segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"O Intendente Sansho"(1954) - Kenji Mizoguchi




"O Intendente Sansho" abre uma gama de discussões em muitos âmbitos.Filosófico,espiritual,antropológico,o filme de Mizoguchi é como o resto de sua filmografia,te conduz numa teia de visões em busca de uma redenção.Uma mágica obtida pelo enlevo diante de um realismo fantástico,palco de medos e anseios de personagens identificáveis.
O filme abre com a mulher Tamaki,seu casal de filhos e uma criada,em uma jornada para encontrar o ex-governador pai das crianças,após 6 anos deste ser exilado por contrariar os desmandos dos tiranos.Flashbacks  fluidos trazem à tona as lembranças de Tamaki e dos ensinamentos do marido para seu filho mais velho Zushio: "Sem piedade o homem é uma besta.Mesmo se você for severo consigo mesmo,seja piedoso com os outros." No entanto em meio ao trajeto eles são enganados por uma falsa sacerdotisa,as crianças são raptadas e vendidas como escravas para o cruel Intendente Sansho,e sua mãe é vendida para um bordel enquanto a criada é morta afogada.Anos se passam e enquanto Zushio perde toda sua alma se tornando o braço direito do Intendente nos castigos infligidos aos que corajosamente tentam fugir,sua irmã Anju ainda tem a esperança de encontrar a mãe.

Assim como em "Contos da Lua Vaga",Mizoguchi abraça o tom de fábula do conto do popular(no Japão) escritor Mori Ogai mesmo sem bruxarias e espíritos.A verdade que se consegue extrair do filme no entanto é muito mais real e atual.Bebendo em fontes americanas como John Ford,a busca pela vingança e redenção contra a tentação e o domínio do mal casam com a paisagem,ressaltando a natureza e tornando táctil as brilhantes águas dos lagos e a poeira da aldeia de Sansho.Não à toa o diretor de fotografia é Kazuo Miyagawa de "Rashmon",uma prévia da paisagem de Apichatpong.A violência é seca,quando as crianças são separadas da mãe,por exemplo,o trabalho de câmera magistral  passa um pânico cortante ao som de flauta  da hipnótica trilha sonora.
Mizoguchi dizia que só a partir de seus 40 anos é que ele começou a se preocupar com os verdadeiros valores humanos em seus filmes,principalmente com "Crisântemos Tardios"(1939)."O Intendente Sansho" é seu ápice nesse sentido.O personagem Sansho por si só representa toda a corrupção de alguém que seria responsável pela justiça,mas que só busca proveito próprio na arrecadação de impostos e na escravidão.Quantos Sanshos não existem no Brasil por exemplo?A reviravolta absolutamente dilacerante que o filme dá no final mostra o quanto é válido seguir certos mandamentos virtuosos,e é praticamente impossível não se entregar ao choro.

Trailer:


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Interlúdio"(1946) - Alfred Hitchcock




"Interlúdio" é passado no Brasil,é o maior romance de Hitchcock,a maior trama de espionagem,e um de seus filmes mais completos.
Livre do produtor David O. Selznick,que vendeu o filme para a RKO,o gordinho se juntou ao roteirista Ben Hecht e juntos desenvolveram a história da mulher que se apaixona por um agente que praticamente a joga  na cama de outro,por motivos políticos de dever.A história de dois homens em lados opostos se apaixonando pela mesma mulher.Um romance de confiança e um suspense de espionagem,que usava o urânio como macguffin 1 ano depois da bomba de Hiroshima.
Ben Hecht era um dos roteiristas mais prolíficos e versáteis de Hollywood,foi o homem que botou vários personagens numa diligência em "No Tempo das Diligências"(1939) de John Ford e criou a verborragia alucinada de "Jejum de Amor"(1941) de Hawks.Numa demonstração de respeito pelo diretor,as opiniões de Hitchcock eram amplamente aceitas resultando numa história que exploraria o melhor do diretor.
Como disse Truffaut :
 "Tirando o  máximo de efeito dos mínimos detalhes,o resultado foi tão perfeito quanto um desenho animado."

Sim,o máximo do mínimo é o que se percebe desde a primeira cena no tribunal quando o pai alemão da americana Alicia(Ingrid Bergman em uma de suas melhores atuações) é condenado por espionagem nazista.Sabidamente contrária aos ideais paternos,ela é contactada pelo agente Devlin(Cary Grant)para ir ao Rio de Janeiro num trabalho de cooperação,onde acabam se apaixonando.Isso até Devlin descobrir que tem que persuadir Alicia a seduzir Alex Sebastian(Claude Rains),ex-amigo de seu pai e que é lider de um grupo de cientistas-nazi que operam escondido no Brasil.Assumindo o poder do dever acima do amor,Devlin assume uma posição fria enquanto Alicia se vê obrigada à casar com Alex e a arriscar a sua integridade física num triângulo amoroso observado pela suspeita opressora da maquiavélica mãe de seu novo marido.

Poucos cineastas da época se dedicavam tanto para extrair o máximo de cada cena,de construir um todo autoral que correspondesse com sua visão do que Hitchcock..."Interlúdio" é um exemplo disso.Estudando de forma perfeccionista cada pormenor do filme na pré-produção em  storyboards,o filme se esbalda de subterfúgios visuais: o ponto de vista bêbado de Alicia virando Cary Grant de ponta-cabeça,o reflexo do espelho retrovisor do carro,o lento envenenamento de Alicia com a xícara mostrada em primeiro plano,a presença dominadora da mãe de Alex surgindo lentamente de encontro à câmera quando desce a escada,etc...
O elemento-chave mais conhecido do filme é,sem trocadilhos,uma chave.A chave da adega que contém provas de urânio escondidas em garrafas de vinho e que Alicia tem que passar paras as mãos de um Devlin disfarçado durante uma festa na mansão de Alex,para que esse possa entrar,vasculhar e sair,antes que falte bebida e que o vilão tenha que descer para suprir o estoque.Numa famosa cena a câmera se aproxima lentamente de cima e vai descendo até a mão nervosa de Alicia  segurando a chave.

O brilhantismo da atuação de Rains está no carisma que ele passa mesmo sendo um nazista.O seu amor é verdadeiro,a sua decepção é verdadeira,as suas nuances são variadas,e o seu medo é exasperador na cena final.A mãe dominadora,um dos aspectos freudianos mais recorrentes em Hitchcock,tem a sua primeira grande presença nesse filme abrindo mais uma etapa do psicossexual em filmes.
O que mais me impressionou portanto foi o modo erótico que Hitchcock retrata a paixão de Devlin e Alicia com o uso constante de closes e jogos de luz e sombra em meio a beijos e amassos.O Codigo Hayes permitia só 3 segundos de beijo num filme,Hitchcock filma 2 minutos e meio de beijo,usando 3 segundos de beijo intercalados por narigadas e assim vai....O fato da confiança quebrada,da resignação face ao inevitável em meio ao tumulto do ciúme,torna essa produção um filme quente,com o tão conhecido clima  brasileiro servindo de afrodisíaco para um triângulo de díspares paixões.



"Crisântemos Tardios"(1939) - Kenji Mizoguchi




Arrisco dizer que junto com filmes de 1939 como "Stagecoach" e "A Regra do Jogo" ou que ainda seriam lançados nos próximos dois anos como "Rebecca" e "Cidadão Kane","Crisântemos Tardios" é um dos filmes mais influentes do cinema moderno e um dos grandes pioneiros a surgirem nessa virada de década.O ruim é que o cinema oriental ainda tinha pouca visibilidade no Ocidente até "Rashomon" de Kurosawa abrir as portas,e Mizoguchi ser redescoberto por Jacques Rivette na Cahiers du Cinemá.Mesmo que à frente do seu tempo,os trabalhos mais reconhecidos do diretor viriam com "Contos da Lua Vaga"(1953) e "O Intendente Sansho"(1954).Um artista quase que completo,o diretor era perito em teatro Kabuki e Noh e "Crisântemos Tardios" é um dos melhores filmes sobre o teatro.

No século XIX,o jovem ator Kikonosuke se recente de não ter o mesmo talento que seu glorioso pai adotivo.Bajulado  pela fama que tem devido o parentesco,pelas costas ele é ridicularizado pelos amigos e é tido como sem-futuro aos olhos de seu pai.É quando se apaixona pela criada Otoku - franca como ninguêm e disposta a ajudá-lo em seu treinamento.Como sua família se opõe ao namoro,Otoku é demitida e some enquanto Kikonosuke foge de casa em busca de uma reviravolta.É quando ele reencontra Otoku,e juntos partem para uma vida de casado numa trajetória por trupes e hospedarias que dura anos de dificuldades,desavenças e tragédias,com a mulher se mostrando a base estrutural para o sucesso do marido,nunca deixando que o desânimo o abrace na busca pelo aperfeiçoamento de sua arte.

Um conto romântico e sensível,Mizoguchi dá uma liberdade às personagens femininas pouco vista na época,principalmente no Japão.Longe de ser apenas feminista contemporâneo,o fato de a sociedade retratada ser de 1885 mostra que a intenção de Mizoguchi é só situar a mulher no lugar em que ela sempre teve.Tomando as dores femininas para si,o diretor exorcisa fantasmas de sua mente,da época em que quando criança seu pai batia na sua mãe e sua irmã foi vendida para um bordel.Essa defesa do papel feminino exaltado em todas as eras é uma recorrente de sua filmografia e um dos motivos temáticos principais de sua influencia.

Tecnicamente  é que Mizoguchi se mostra um puta contador de histórias.De forma visionária ele usa ostensivamente de long-shots que,longe de serem exclusivamente estáticos ou contemplativos,usam e abusam de movimentos de câmera e tracking-shots onde os personagens coreograficamente percorrem os cenários e interagem numa construção de mise-en-scéne absolutamente emocional e realista.Planos abertos ressaltam uma fotografia sterbergiana com lâmpadas cuidadosamente distribuídas iluminando expressivamente o cenário.O modo como Mizoguchi filma as cenas do teatro são de uma reverência que ultrapassa o ego do diretor chegando até nós.É essa mise-en-scène que tridimensionaliza os personagens,superlativizando o tocante final que alegoriza com a flor do crisântemo que  morre no final do outono com o triunfo da primavera.
Um filme pra quem subestima a máxima de que por trás de todo o grande homem existe uma mulher.Um filme para quem ama ou já amou,e acredita na dedicação e no triunfo através desta.Talvez o maior dos filmes de amor.Talvez um poema.

Tracking-shot de Mizoguchi mostrando o primeiro encontro do casal protagonista:



"As Três Noites de Eva"(1941) - Preston Sturges




Preston Sturges começou na Broadway e virou roteirista em Hollywood,muito bem pago por sinal.Mas apesar do alto salário,como todo grande artista verdadeiro,o modo como seus escritos eram dirigidos não lhe satisfaziam,tomando logo as rédeas da direção.Seu terceiro filme nessa posição de auteur foi "As Três Noites de Eva"" que estava três passos à frente da conservadora América do início dos anos 40,não só em seu diálogo abertamente sexy,como no modo rebelde em que ele se utiliza da narrativa cinematográfica.Diferenciado de seus colegas ilustres de screwball comedy(comédia pastelão) como Hawks e McCarey,que colocavam sua versatilidade a favor dos gêneros,Sturges baixava a cabeça na escrivaninha e criava algo que conseguia não contrabalancear,mas misturar surrealmente o escracho com a paródia,a sátira humana com a ironia cômica.O seu modo de usar as ferramentas do cinema em harmonia com o ritmo do timing da comédia seria o início de estilos que muitos seguiriam ainda no cinema,como Woody Allen (principalmente até "Annie Hall").Um dos filmes mais inspirados pelo estilo é "Arizona Nunca Mais".Assim como no filme dos Coen, a intenção é ser ininterrupto em deboche usando da edição para ressaltar o hilário dos personagens.Esse clima lúdico para adultos se fortalece nos truques visuais(como quando Jean Harrington observa pelo reflexo do espelho a reação de Charles Pike com as mulheres à sua volta),lembrando que o clima de cartoon tem que se manter como condutor da mensagem.

Jean Harrington(Barbara Stanwick,mais tesuda que em "Pacto de Sangue") é uma vigarista que junto com seu pai e um amigo,encontra o herdeiro Pike(Henry Fonda provando uma versatilidade imensa)num navio e o escolhe como a próxima vítima.Acontece que ela se apaixona...ele descobre o plano,a rejeita...e ela volta para se vingar de um jeito inacreditável.
O mais sensacional é a libido que carrega o filme, Sturges coloca a mulher como a dominadora que corrompe e instiga o homem a tomar a atitude através do jogo sexual.O personagem de Fonda é um mané,um playboy nerd obcecado por cobras(!!!???),que recusa todos os avanços das garotas que constantemente o seduzem pelo seu dinheiro e vive num aspecto tenso/atrapalhado angustiante.Quando Jean entra na vida dele,a coisa toma outro sentido com o suor escorrendo de sua testa subjugado por uma sensualidade erótica imensa.Stanwick era a mulher das mulheres e o seu brilhantismo é imenso em "As Três Noites de Eva",chegando a ganhar sotaque inglês numa reviravolta que sua personagem toma no desenrolar dos fatos.
Henry Fonda já tinha sido Lincoln e cowboy fordiano,mas mesmo assim convence como o pateta da "barraca armada".

Sturges era fodão,o set de filmagem era um carnaval,uma família num convivío intenso com seus atores que refletem bem a leveza e liberdade do filme.Casado quatro vezes,o auteur não tinha papas na caneta nem na câmera para lançar em frases e gags a sua ironia social.Escreveu esse roteiro lascivo e apaixonadamente feminista(tirando como base um livrinho de 20 páginas do dramaturgo inglês Mockton Hoffe) no divórcio de seu terceiro casamento,não poupando alfinetadas para o sexo oposto ao mesmo tempo que coloca a mulher como a origem do homem em todos os sentido.Com ele não tinha família,igreja e  nem american way of life,era o homem/mulher/sexo,o namoro e o amor livre.E isso que o roteiro teve que ser revisado para ser aprovado pelo Código Hayes,que se incomodou justamente pelo gosto por cobras do protagonista e pela "gratuita" referência ao ato sexual sem valores morais intrínsecos.
"As Três Noites de Eva" era a liberdade sexual em 1941...vejam bem...em 1941,duas décadas antes do início dos libertadores anos 60,quando a Segunda Guerra estava apenas começando.É a malícia inteligente dos créditos iniciais até o momento em que,numa cena absolutamente ousada para a época,Pike arrasta desesperadamente Jean para o quarto do navio,não se importando com ninguém em volta,mostrando para ela o que já deveria ter mostrado à tempos.Adoro tapas na cara da hipocrisia e "As Três Noites de Eva" foi um dos mais importantes do cinema.

domingo, 9 de setembro de 2012

"Rebecca"(1940) - Alfred Hitchcock



Quando desembarcou nos EUA,Hitchcock já iniciou com dois filmes no mesmo ano: "Correspondente Estrangeiro" e "Rebecca".
Enquanto o primeiro foi o thriller inglês elevado ao status de super-produção e tinha mais a cara do diretor,o segundo foi o carro-chefe de David O. Selznick para ganhar o Oscar usando do talento alheio.Dinheiro não faltou na produção,o que claramente é mostrado na gótica introdução apresentando uma das maiores mansões cenográficas do cinema,e Hitchcock gostava de Daphne du Maurier,já tendo inclusive filmado a adaptação "Jamaica Inn" na Inglaterra um ano antes.
Independente de ter sido oportunista ou não,o filme abriu as portas para novas possibilidades no cinema de  Hitchcock,sendo o primeiro  a tomar um rumo psicologicamente intenso,se tornando a gênese da análise mental de "A Sombra de uma Dúvida"(1943),"Spellbound"(1945),e do ápice de "Um Corpo Que Cai"(1958),"Psicose"(1960) e Marnie(1964).
"Rebecca" é um dos filmes mais opressores,mais claustrofóbicos de Hitchcock,onde o pânico do deslocamento se reflete de forma angustiante na personagem de Joan Fontaine.

Fontaine é uma jovem órfã tímida e desajeitada que trabalha como acompanhante de uma falastrona ricaça em Monte Carlo quando conhece o viúvo Maxim de Winter(Laurence Olivier),proprietário da mansão de Manderlay,no que parece uma tentativa de suicídio deste.
Meio que seduzido pela forma desajeitada e infantil da jovem,Maxim decide se casar com ela.O problema é que uma nerd ,acostumada sempre a servir os mandos mais reles como acompanhante,está longe de ser a administradora aristocrática de uma mansão.Ao chegar em Manderley ela se depara com a presença opressora da casa,do fantasma presente de Rebecca(a falecida e popular ex-esposa  de Maxim),e da tortura psicológica da Governanta Denvers que ainda guarda uma adoração fantasmagoricamente lésbica com Rebecca e faz de tudo para transformar num inferno a vida da nova Mrs.deWinter.

Num dos primeiros exercícios de manipulação psicológica do cinema,Hitchcock mistura elementos góticos e expressionistas para transformar apenas um nome num protagonista onipresente e que influencia os personagens  em cada uma de suas reações,nem que seja na forma de um R bordado.
O personagem de Fontaine por exemplo,é anônimo,só sendo reconhecida como Mrs. deWinter após se casar,o que aumenta ainda mais o poder do nome Rebecca.
Eu só destaco atuações em filme quando sei que ajuda realmente uma porcentagem do desenvolvimento do filme.E o que Joan Fontaine faz aqui é inacreditável.Vivendo em constante ansiedade e amando um homem que vive num ambiente turbulento e neurastênico de recordações,sua personagem não consegue manter a cabeça ereta em frente aos empregados e é massacrada pelas altas paredes da mansão.
Fontaine era tratada de forma indescritivelmente cruel por Laurence Olivier nos sets,que queria sua mulher Vivien Leigh no filme.Hitchcock sabendo disso mentiu que não só Olivier como toda a produção a odiava,aumentando a autenticidade da incomunicabilidade da personagem e ao mesmo tempo se colocando como um dos diretores mais cruéis da história.
Judith Anderson por sua vez adquire o caráter mais expressionista do filme quando entra em  interação com o cenário da mansão para manipular a mente de Mrs. Denver ou induzi-la ao suicidio,enquanto invoca o fantasma de Rebecca  e se arrasta nosferaticamente como uma necrófila de saia.

"Rebecca" usaria de forma muito mais ampla que em seus filmes anteriores técnicas visuais que influenciariam cineastas posteriores(pleonasmo dizer isso),principalmente aquelas mais assimiladas pelos americanos,como zoom-in dramático,pioneiro uso de deep focus,tensão obtida pela montagem e alternância de closes,movimentos de câmera auto-explicativos(como quando a câmera vai relatando visualmente a confissão de Maxim sobre a morte de Rebecca na cabana),e a trilha sonora climática de Franz Waxman(antes de Bernard Herrman em "Cidadão Kane"),além claro do terror psicológico e da reviravolta que desestrutura a trama.
Os minutos finais continuam sublimes acima de tudo,com a camera invadindo a mansão que se incendeia presenciando o destino trágico da governanta que não se entregou e preferiu a morte,assim como a morte de Rebecca,simbolizada por um traveling em direção à um R bordado num travesseiro em chamas.Orson welles claramente chapou o coco com esse final.


"Alien 3"(1992) - David Fincher



O debut de David Fincher consegue mostrar muito mais das características soturnas e opressoras de seus melhores filmes do que "O Curioso caso de Benjamin Button"(2008) ou "A Rede Social"(2010).Aquela estética do desagradável fria que estaria muito mais elaboradamente expressa posteriormente em filmes em que ele  teria um controle autoral maior como "Seven"(1995) ou "Clube da Luta"(1999),acaba se tornando  superior à intervenções agonizantes que ele sofria do estúdio,fazendo com que o rascunho do estilo de Fincher acabe criando um clima sufocante condizente com a visão de mundo fria dos anos 90.
Conseguindo colocar suas idéias no roteiro,Fincher põe para escanteio qualquer possibilidade de respeito à mitologia dos filmes anteriores.E ele estava certo.O monopólio dos personagens não pertencia à Ridley Scott ou James Cameron.Enquanto o primeiro se mostrou habilidoso no suspense de ficcção científica em 1979,Cameron construiu uma  militarizada carnificina testosterônica americana no espaço.A saga estava ali para que cada autor colocasse a sua visão.Fincher queria extrair o horror autêntico,e se tem um filme da série que mais chegue perto do puro gênero do horror,é "Alien 3".Principalmente do horror vigente na época,com gore realista e câmera subjetiva em corredores.

Em "Aliens - O Resgate"(1986) de Cameron,Ripley tem que defender à duras penas uma criança órfã enquanto se envolve amorosamente com Hicks(Michael Biehn) e adquire confiança no salvador andróide Bishop.Num final feliz e aliviador,os 4 personagens se salvam,quase que numa exaltação alegórica à família,hibernando todos juntos num módulo espacial.
Nos créditos iniciais de "Alien 3" Fincher mata todos esses personagens,deixando apenas Ripley como sobrevivente,quando o módulo é mais uma vez invadido pelo alienígena.Numa negação quase absoluta de bem,o módulo cai numa prisão-refinaria espacial habitada por condenados estrupadores,assassinos e afins, que resguardam a ordem e o respeito por uma fanática religião enquanto convivem numa atmosfera claustrofóbica de ar amarelado,cheiro de podridão,canos que servem de ninhos para vermes,barulho de portas de aço se fechando constantemente e eterna desconfiança.Ripley é afundada num universo de niilismo angustiante.Não só descobre que sua "filha" está morta como,na inevitabilidade de ter que descobrir como a criança morreu,ela tem que presenciar o médico da prisão Dr. Clemens(Charles Dance) abrir seu tórax com a edição de som cuidando dos ruídos mais desconfortáveis.Para concluir com o pessimismo,Ripley descobre não haver armas de fogo no local e estar grávida do alienígena partindo para uma corrida suicida quando qualquer chance de salvamento é implodida.

O niilismo é o que importa em "Alien 3",o niilismo acima de qualquer desenvolvimento psicológico.Se Ripley se encontra constantemente vitima de seu nemesis,aqui ela se encontra vítima do negativismo de Fincher.Dr. Clemens,que satisfaz a seca sexual da tenente,é abruptamente eliminado quando justamente parece ser ele o facho de luz,evitando espertamente a inutilidade romântica do conceito de horror que o diretor resguarda.Sigourney Weaver com sua cabeça raspada  e com sua interação natural e até superiormente masculina diante dos presidiários,entrega sua Ripley mais resignadamente dura,destruida,experiente e devastada.A música do excelente compositor Elliot Goldenthal é igualmente eficiente na simbiose climática que adquire com o filme e que demorou um ano para ser desenvolvida com a colaboração do diretor.
"Aliens 3",se revisto, acaba sendo um dos horrores mais eficientes da década de 90 mesmo em sua incompletude,como o fraco uso do CGI ,inferior ao trabalho de Stan Winston(mas mesmo assim indicado ao Oscar,afinal é 1992),e o final do parto-suicida,por demais exagerado.

sábado, 8 de setembro de 2012

"Depois do Vendaval"(1952) - John Ford




"Depois do Vendaval" é o mais próximo que o cinema chegou da pintura.Uma das mais belas fotografias do cinema que não beiram a pretensão,muito pelo contrário,espelham a alma de um diretor.É o filme de Ford que mais vontade dá de ver e rever.É um sonho realizado,um universo retratado.Cada fotograma envolvendo a paisagem é uma obra-de-arte particular,cada interação entre os personagens um remédio para a alma.Tendo que filmar o western "Rio Grande" para que financiassem  "Depois do Vendaval",Ford surpreendeu fazendo do filme seu maior sucesso até então,e um dos maiores expoentes de sua arte.

A Innesfree(Irlanda) é o Rosebud de John Ford,a infância perdida que ele sempre tentou buscar em filmes como "Como Era Verde o Meu Vale"(1941),mas que atinge a plena realização psicoanalítica com "Depois do Vendaval" não  só devido à cor,mas pelo claro posicionamento de um alter-ego.Muitos que não conhecem o estilo autoral de Ford se julgam erroneamente no direito de julgar o suposto conservadorismo e sentimentalismo que o filme encerra,o que passa longe de ser uma verdade."Depois do Vendaval" é o subconsciente de Ford sendo espremido como um limão,resultando em todos os seus arquétipos junguianos convivendo numa utópica e idealizada sociedade onde Sean Thorton(John Wayne) desembarca vindo dos EUA para achar refúgio espiritual,perturbado por ter matado acidentalmente um adversário seu numa luta.Chegando no vilarejo de Innisfree ele já consegue inimizade com Will Danaher(Victor MacLaglen,grande e engraçado)pela compra da propriedade em que nasceu,ao mesmo tempo que se apaixona por Mary Kate(Maureen O'Hara)...irmã de Will.
Conseguindo se casar com a ajuda dos outros habitantes,Will não entrega o dote de Mary,sendo que para isso Sean teria que encarar Will no soco,o que ele não faz devido ao trauma do boxe,lhe dando uma fama de homem quieto enquanto sua recém-mulher o despreza acusando-o de falta de masculinidade.

Numa Irlanda onde católicos e protestantes se apoiam mutualmente,e onde pescar,plantar e beber regem a rotina diária,Ford coloca o sexo como o motor de toda trama e acaba subvertendo os valores conservadores na figura do americano Sean,que foge com Mary de bicicleta;a beija sem  pedir,sozinho numa cabana; e não aceita aquilo que o clássico alcoolizado fordiano interpretado por Barry Fitzgerald lhe avisa:
" -Aqui não é a America,é a Irlanda!"
lembrando o quanto era importante a tradição para aquela comunidade viver como vivia,alienada em cantorias etílicas e eventos anuais.Os cabelos ruivos de Maureen juntamente com seus movimentos e olhares maliciosos ressaltam o fogo sexual que impera em seu corpo de virgem.A simbiose natural de Ford da paisagem com o homem alcança a hipérbole nesse filme,se mostrando como o Paraíso celeste desejado pelo diretor em seu pós-mortem,numa das raras visualizações em cinema de um mundo perfeito num sonho absolutamente realizado em meio a ventos,gramados,lagos,pontes e amizades.