de toda trama e acaba subvertendo os valores conservadores na figura do americano Sean,que foge com Mary de bicicleta;a beija sem pedir,sozinho numa cabana; e não aceita aquilo que o clássico alcoolizado fordiano interpretado por Barry Fitzgerald lhe avisa:
" -Aqui não é a America,é a Irlanda!"
lembrando o quanto era importante a tradição para aquela comunidade viver como vivia,alienada em cantorias etílicas e eventos anuais.Os cabelos ruivos de Maureen juntamente com seus movimentos e olhares maliciosos ressaltam o fogo sexual que impera em seu corpo de virgem.A simbiose natural de Ford da paisagem com o homem alcança a hipérbole nesse filme,se mostrando como o Paraíso celeste desejado pelo diretor em seu pós-mortem,numa das raras visualizações em cinema de um mundo perfeito num sonho absolutamente realizado em meio a ventos,gramados,lagos,pontes e amizades.
"Trono Manchado de Sangue"(1957) - Akira Kurosawa
Kurosawa foi um dos grandes retratistas dos sentimentos humanos conseguindo pincelar com uma visão cinematográfica abrangente e a frente do seu tempo,as diferentes reações do homem diante do destino.Da mesma forma como Orson Welles,e tão influente quanto este,as peças de Shakespeare cabiam como uma luva para a facilidade com que ambos tinham de mergulhar na alma humana e mergulhar no redemoinho da soberba,da ambição,da tolice e da intolerância do homo sapiens.Em 1948 Welles filmou "Macbeth",um filme barato mas rico de arte expressionista cinematográfica,que junto com a fidelidade do texto original se coloca como a maior adaptação da obra no cinema e um dos filmes mais dilacerantes do mestre;9 anos depois Kurosawa iria transpor a peça para o seu tão explorado japão feudal da Era-Sengoku,com "Trono de Sangue".
Se servindo da trama sobre maldição e ambição do bardo inglês,Kurosawa coloca sua visão lírica-aventuresca à favor de uma edição multi-angular fazendo com que o filme se insira àqueles que,como "Rashomon"(1950) ou "Os Sete Samurais"(1954),inspiraram gente como Sergio Leone,Scorsese,John Millius,Spielberg,Yimou e até o próprio Welles em "Falstaff".Fica claro por exemplo da onde Leone tirou tanta chapação para "A Trilogia dos Dólares",com o modo pioneiro com que o japonês casa a construção das cenas colocando varias câmeras em diferentes ângulos casando a mise-en-scene dos atores com uma manada de cavalos e bandeirolas sujas de lama embalados pela música de Masaru Sato,que vamos e convenhamos,lembra em muitos aspectos a climatização de Morricone nos spaghetti.A marca mais registrada é interação homem/natureza chupada de Ford,que como comum nos filmes de Akira,atingem o máximo da sensibilidade oriental,com todo o caos humano convivendo com as florestas e suas arvores mantenedoras de segredos seculares,a densa neblina dissipada como uma cortina,a chuva que corta a alma e o sol que espreita por entre os galhos e entra nos aposentos à dentro.Uma ambientação tão viva visualmente que acentua o alcance realista que o perfeccionismo do diretor exige da tragédia humana,com aspectos dramáticos que seriam mais aprimorados em 1985 com "Ran",baseado em Rei Lear,outra peça de Shakespeare.
Assim como em "Ran",Kurosawa decide retirar qualquer caráter europeu da narrativa,induzindo seus atores à interpretações típicas do estilo do teatro Noh o que confere uma excelente atuação de Toshiro Mifune e Isuzu Yamada.Mifune visceral como sempre e desesperadamente afundado na paranóia,e Yamada construindo uma Lady Macbeth quase fantasmagórica em sua impassividade e submissão,máscaras da persuasão maliciosa.
O modo como o diretor foi pioneiro no horror e na violência estilizada estão tanto nos corpos de samurais esfaqueados tremendo na agonia da dor da morte lenta,quanto na incrível cena final.Um exemplo de perfeccionismo doentio,a cena que mostra o protagonista sendo linchado à flechadas é uma das mortes mais bem dirigidas do cinema,com flechas de verdade sendo disparadas contra Mifune para tornar o seu medo autêntico,à medida que a edição e a sobreposição vão transformando seu corpo em um alvo vivo.
"Coronel Blimp - Vida e Morte"(1943) - Michael Powell e Emeric Pressburger
A dupla Michael Powell e Emeric Stressburger formaram sob o nome de The Archers a maior associação autoral do cinema.Tomando para si mesmos os roteiros,a direção e a produção,a dupla viria a influenciar e muito Spielbergs,Copolla e outros da New Hollywood.Um dos seus primeiros sucessos artísticos é a epopeia romântica de Coronel Blimp.Filmado no auge da Segunda-Guerra,contou com sérias ameaças de banimento por Winston Churchill,e muitas caras foram viradas devido ao simpático personagem alemão Theo(Anton Walbrook).
Dois anos após o surgimento de "Cidadão Kane",Coronel Blimp mostra ser a contribuição inglêsa mais influente para o cinema moderno,guardando similaridades com o filme de Welles em muitos aspectos,tanto no modo como repentinamente desconstrói a narrativa,como no envelhecimento físico do protagonista em uma brilhante e inovadora maquiagem.Acima de qualquer aspecto visual,como o estonteante uso da cor,é na temática e na personalidade que o filme guarda brilhantismo.
Construido como uma comédia típica do sarcasmo britânico, na mesma linha das produções da Eagle por exemplo,Coronel Blimp é um filme que acaba enveredando por questões mais profundas,se mostrando um sincero estudo de personagem.Com um timing impressionante e câmeras em motocicletas,o filme começa no meio da Segunda Guerra Mundial,onde um pelotão liderado pelo Tenente Spud displicentemente antecipa a realização de uma "guerra simulada",abordando os generais em um banho turco.No confronto com o velho Major Clive Candy,que não aceita a desculpa da antecipação da simulação para uma aproximação maior com a realidade e pela falta de organização e modos que isso proporcionou,Spud solta um grupo de insolências e insulta o bigode de Candy,resultando numa briga de socos na piscina do clube com o velho Major disparando frases como "Você fala do meu bigode,mas não sabe como eu consegui!Você fala da minha barriga mas não tem idéia de como ela foi aparecendo!".Num pulo temporal impressionante,emerge da piscina o jovem Tenente Candy,em 1902, com o filme tomando a idéia de envelhecimento e aprendizado para tornar aquele típico general velho e gordo inglês -Coronel Blimp foi inspirado numa caricatura popular na Inglaterra -no protagonista da odisséia de paixões de alguém que não consegue manter seus valores de honra e dignidade através dos tempos,numa óbvia mensagem de que toda a retrógada diplomacia fleumática britânica deveria ser posta de lado diante do Nazismo.
Toda essa comédia corajosa,uma crítica aos valores ancestrais ingleses,faz com que o estereótipo que o filme faz do alemão,rindo não só da impostação e da linguagem alemã como até mesmo da farofagem da música clássica romântica,fique apenas como mais uma piada dentro do circo das rivalidades militares,se afastando de qualquer atitude xenofóbica.É preciso entender que a Alemanha foi inimiga do Reino Unido nas três guerras pela qual o personagem passa,sendo sempre o lado negro da lua.
Na Guerra dos Boers,na Primeira Guerra e mais obviamente no nazismo da contemporânea Segunda Guerra,o deboche contra o constante inimigo seria inevitável por parte do filme.Quando surge a professora de inglês Edith Hunter,o primeiro personagem de Debohra Kerr(que faria três no filme),começa o enveredamento do que há de mais humano na figura ágil e militar de Candy,fazendo com que o surgimento de Theo,um alemão,prove o quanto,apesar das guerras, a humanidade é ligada pelo mesmo fio que tece o amor e a amizade.
Isso acontece quando Clive decide ir de forma indisciplinada para Berlim para fazer algo relacionado à Kaunitz,um alemão que estaria espalhando propaganda contra a Inglaterra e coincidentemente tinha sido prisioneiro junto com ele recentemente na Guerra dos Boers.Com a ajuda de Edith,ele localiza Kaunitz e numa série de provocações hilárias num restaurante,ele ofende todo o alto escalão militar alemão,terminando tendo que se enfrentar em um duelo de esgrima com o desconhecido Theo.Com o enfrentamento resultando em uma cicatriz para cada um,Theo e Clive acabam iniciando uma grande amizade no hospital, juntamente com Edith,que termina se apaixonando por Theo.Com um belíssimo senso de compreensão,Clive aceita de bom grado o casamento de seus amigos,mesmo apaixonado loucamente por Edith.Com o nazismo no auge,o público britânico não aceitou bem o amigo alemão que rouba a mulher do inglês,numa massificada atitude rasa e quase desumana de se ver o mundo,que propositalmente o filme queria despertar.
Separado de seus amigos e já com o bigode crescido para esconder a cicatriz,o filme pula mais uma vez no tempo para a Primeira Guerra,onde os valores do agora Brigadeiro Clive já vão se esvaindo devido ao caos.Esse anacronismo de valores é explicito nas palavras do soldado que quando questionado sobre o que seria a tal Guerra dos Boers que o velho Clyde sempre se referia com orgulho,responde: "Aquilo não era uma guerra!Apenas uma manobra de campo.";ou na forma antiquada de interrogatório visto como ineficiente para os jovens e violentos inquisidores "pé-no chão".
É durante a Primeira Guerra que Clive,sem nunca ter esquecido de Edith,encontra sua amada no rosto da enfermeira Barbara(Kerr em seu segundo personagem),se casando com ela após o fim do conflito enquanto Theo,do outro lado, é mais um oficial alemão devassado pela perda da dignidade em um pais destroçado.
No início da Segunda Guerra,viúvo de Barbara,Clive acolhe o também viúvo Theo em sua casa,após este fugir do nazismo,e contrata como motorista a jovem Angela(Kerr em seu terceiro personagem),coincidentemente namorada do insolente Spud.
Roger Livesey como Candy,supera a múltipla Kerr,entregando um trabalho de atuação perfeitamente único para a época.Um ator de persona própria como Bogart ou Grant ,ele vai além,usando essas características individuais numa composição sublime.A voz e a sofisticação de sua compostura vão criando carisma para um personagem que vai se tornando ideologicamente irrelevante com o passar do tempo,envelhecendo sensitivamente com o personagem,e tornando próximo de qualquer ser humano uma criatura tão longe de ser popular na época como longe de ser visto como alguém tão rico de identificações: o típico representante das tradições antiquadas do alto comando do exército inglês.
O roteiro dos The Archers é uma auto-paródia cortante,que costura a vida de alguém que respira o militarismo e exalta o imperialismo,desabafando o desespero pendurando cabeças de animais indefesos na parede de casa, ao mesmo tempo que o torna um homem de carisma quase heróico.Toda a realidade é vista como uma roda que não para de girar,onde os tempos e visões vão constantemente mudando.Por mais que Theo e Candy sejam vitimas dos tempos e seus fugazes valores,sempre haverá uma Debora Ker para mostrar o quanto isso é irrelevante diante dos verdeiros valores humanos.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
"Intolerância"(1916) - D. W. Griffith
"Intolerância" é um gênio mordendo os beiços de raiva e dando uma resposta à altura.Mas a tal intolerância à que ele se colocava contra,era perigosa.Seu filme "O Nascimento de uma Nação"(1914),o primeiro blockbuster,com mais de duas horas de duração,era claramente racista e glorificava a Ku Klux Klan.Essa visão racista histórica comum na época,encontrou forte reação numa sociedade que aos poucos conseguiam direitos para pessoas de cor.O filme foi proibido em algum lugares,e em outros pessoas protestaram abertamente.Mesmo que isso não tivesse conseguido prejudicar o seu sucesso de forma geral,deixou Griffith profundamente irritado,e "Intolerância" foi o seu soco na cara,o seu dedo do meio.
E foi caro...uma mega produção envolvendo Paris,Babilônia e Jesus Cristo sem ser racista e conter uma mensagem tão propositalmente virtuosa,foi estranhamente desprezado pelo público.
Sim,o chilique de Griffith não foi só caro mas artisticamente avançado,com os paralelos entre diferentes eras na narrativa surgindo fluidamente na edição muito mais aprimorada que em "O Nascimento de Uma Nação".Depois de assistir o italiano "Cabíria"(1914) de Giovanni Pastrone,outra jóia pioneira da narrativa homérica no cinema em que o Etna entra em erupção e pessoas são queimadas em templos de Moloch,Griffith assumiu as rédeas de um profissional que não deveria ver limites...com ele era "Pensou?Faz!".
O filme se divide em 4 histórias que se alternam durante o filme,cada uma ilustrando a intolerância: Jesus em seu caminho para a condenação,huguenotes antes de serem exterminados pelos Médicis católicos na Paris de 1572 no famoso Massacre do Dia de São Bartolomeu,um conto contemporâneo de crime e puritanismo opressor,e a queda da Babilônia traída pela intolerância religiosa de seus sacerdotes.
O que faz Griffith não ser apenas um diretor visual é o constante humanismo presente em boa parte de sua filmografia,apesar da duvidosa moral de "O Nascimento de uma Nação"(1914).O filme não procura se basear apenas no aspecto visual dos cenários históricos,mas em cada uma das tramas paralelas, personagens são profundamente desenvolvidos como pessoas vítimas da sociedade em sua volta,alguns tendo um fim trágico,outros conseguindo a redenção.Os namorados protestantes na Paris,indefesos e inocentes na véspera de uma carnificina,e ainda sob os olhos de um soldado do rei.A garota das montanhas, selvagem, apaixonada pelo príncipe Belsazar na Antiga Babilônia,cometendo atos heróicos disfarçado de homem para salvar sua cidade dos persas.E principalmente na história moderna,onde um casal é vítima do acaso e personagens coadjuvantes vão interagindo num mundo de crime tentador e velhas puritanas,que tentam tirar a bebê de sua mãe depois que seu marido vai injustamente preso.
A história do cinema muda a partir do momento em que Griffith junta em cross-cutting,em frenesi dignos de suspense moderno,o clímax de cada uma das histórias,num empolgante desfecho que exploram o máximo o poder da edição em se extrair emoção de uma trama cinemática.Todos os destinos dos personagens tomam seu desfecho praticamente ao mesmo tempo,multiplicando caleidoscopicamente o orgasmo visual avassalador.
"Janela Indiscreta"(1954) - Alfred Hitchcock
"Janela Indiscreta" foi a primeira e única vez em que Hitchcock pega um cenário e o transforma num ecossistema vivo e pulsante presenciado por nós numa posição voyeurística.Já mostrando ser mestre em ambientação única como em "Lifeboat"(1944) ,"Rope"(1949) e o anterior "Disque M Para Matar"(1954),a diferença de "Janela Indiscreta" é que a ambientação se divide em duas: o apartamento de Jeffrie e as janelas dos outros apartamentos que ficam em oposição ao seu.Jeffrie é um fotógrafo jornalístico aventureiro que se encontra agonizando com a perna quebrada,e se distrai espiando os vizinhos com seu grande e conveniente aparato de câmeras e lunetas.É quando pensa ter visto um crime numa dessas janelas que a dúvida da verdade entra em contraste com a ilusão do ócio e com a angústia da incapacidade móvel de sua condição física.Numa época em que as distrações domésticas não eram tantas como no mundo atual,Jeffrie tem apenas sua enfermeira,sua namorada,um incrédulo amigo detetive e os barulhos da cidade nevralgica que pulsa lá fora,o colocando como apenas uma formiga entre tantas no formigueiro da metrópole moderna.
"Janela Indiscreta" tambêm é uma prévia de seus filmes mais psicologicamente profundos que ele faria posteriormente,mas ainda aliados aos seus costumeiros estudos de relacionamento.Grace Kelly era o objeto de desejo sexual máximo do diretor,que coloca closes excitantes no rosto da personagem Lisa Fremont, representante da mulher moderna,cosmopolita e independente;protótipo do feminismo.O casamento tantas vezes ironizado por Hitchcock,é a primeira angústia de Jeffrie,que encontra na cadeira de rodas não só o obstaculo para por fim ao perigo de suas dúvidas,como para fugir das algemas matriarcais.
Jeffrie é um homem de aventuras,de nomadismo;Lisa é uma dondoca que escreve para colunas sociais e cada dia está com um vestido novo.Esses opostos românticos são constantemente postos em jogo pelo diretor ao mesmo tempo que uma nova pista surge para trazer barulho novamente à trama.O humor também usual nos filmes de Hitchcock está muito mais nas frases sinceras da enfermeira Stella(Thelma Ritter,uma das melhores coadjuvantes da época),do que nas birras do casal,dando uma seriedade muito mais profunda para um relacionamento tão díspare,além de aprofundar psicologicamente o personagem de Kelly.
Mas para entendermos a verdadeira genialidade do filme não devemos nos ater ao suspense e aos recursos visuais para criar climas de tensão.O suspense,o crime,e a resolução deste,acabam sendo apenas uma ferramenta para o desenvolvimento dos personagens entre si e maneira visionária com que o diretor aprofundou personagens que não falam,não se aproximam,não saem da mesma janela,e nem sabem que estão sendo espiados pela lente de Jeffrie.Personagens como a viúva solitária e suas desventuras amorosas,os namorados da dançarina,o pianista com bloqueio de criatividade,os recém-casados(casamento de novo) e o vendedor Lars Thorwald(Raymond Burr),que supostamente esquartejou sua inválida esposa.Ao final do filme todos esses personagens conseguem uma familiarização satisfatória com o espectador,através apenas de planos distantes,som ambiente,e com o diretor dirigindo seus atores de longe.A simbiose do ponto de vista de Jeffrie com o nosso é uma tradução simbólica da raiz cinematográfica de ser o olho humano expandido,presenciando o pulso do ritmo da cidade em um set de estúdio.
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