terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Sexta-Feira 13"(1980) - Sean S. Cunningham



  
 
Antes de Tobe Hooper surgir com "O Massacre da Serra Elétrica"(1974) e Carpenter sonhar em dirigir "Halloween"(1978),Cunningham dirigia sexploitation e filmes com característica lixão.Em 1972 ele produziu "Aniversário Macabro",dirigido pelo amigo Wes Craven,e que dentre todas aquelas produções seria a única a realmente apresentar uma mensagem irônica em relação à decadente filosofia hippie defronte da crueza dos anos 70."Aniversário Macabro" está entre aqueles filmes representantes de uma época,um abridor de portas para o terror real escondido por trás de libertárias canções folk
Apesar disso,foi obviamente o sucesso do filme de Carpenter que o levou a querer a criar uma montanha-russa de horrores seguindo o mesmo molde de serial killer.Enquanto "Halloween" criava algo novo usando um balde de referências que ia de "Psicose" à trilha sonora de "O Exorcista","Sexta Feira 13" usa o próprio "Halloween" como referência,principalmente com "Psicose"(de novo!),"Tubarão", "Carrie" e o giallo italiano.

A introdução já é uma homenagem ao filme de Carpenter,com a manjada câmera subjetiva mostrando um crime do assassino.Mas é com "Psicose" que o roteirista de novelas Victor Miller brinca mais,subvertendo os elementos mais memoráveis do filme de Hitchcock.O filme começa acompanhando uma estudante que vai descolar um bico no acampamento que falsamente parecer ser a personagem principal para logo ser eliminada...como a Marion Crane de Janet Leigh.Dessa vez não é o filho que incorpora a personalidade da mãe morta,mas é a própria mãe que busca vingança pela morte de seu filho Jason que morreu afogado no lago do camping Crystal Lake no qual ela trabalhava como cozinheira.E é aí que entra um dos maiores paradoxos da cultura pop.Aquele psicopata de máscara de hoquei que sai matando com um facão ja nasceu morto,e simplesmente inexiste na mente criadora da série em seu primeiro filme,tanto na de Cunningham quanto na de Miller,ressucitado em filmes seguintes como uma ferramenta caça-níquel.Claro que existe o horripilante gancho-final derivativo de "Carrie",mas foi uma idéia de Tom Savini,o maquiador de Romero que se esbalda em sua arte de extrair efeitos de horror que podem te fazer rir como gritar,e que acabou sendo o verdadeiro responsável pela materialização de Jason.
O que justamente acaba enfraquecendo o filme e que deveria ser seu momento mais forte é a revelação do vilão,a atuação de Betsy Palmer que tinha aceitado o papel para poder pagar contas,e que se revela uma senhora frágil demais apesar de insana,e incapaz de cometer assassínios tão musculosos.Por isso que eu afirmo que "Sexta-Feira 13" é bom só até a aparição de Palmer,que se salva pelos closes nervosos que Cunningham dá em sua boca escancarada.

Mas o que faz o filme ser bom além de divertido?Primeiro é a forma como o diretor conduz o suspense,que está longe de insultar a inteligência.Arrisco dizer que ele vai além de Carpenter,usando de movimentos de câmera que te colocam mais do lado dos personagens,atento com o background para ansiosamente avistarmos o sinal do vilão nas costas das garotas gostosas indefesas.Da onde ele vai surgir?Como ele vai matar agora?Tape os olhos!Apesar de extremamente eficiente,a trilha sonora poderia ser até acusada de pastiche de "Tubarão" com Bernard Herrmann.Mas a trilha de Carpenter para "Halloween" também era.O que salva as duas é o diferencial,o ponto de autenticidade.Enquanto Carpenter se salva por criar um icônico riff num tecladinho com uma simples escala de notas,Harry Manfredini resolve colocar sussuros que atingem  a subjetividade da mente do psicopata antes mesmo dele ser revelado."Kill Mother!" ou "ki ki ki ma ma ma".Absolutamente brilhante.

E quanto aos argumentos retrógados dos conservadores que iam de encontro ao sexo,à violencia e às drogas?
Primeiro: sexo não é gratuito,é apenas sexo,se isso já tinha sido deixado bem claro nos anos 60,em 1980 já devia ter sido assimilado.E jovens não só vão,como devem ir para acampamentos para foder...essa é a razão da adolescência.
Segundo: jovens consumindo maconha são jovens drogados?Ah...por favor heim...até Shakespeare  fumava.Jovens devem ir acampar não só para foder,mas para fumar maconha.
Terceiro:a violência e o gosto de se sentir medo é uma faceta humana,e deve ser explorada pela arte sem hipocrisia,como uma extensão emocional de um trem-fantasma.
 Os críticos Roger Ebert e Gene Siskel foram publicamente chamar Cunningham de lixo,dizer que tais filmes faziam o público se associar ao monstro e que não deveriam ser assistidos.Siskel chegou ao ponto de expor o endereço de Betsy Palmer para que escrevessem cartas de insatisfação à ela.Esse tipo de atitude fascista só mostra que críticas de arte de alcance conservador podem ser mais ridículas e nocivas que qualquer produção b do cinema,e o quanto a confiança do público nessas críticas deve ser reavaliada,assim como o papel da crítica,que está se tornando cada vez mais banal.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

"Viagens Alucinantes"(1980) - Ken Russell



"Viagens Alucinantes" é um daqueles filmes que devem ser vistos em tela grande.Um dos espetáculos visuais mais impressionantes,letárgicos e psicodélicos do cinema.Só que há um porém.Aprecia mais quem já teve sob influência de drogas psicoativas.Não adianta dizer que não...é uma realidade.Ken Russel foi um dos grandes diretores a colocar o psicodélico em imagens cinematográficas,como em "Tommy",que se baseia no álbum conceitual do The Who,clássico do rock pós-67.Suas cinebiografias sobre compositores guardam uma ligação de estados alterados com a música.E não é só isso,ele tinha uma conceitualização artística em seus filmes que davam uma liberdade à câmera e aos personagens em narrativas de uma pungência áudio-visual incrível.

Baseado nos experimentos do cientista John C. Lillys, o filme conta a busca obssessiva do professor de psicologia Jessup(William Hurt em seu debut)pelo estado puro da consciência humana,na tentativa de provar o quanto os estados alterados da  mente podem constituir uma realidade tão verdadeira quanto o nosso estado normal,trancado em tanques de isolamento.Ele decide viajar para o México para fazer uma experiência tribal com Ahayuasca(uma erva alucinógena) e após sofrer uma viagem única de estado alterado de consciência,ele volta com a droga para os EUA e começa a fazer testes sobre o efeito dela nos tais tanques,até que progressivamente a sua genética humana vai regredindo ao homem-primata em direção à um estado de proto-consciência,de origem da vida.Baseado num livro de Paddy Chayefsky,o premiado roteirista de "Marty"(1955),seus personagens agem alienadamente em diálogos bem construídos que vagueiam pelos delírios místicos de Jessup e explicações científicas-filosóficas sobre sua busca e como sua obsessão pelo trabalho prejudica a sua humanidade e família.

As cenas surreais editadas poeticamente dos delírios de Jessup são de uma lindeza impressionante com um trabalho de edição de som magnífico e a trilha sonora de John Corigliano indo de forma angustiante do horror ao fantástico.E é aí que entra um facto:de que o filme é melhor compreendido sobre drogas psicoativas.Somente quem já atingiu o estado alterado da consciência uma vez na vida vai se sentir como Jessup,que não presta atenção ao seu amigo Manson,respeitado médico que nega as causas da experiência por causa de um suposto perigo.Todos os medos de infância de Jessup e sua negação de Deus após a morte do pai se fundem com sexo,demônios e fogo numa montanha russa de imagens sonoras.Junto com "Medo e Delírio" de Terry Gilliam,esse é um dos poucos filmes que conseguem retratar em arte cinematográfica o delírio extra-sensorial das drogas.A cena em que Jessup vira matéria cósmica e é resgatado heróicamente por sua mulher é de um poder tão impressionante quanto as idéias que Douglas Trumbull deu para Kubrick retratar o portal de estrelas de Júpiter em "2001",uma óbvia inspiração.De deixar de boca seca.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

"Terror nas Trevas"(1981) - Lucio Fulci



O horror nasceu com o romantismo gótico?Muitos dizem que sim.Livros góticos como "O Castelo de Otranto"(1764) de Horace Walpole,"Frankenstein"(1818) de Mary Shelley,"O Médico e o Monstro"(1886) de Robert Louis Stevenson e "Drácula"(1897) de Bram Stoker estão como pioneiros de um gênero que ressucita mortos e lidam de forma metafísica com o limbo desconhecido entre a vida e a morte.E isso só pra citar os que eu li.Mas o horror sempre esteve presente no folclore antropológico de todas as tribos humanas encontráveis no mundo.Desde os deuses da guerra,passe pelas mulas-sem-cabeça,lobisomens,duendes do mal,...O sobrenatural metafísico expôs a fragilidade da carne e a angústia existencial humana desde Sócrates,Platão e Aristóteles.A existencia de outro plano independente da existência de Deus ou não sempre esteve como âmbito das discussões sociais mais arcaicas.

No começo do século XX o teatro de vanguarda aliado ao surrealismo começou a lidar com a fragilidade carnal e os sentimentos genuínos de medo que a arte podia oferecer.Porque a arte acima de tudo é expressão de todos as emoções humanas possíveis incluindo o medo,o desespero,a angústia,o terror e o horror,para gerar reflexões através da perturbação sensitiva,reflexões sobre nós como carne e espírito.O Manifesto Surrealista foi lançado em Paris em 1924 por André Breton e a característica fundamental do movimento era o fascínio por Sigmund Freud que dizia que o estado irracional da vigília human era torpe e podia libertar tanto a criança quanto o selvagem existente em nós.Sendo assim,de forma anárquica os surrealistas negavam a razão na arte.Mas não negavam a lógica como o Dadaísmo de Tristan Tzara,eles apenas substituiam a lógica do real pela lógica dos sonhos freudianos,da análise mental e da estimulação emocional pelos instintos primários.Por isso o sexo,a nudez,a violência e o olho cortado ao meio em "Cão Andaluz" de Luis Buñuel,só pra citar o primeiro exemplo de surrealismo no cinema.Nesse contexto surgem o Teatro de Grand Guignol em 1897 dedicado exclusivamente ao gênero horror que moderniza o sangue e o gore populares desde "Titus Andronicus" de Shakespeare e que na ascenção surrealista teria seu auge de popularidade.

É importante ressaltar esse contexto histórico porque existem muitos erros na forma como o cinema de Lucio Fulci é visto e analisado  até mesmo pelos próprios fãs.Fulci não era um moleque que jogava perversão na tela na forma de terror divertido de grindhouses.Ele era um artista com uma visão abrangente,um senhor culto que amava o surrealismo e que trabalhou como crítico de arte."Terror nas Trevas" é a síntese de seu objetivo artístico.O filme seria uma homenagem à Antonin Artaud,um desses vanguardistas franceses do surrealismo,que criou o "Teatro da Crueldade" onde todo o elemento sonoro,cênico e de iluminação estaria à favor da manipulação da audiência não como forma de sadismo mas para,nas palavra do próprio Artaud,restaurar ao teatro uma passional e convulsiva novidade na concepção de vida.O Teatro da Crueldade colocava o espectador como participante ativo da narrativa,e todas essas qualidades artaudianas são transformadas em cinema em "Terror nas Trevas",transformando uma produção de baixo orçamento no maior exemplo de horror pós-moderno.

Lucio Fulci está acima de rótulos e também esta cima de qualquer sentimento nostálgico de infância regada por sessões diurnas de cine-trash."Terror nas Trevas" está acima de qualquer crítico pseudo-intelectual que tenta defende-lo e não sabe como,usando de simplismos como "a intenção dele é o ilógico","retrato de um pesadelo","atmosférico" etc."Terror  nas Trevas" é uma obra de arte completa,onde todos os elementos fílmicos são harmoniosamente colocados em prol da emoção não como exercício de estilo,mas para cumprir com sua intenção "cruel".Trabalho de câmera,trilha sonora,atuações,tudo converge para o mesmo objetivo freudiano onde o medo infantil é contrabalanceado com o selvagem da violência carnal.E claro há todo um conceito pulp tanto na literatura  de magazines como na edição estéticamente cartunesca,ou até mesmo no legado de Sergio Leone em mise-en-scènes de jogos de closes de silêncio,na trilha morricônica macarrônica e na interação propositalmente  camp dos atores que ressaltam não o ilógico como muitos defendem,mas a lógica do tema do desespero humano nas ondas surreais disconexas de um pesadelo.O filme abraça juntamente com o já citado conceito surrealista freudiano e a crueldade do teatro de Artaud,o horror das pulp fictions que surgiram na primeira metade do século com o o niilismo sem fé e desesperado de H.P. Lovecraft.Isso fica claro no uso do Livro de Eibon no filme,criado por Clark Ashton Schmidt e usado por ele e o Lovecraft em diversas edições da revista "Weird Tales" na década de 20 e que retratavam a fantástica mitologia Cthulhu.

Fucci usa do controle autoral abrangente para promover a participação voyeurística do espectador em travellings,câmera subjetiva,jogo de campos,enquadramentos e ballets de angulações sempre de caráter simbólico ou informativo como no inicio deslumbrante em sépia com a edição brincando com o quadro pintado por Sweick(pintor que descobre a chave para o portal do inferno) e com a sua própria condenação em momentos contemplativos de sangue e dor.Edição que fará um constante jogo de terror versus serenidade como quando o olho do encanador é extirpado de sua órbita cortando repentinamente para o silêncio da estrada,na incrível cena em que a personagem Liza encontra a garota cega.Uma criança vendo o cadáver de seu pai(o encanador) no necrotério ao mesmo tempo que tem que assistir o corpo de sua mãe se decompondo com ácido;cercada pelo horror ela abre a única porta disponível e se depara com mais cadáveres,com Fulci finalizando com um grito em freeze-frame e cortando para a sofisticação de um clube de jazz onde já de inicio ele usa o jogo de foco de campo e contra-campo com o rosto de Liza e a banda no background.Juntamente com esse todo conceitual está a edição sonora no barulho do carrinho no corredor do hospital,o coro fantasmagórico das tarântulas, a água e os canos no porão do hotel e os gemidos dos zumbis.A trilha sonora de Fabio Frizzi é brilhante e climática num feliz matrimônio estilístico e autoral com o diretor,levando adiante o poder psicológico/temático que Herrman e Morricone impuseram ao cinema com frases tensas de piano,coros infernais,sopros exultantes(nos créditos a trilha anuncia o início de uma nova abordagem) e acelerações rítmicas(principalmente nos momentos mais violentos).

Apesar de ter feito grandes trabalhos autorais e honestamente artísticos,Fulci morreu pobre,doente e renegado à "midnights sessions".A hipócrita crítica de cinema do pós-guerra capitalista simplesmente nega os lados mais obscuros da mente humana,nega Freud,nega os grandes movimentos artisticos do seculo XX para defender uma suposta esperança hipócrita.Dizer que tal esperança deve estar sempre presente na arte é por fim negar o próprio ser-humano,visto que desde a Idade das Pedras as manifestações artísticas são retrato das emoções humanas,sem se preocupar com pré-conceitos ou em esconder o horror da fragilidade material da carne humana em prol de uma utópica sociedade.É essa negação e falta de visão abrangente que faz com que gente coxinha como Roger Ebert faça questão de ir em programas televisivos para condenar o niilismo e a violência no cinema,como se isso fosse feito por seres anormais perversos ou adolescente punheteiros."Além das Trevas" não é sangue e carne dilacerada jogada de forma aleatória por pleno sadismo de distúrbios psicossexuais,é um artefato fílmico com um objetivo eficiente para aqueles que conseguem enxergar a arte acima do pré-conceito.Então muito cuidado quando forem falar mal de algo que não seja favorável ao mundinho pequeno ao qual estão enclausurados,porque pessoas informadas podem simplesmente te desarmar.Não trate o horror como uma coisa passageira,como um orgasmo fugaz.O horror é a faceta mais antiga do homem desde que Odisseu massacrou os pretendentes de Penélope no épico de Homero ou quando Jesus e Fausto sofreram intervenções de Satã.O horror está no subconsciente de cada um de nós,e cabe a nós deixar esse sentimento ser explorado por artesões psicanalistas competentes...e Lucio Fulci mostrou com "Terror nas Trevas",ter sido um dos grandes.

"Brother"(2000) - Takeshi Kitano





Em "Brother" Takeshi  é Aniki,um funcionário da Yakuza que se envolve em uma briga de famílias e vê a morte de seu chefe seguida da submissão covarde de seu irmão que corta o próprio dedo para demonstrar fidelidade ao inimigo.Nessa perda de lealdade fraternal e de honra mafiosa na Yakuza,Aniki desce em Los Angeles para encontrar seu outro irmão,o mais novo e que deveria estar longe do crime,enrolado com uma gang de bandidinhos que vendem drogas na esquina  e que não possuem atitude para comandar no crime.Assumindo as rédeas,Aniki não enxerga freios,e na tentativa de montar uma outra associação fraterna dessa vez bem sucedida ele vai eliminado os rivais facilmente até ter que se defrontar com os italianos.Montando sarcasticamente uma hierarquia criminosa,Kitano põe a Yakuza como uma decadente rixa de amostras de honras superficiais,os negros americanos como irresponsáveis,os hispanos como irrelevantes e demonstra uma certa reverência para a secular Mafia italiana.Com o sentido de família mais uma vez destroçado por mais um irmão covarde em frente ao destino,o verdadeiro "brother" acaba sendo o cupincha Denny(Omar Epps),negro desbocado que sofreu uma garrafada no olho de Kitano logo de chegada.


"Brother" não conseguiu me extasiar como "Hana-Bi",mas é Kitano violentamente  melancólico e irônico.Kitano não surgiu  como um cineasta antropofágico típico do início dos anos 90,ele foi matéria-prima original assimilado pela antropofagia.Aliás...Kitano nem surgiu como cineasta,surgiu como comediante stand-up,polêmico por gozar da sociedade e dos "marginais" sem perdoar idade,crença,beleza,status.Foi proibido de entrar em emissoras de tv.Teve um programa de tv.Escreveu romances ,poesias e livros sobre cinema.Pintou aquarelas..."Hana-Bi" por favor.Mais uma coisa...Takeshi Kitano na verdade é Beat Takeshi e vice-versa.No cinema Kitano brinca com a Yakuza e com a morte que convive ao seu lado,niilista com sorrisos de sarcasmo.Mas também pode ser suave e família ou se auto-ironizar.


 Com tudo isso,Kitano É a cultura japonesa...se bobear Kitano É o Japão moderno.Duvida?Então ponha "Glória ao Cineasta"(2007) para rodar.Kitano não surgiu com o cinema,o cinema como a arte completa engloba todas as suas facetas.Assumindo total controle da obra,Kitano dirige,atua,edita.Na verdade ele faz mais que atuar...ele cria uma persona,um Eastwood Yakuza,um Yoshimbo de terno e óculos escuros.Um dos maiores autores a surgir no cenário japonês pós-moderno junto com Juzo Itami.
Em "Brother" Kitano joga com honra,fidelidade,valores e família.Mostra que é tão duro Caim matar Abel quanto deixar Abel às traças.Nessa desilusão a América se mostra como o palco do mergulho de Aniki na violência,com a passividade de sua personalidade profetizando o teste mortal de honra.Denny e a perda da família entra em sintonia com a alma de Aniki,o que causa o ato de gratidão final e a atitude de entrega da vida ao inimigo,até porque a vida é carne e vazio sem o laço familiar.Através da aridez poética da narrativa,de montagem com sinapses violentas e longos planos estáticos de vida corrente e real de convívio, Kitano monta esteticamente o desespero moderno mostrando a vida como uma comédia perversa...e prova ser um cara que conhece as ruas e seu desesperançoso ecossistema,independente da nacionalidade dessa rua.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"O Intendente Sansho"(1954) - Kenji Mizoguchi




"O Intendente Sansho" abre uma gama de discussões em muitos âmbitos.Filosófico,espiritual,antropológico,o filme de Mizoguchi é como o resto de sua filmografia,te conduz numa teia de visões em busca de uma redenção.Uma mágica obtida pelo enlevo diante de um realismo fantástico,palco de medos e anseios de personagens identificáveis.
O filme abre com a mulher Tamaki,seu casal de filhos e uma criada,em uma jornada para encontrar o ex-governador pai das crianças,após 6 anos deste ser exilado por contrariar os desmandos dos tiranos.Flashbacks  fluidos trazem à tona as lembranças de Tamaki e dos ensinamentos do marido para seu filho mais velho Zushio: "Sem piedade o homem é uma besta.Mesmo se você for severo consigo mesmo,seja piedoso com os outros." No entanto em meio ao trajeto eles são enganados por uma falsa sacerdotisa,as crianças são raptadas e vendidas como escravas para o cruel Intendente Sansho,e sua mãe é vendida para um bordel enquanto a criada é morta afogada.Anos se passam e enquanto Zushio perde toda sua alma se tornando o braço direito do Intendente nos castigos infligidos aos que corajosamente tentam fugir,sua irmã Anju ainda tem a esperança de encontrar a mãe.

Assim como em "Contos da Lua Vaga",Mizoguchi abraça o tom de fábula do conto do popular(no Japão) escritor Mori Ogai mesmo sem bruxarias e espíritos.A verdade que se consegue extrair do filme no entanto é muito mais real e atual.Bebendo em fontes americanas como John Ford,a busca pela vingança e redenção contra a tentação e o domínio do mal casam com a paisagem,ressaltando a natureza e tornando táctil as brilhantes águas dos lagos e a poeira da aldeia de Sansho.Não à toa o diretor de fotografia é Kazuo Miyagawa de "Rashmon",uma prévia da paisagem de Apichatpong.A violência é seca,quando as crianças são separadas da mãe,por exemplo,o trabalho de câmera magistral  passa um pânico cortante ao som de flauta  da hipnótica trilha sonora.
Mizoguchi dizia que só a partir de seus 40 anos é que ele começou a se preocupar com os verdadeiros valores humanos em seus filmes,principalmente com "Crisântemos Tardios"(1939)."O Intendente Sansho" é seu ápice nesse sentido.O personagem Sansho por si só representa toda a corrupção de alguém que seria responsável pela justiça,mas que só busca proveito próprio na arrecadação de impostos e na escravidão.Quantos Sanshos não existem no Brasil por exemplo?A reviravolta absolutamente dilacerante que o filme dá no final mostra o quanto é válido seguir certos mandamentos virtuosos,e é praticamente impossível não se entregar ao choro.

Trailer:


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Interlúdio"(1946) - Alfred Hitchcock




"Interlúdio" é passado no Brasil,é o maior romance de Hitchcock,a maior trama de espionagem,e um de seus filmes mais completos.
Livre do produtor David O. Selznick,que vendeu o filme para a RKO,o gordinho se juntou ao roteirista Ben Hecht e juntos desenvolveram a história da mulher que se apaixona por um agente que praticamente a joga  na cama de outro,por motivos políticos de dever.A história de dois homens em lados opostos se apaixonando pela mesma mulher.Um romance de confiança e um suspense de espionagem,que usava o urânio como macguffin 1 ano depois da bomba de Hiroshima.
Ben Hecht era um dos roteiristas mais prolíficos e versáteis de Hollywood,foi o homem que botou vários personagens numa diligência em "No Tempo das Diligências"(1939) de John Ford e criou a verborragia alucinada de "Jejum de Amor"(1941) de Hawks.Numa demonstração de respeito pelo diretor,as opiniões de Hitchcock eram amplamente aceitas resultando numa história que exploraria o melhor do diretor.
Como disse Truffaut :
 "Tirando o  máximo de efeito dos mínimos detalhes,o resultado foi tão perfeito quanto um desenho animado."

Sim,o máximo do mínimo é o que se percebe desde a primeira cena no tribunal quando o pai alemão da americana Alicia(Ingrid Bergman em uma de suas melhores atuações) é condenado por espionagem nazista.Sabidamente contrária aos ideais paternos,ela é contactada pelo agente Devlin(Cary Grant)para ir ao Rio de Janeiro num trabalho de cooperação,onde acabam se apaixonando.Isso até Devlin descobrir que tem que persuadir Alicia a seduzir Alex Sebastian(Claude Rains),ex-amigo de seu pai e que é lider de um grupo de cientistas-nazi que operam escondido no Brasil.Assumindo o poder do dever acima do amor,Devlin assume uma posição fria enquanto Alicia se vê obrigada à casar com Alex e a arriscar a sua integridade física num triângulo amoroso observado pela suspeita opressora da maquiavélica mãe de seu novo marido.

Poucos cineastas da época se dedicavam tanto para extrair o máximo de cada cena,de construir um todo autoral que correspondesse com sua visão do que Hitchcock..."Interlúdio" é um exemplo disso.Estudando de forma perfeccionista cada pormenor do filme na pré-produção em  storyboards,o filme se esbalda de subterfúgios visuais: o ponto de vista bêbado de Alicia virando Cary Grant de ponta-cabeça,o reflexo do espelho retrovisor do carro,o lento envenenamento de Alicia com a xícara mostrada em primeiro plano,a presença dominadora da mãe de Alex surgindo lentamente de encontro à câmera quando desce a escada,etc...
O elemento-chave mais conhecido do filme é,sem trocadilhos,uma chave.A chave da adega que contém provas de urânio escondidas em garrafas de vinho e que Alicia tem que passar paras as mãos de um Devlin disfarçado durante uma festa na mansão de Alex,para que esse possa entrar,vasculhar e sair,antes que falte bebida e que o vilão tenha que descer para suprir o estoque.Numa famosa cena a câmera se aproxima lentamente de cima e vai descendo até a mão nervosa de Alicia  segurando a chave.

O brilhantismo da atuação de Rains está no carisma que ele passa mesmo sendo um nazista.O seu amor é verdadeiro,a sua decepção é verdadeira,as suas nuances são variadas,e o seu medo é exasperador na cena final.A mãe dominadora,um dos aspectos freudianos mais recorrentes em Hitchcock,tem a sua primeira grande presença nesse filme abrindo mais uma etapa do psicossexual em filmes.
O que mais me impressionou portanto foi o modo erótico que Hitchcock retrata a paixão de Devlin e Alicia com o uso constante de closes e jogos de luz e sombra em meio a beijos e amassos.O Codigo Hayes permitia só 3 segundos de beijo num filme,Hitchcock filma 2 minutos e meio de beijo,usando 3 segundos de beijo intercalados por narigadas e assim vai....O fato da confiança quebrada,da resignação face ao inevitável em meio ao tumulto do ciúme,torna essa produção um filme quente,com o tão conhecido clima  brasileiro servindo de afrodisíaco para um triângulo de díspares paixões.



"Crisântemos Tardios"(1939) - Kenji Mizoguchi




Arrisco dizer que junto com filmes de 1939 como "Stagecoach" e "A Regra do Jogo" ou que ainda seriam lançados nos próximos dois anos como "Rebecca" e "Cidadão Kane","Crisântemos Tardios" é um dos filmes mais influentes do cinema moderno e um dos grandes pioneiros a surgirem nessa virada de década.O ruim é que o cinema oriental ainda tinha pouca visibilidade no Ocidente até "Rashomon" de Kurosawa abrir as portas,e Mizoguchi ser redescoberto por Jacques Rivette na Cahiers du Cinemá.Mesmo que à frente do seu tempo,os trabalhos mais reconhecidos do diretor viriam com "Contos da Lua Vaga"(1953) e "O Intendente Sansho"(1954).Um artista quase que completo,o diretor era perito em teatro Kabuki e Noh e "Crisântemos Tardios" é um dos melhores filmes sobre o teatro.

No século XIX,o jovem ator Kikonosuke se recente de não ter o mesmo talento que seu glorioso pai adotivo.Bajulado  pela fama que tem devido o parentesco,pelas costas ele é ridicularizado pelos amigos e é tido como sem-futuro aos olhos de seu pai.É quando se apaixona pela criada Otoku - franca como ninguêm e disposta a ajudá-lo em seu treinamento.Como sua família se opõe ao namoro,Otoku é demitida e some enquanto Kikonosuke foge de casa em busca de uma reviravolta.É quando ele reencontra Otoku,e juntos partem para uma vida de casado numa trajetória por trupes e hospedarias que dura anos de dificuldades,desavenças e tragédias,com a mulher se mostrando a base estrutural para o sucesso do marido,nunca deixando que o desânimo o abrace na busca pelo aperfeiçoamento de sua arte.

Um conto romântico e sensível,Mizoguchi dá uma liberdade às personagens femininas pouco vista na época,principalmente no Japão.Longe de ser apenas feminista contemporâneo,o fato de a sociedade retratada ser de 1885 mostra que a intenção de Mizoguchi é só situar a mulher no lugar em que ela sempre teve.Tomando as dores femininas para si,o diretor exorcisa fantasmas de sua mente,da época em que quando criança seu pai batia na sua mãe e sua irmã foi vendida para um bordel.Essa defesa do papel feminino exaltado em todas as eras é uma recorrente de sua filmografia e um dos motivos temáticos principais de sua influencia.

Tecnicamente  é que Mizoguchi se mostra um puta contador de histórias.De forma visionária ele usa ostensivamente de long-shots que,longe de serem exclusivamente estáticos ou contemplativos,usam e abusam de movimentos de câmera e tracking-shots onde os personagens coreograficamente percorrem os cenários e interagem numa construção de mise-en-scéne absolutamente emocional e realista.Planos abertos ressaltam uma fotografia sterbergiana com lâmpadas cuidadosamente distribuídas iluminando expressivamente o cenário.O modo como Mizoguchi filma as cenas do teatro são de uma reverência que ultrapassa o ego do diretor chegando até nós.É essa mise-en-scène que tridimensionaliza os personagens,superlativizando o tocante final que alegoriza com a flor do crisântemo que  morre no final do outono com o triunfo da primavera.
Um filme pra quem subestima a máxima de que por trás de todo o grande homem existe uma mulher.Um filme para quem ama ou já amou,e acredita na dedicação e no triunfo através desta.Talvez o maior dos filmes de amor.Talvez um poema.

Tracking-shot de Mizoguchi mostrando o primeiro encontro do casal protagonista: