sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"Entreato" -René Clair(1924) O Dadaísmo Audio-Visual

Tristan Tzara,um dos pais do Dadaísmo,disse em seu "Manifesto Dadá" que era  por principio contra os manifestos,como era tambêm contra os princípios.O Dadaísmo foi a despirocagem total,o pai do surrealismo que viria a surgir na quarta-feira de cinzas do entre-guerras,a negação da razão,o grito sofrido dos refugiados de Zurique no Cabaret Voltaire de Hugo Ball;o uivo das dores crispadas,entreleçamento de contrários.

A humanidade toma um rumo que parece ser escrito por alguem,onde realmente são os contrarios os produtores da verdade e da existencia.
Afinal se não existisse a guerra no inicio do seculo 20 não se reuniriam tantos artistas em desespero para se exprimir de forma original e condizente com o espectro da sua propria personalidade inserida no contexto social.
A dor produz belas artes,a dor é tão humana quanto o bem,e são esses opostos interagindo o verdadeiro motor da realidade?

Essa questão ja gerou diversos questionamentos em alguns momentos da historia da metafisica filosofica,mas os grandes desastres geopoliticos e sociais que a modernidade trazia naquela época fazia com que a negação do mal fosse a negação do bem,que o momento era de nós,como questionadores,nos elevarmos acima da razão e partir do nada para o nada sem se importar com quem analisa ou até mesmo com o que realmente esta sendo analisado.

"Entreato" é o grande filme dadaísta da historia,sendo obscurecido popularmente por "Cão Andaluz" filmado em 1929 e tambêm fruto da colaboração de um grupo de artistas de uma mesma escola em diferentes meios(no caso de Buñuel e Dalí era o surrealismo,o dadaísmo rompido).
Quando Francis Picabia,um francês pintor que se associou com todas as vertentes modernas possíveis,encena seu balett "Relache",temos ali junto com ele Erik Satie(genio de compositor,um dos precursores do minimalismo e do Teatro do Absurdo) e Rene Clair,como responsavel pelo entreato cinematografico,representante audio-visual dadaista.
O filme ja começa com a imagem de Satie e Picaba disparando um canhão.Em seguida todas as possibilidades que o cinema podia oferecer à epoca foram enfileiradas em uma série de imagens belamente orquestradas durante 20 minutos compactados na edição exposta em Cannes em 1971.Absolutamente à frente do seu tempo,misturando câmera lenta,com sobreposição,diferentes angulos de camera,edição jogada como cartas de baralho e momentos magicos fornecidos por efeitos visuais brilhantes,com o espirito de um Meliés depois de comer um cogumelo,e que viria a refletir não só no surrealismo,como tambem em filmes mais ecléticos em sua conduta e de contexto mais racional,embora acima do real,como "Zero de Conduta"(1930)  e "O Atalante"(1934)de Jean Vigo.

Marcel Duchamp e Man Ray jogando xadrez em cena de "Entreato"





"Berlin - Sinfonia de uma Grande Cidade"(1927) - Walter Ruttman,o Vertov alemão



Os anos 20 foram absolutamente revolucionarios no cinema.
Diversos estilos conviviam mutualmente na Europa como o Impressionismo frances,o Expressionismo alemão,a montagem soviética e o surrealismo.
De começo cada um no seu quadrado.
Walter Ruttman,um alemão muito louco que fazia filmes graficos e experimentais envolvendo conceitos musicais,se opôs à aderir ao vigente expressionismo de seus conterrâneos e adotou idéias soviéticas de Vertov e cia. para montar o nascimento e morte de uma cidade em um único dia mostrando todos os vieses e opostos de um cotidiano aparentemente banal.

É um filme que pega referencias do cine-olho vertoviano para construir uma poética da imagem de contrarios do constante movimento,e acaba por influenciar aquele que seria o ápice da realização de seu influenciador,"O Homem com a Camera"(1929) de Dziga Vertov.
Fica claro pra quem viu os dois filmes que o segundo veio a ser mais completo e ousado,alem de ter uma importancia tão significativa na teoria cinematografica que abafaria qualquer possibilidade de mérito original do filme alemão.
Ruttman não se concentra em ultrapassar os limites do conceito epistemológico da arte do cinema,mas se volta unicamente na utilização de métodos de montagem para levar adiante o seu proposito.O que o distancia e o coloca um degrau abaixo de Vertov,que usou de diferentes efeitos,edição dialética mais simbólica e uma metalinguagem surreal.

A idéia de movimento é uma constante desde o primeiro simbolo rítmico animado que aparece na tela (remetendo aos filmes malucos da série "Opus" do diretor),seguindo com o trem vislumbrando diferenciadas paisagens enquanto entra na cidade.
Os diferentes atos em que o filme é dividido diferem os momentos mais marcantes de uma rotina diária como se fossem membros de uma historia sempre igual com começo meio e fim.O acordar, o inicio da movimentação,a pausa pro almoço,a volta ao trabalho o entardecer e a noite.

É facil rotular de socialista um filme como esse devido à momentos de foco proletario que sua edição proporciona mas não há nada mais favoravel à um ideal socialista do que uma câmera que mostra a vida come ela é e esta sendo,numa sociedade destruida pela guerra,se recuperando,imersa num mundo dividido em dois, indecisa,alimentando futuros partidos genocidas.As maquinas industriais enquadradas como gigantes que possuem uma participação quase que primordial no movimento da cidade como um organismo inteiro mostra o quanto que o cinema puro fala sem emitir palavras e impõe a sua ironia e indgnação apenas com sucessão de planos e enquadramentos febris,independente se for um humanista socialista ou apenas um ser humano solidario mostrando a realidade de um ponto de vista documental.
Uma grande aula.


"O Grande Desfile" (1925) - A Guerra do Rei Vidor


Antes da Segunda Guerra estourar,antes dos filmes pós-Vietnã da New Hollywood demonstrarem um brilhantismo no seu modo de denunciar os conflitos, antes de blockbusters como "Tubarão" ou "Titanic" ficarem por meses nas salas de cinema,lá nos pioneiros anos 20 King Vidor dirigiu "O Grande Desfile",primeiro grande filme de guerra que viria a formar as bases de um subgênero tão cheio de possibilidades de erros do que de acertos.
Filmes tendo como ponto de partida uma familia destroçada pela guerra ja existiam desde "O Nascimento de uma Nação" de D. W. Griffith.Mas o individuo alienado que é pego pelo patriotismo e acorda para uma realidade avassaladora e mortífera tem  a sua epopéia exposta primeiramente por esse filme de King Vidor.

Pressionando Irving Thalberg,cabeça-chefe genial da MGM,para que produzisse um filme tão realístico quanto ambicioso,Vidor e o roteirista Harry Behn adaptaram o romance autobiográfico "Plumes" de Laurence Stallings o transformando no filme que o faria um dos diretores top de sua época.

Antecipando "O Franco Atirador",a primeira hora do filme se concentra na apresentação dos personagens e suas diferentes nuances psicológicas misturando romance e humor e se distanciando de qualquer ato de violência.Uma hora lúdica.Conhecemos o protagonista James Apperson(Lewis Gilbert,que se tornaria um dos maiores astros da época),um jovem rico e mimado que a principio não vê muita vantagem em se alistar no momento em que os EUA entram na Primeira Guerra Mundial,mas como o patriotismo surge em cada esquina através de bandeiras,confetes e desfiles,como o seu pai se sentiria mais orgulhoso com seu alistamento e na tentativa de se juntar à freneticidade empolgada de seus amigos ao mesmo tempo que tenta agradar a namorada,James acaba cedendo à "honra"estabelecida pelo dever à patria.
Vivendo num stand-by com o resto de sua tropa num vilarejo francês,James se apaixona por Melisande, atraente dentro de sua vulgaridade,estranha a um rapaz acostumado com patricinhas da alta sociedade.Junto com mais dois de seus amigos James vai aprendendo a compartilhar,a viver conforme a necessidade,e a fortalecer seus laços com a  francesinha cobiçada pelo resto da tropa devido ao distanciamento sexual que a guerra proporciona.
Assim somos mergulhados num clima absolutamente lúdico com a mistura de versatilidade tanto de Vidor quanto de Gilbert que contrabalanceiam o humor físico com o romance,enquanto que o personagem se desenvolve psicologicamente com o nosso acompanhamento.

Enfim as tropas são chamadas para a guerra,e num choque atmosférico somos levados ao inferno de Vidor.
Com a idéia de expor de forma crua e sangrenta o que uma guerra realmente é,ele constrói cenas magníficas em uma tour de force inédita.
Os soldados invadindo uma floresta cheia de metralhadoras e snipers assim como o momento em que seu amigo Slim sai da trincheira se escondendo entre sinalizadores para cumprir uma missão cujos resultados respondem à todo o destino que a vida de James toma pela frente estão entre as maiores do cinema de guerra conseguindo aproximar o espectador da tensão que o momento representado proporcionaria e fazendo com que julguemos por nós mesmos a decisão que iríamos tomar em tal situação,ao mesmo tempo que nos colocamos do lado do protagonista de uma forma indgnada ao ver que o que está sendo mostrado na tela é uma arbitrariedade comum na politica humana.

O senso de cenário e iluminação de Vidor proporcionam pela primeira vez a guerra como forma de arte,o que seria repetido por "Apocalypse Now"(1979),"Gloria Feita de Sangue"(1957) e por "Sem Novidade no Front"(1930,um filme mais recente à esse e injustamente mais conhecido).
As ruinas de um bombardeio dispostas no background como um quebra-cabeças gigante,o flashback no abraço de sua mãe quando James retorna com seus olhos frios fazem desse filme não só uma das grandes obras de arte anti-bélicas como tambêm dá o grande chute necessario para que um dos maiores diretores de sua época deslanchasse sem ser uma marionete-capitalista,mas um dos primeiros autores a imporem uma marca propria ao mesmo tempo que lidavam com grandes estudios : King Vidor.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

"O Gabinete das Figuras de Cera" (1924) - Paul Leni e Leo Birinski

Leo Birinski dirigiu os atores.
Paul Leni criou a ambientação e os cenarios.
Portanto o mérito maior desse filme é de Paul Leni,como um dos fantásticos exemplos do expressionismo.
A trupe de atores é a mesma que veio do grupo de Max Reinhardt e ajudou a fundar as excelentes atuações do cinema,como Emil Jannings,Conradt Veidt e Werner Krauss.

Muito longe de ser apenas um filme de horror o filme é uma antologia semelhante à "A Morte Cansada"(1921) de Fritz lang e passa por diferentes gêneros.
Um poeta(interpretado pelo futuro diretor Wiliam Dieterle) é contratado pelo admnistrador de um museu de cera e sua linda filha,para escrever mini-biografias de seus bonecos,mais exclusivamente do Califa Harun al-Rashid,de Ivan O Terrivel,e de Jack O Estripador.
Somos então mergulhados nas historias escritas pelo poeta,sempre protagonizadas por ele e pela linda filha do chefe,como um casal vitima dos biografados.

Primeiro nas arabias onde a mulher de um padeiro é cobiçada pelo Califa(Jannings em um excelente papel cômico).


Segundo na Russia,onde um casamento é interrompido pelo rapto da noiva sob ordens de Ivan O Terrivel(numa atuação de Veidt que explora a paranóia sanguinaria que inspiraria a visão de Eisenstein sobre o czar no futuro).O filme ganha uma tonalidade avermelhada para acentuar ainda mais o rastro de mortes que Ivan deixa por trás de si,envenenando pessoas  e deixando-as sofrerem seus últimos segundos de vida em frente à uma ampulheta.
Ivan é tão terrivel que convidado para um casamento,fica responsavel pela morte do pai da noiva,rapta a noiva,tortura o noivo e põe a noiva pra assistir.


Mas a parte mais brilhante do filme é a ultima,onde o casal é perseguido por Jack the Ripper(Krauss) num sonho do poeta.
Nessa parte a sobreposição de imagens que coloca o casal em fuga num parque de diversões sobre imagens desconexas do assassino os perseguindo,transforma a representação onírica do pesadelo do personagem na representação pura do Expressionismo visual no cinema...e por si só ja é um bom motivo pra se assistir o filme.


Esse foi o ultimo filme alemão de Leni antes de vir pros EUA dirigir filmes de horror e  esse foi o seu manifesto expressionista máximo,uma das grandes heranças imediatas de "O Gabinete do Dr.Caligari" contando inclusive com o dois atores dessa produção(Krauss e Veidt) e com cenários diretamente inspirados por ela.
Um dos grandes exemplos de amor ao fantástico da Alemanha dos anos 20.

"A Marca do Zorro"(1920) e "O Pirata Negro"(1926) - As aventuras de Douglas Fairbanks

"A Marca do Zorro" deixou sua marca mesmo,sem trocadilhos.
Amantes de super-heróis e de filmes de ação que levianamente desprezam o cinema mudo estão cuspindo na origem de muita coisa.
Fairbanks ja era um artista de sucesso se destacando em comedias e fundando com Chaplin,Mary Pickford e Griffith a United Artists que evitava controle de grandes estudios e os dava controle artistico total sobre seus filmes.Com uma persona de sucesso e um casamanto com Pickford que lhes renderiam o status de primeiro casal celebridade do cinema(o PickFair),Fairbanks muda os filmes de aventura com um personagem que estaria dai por diante sempre presente no imaginario popular.

Zorro foi criado pelo escritor Johnston McCulley num conto em série num jornal chamado "A Maldição de Capistrano",mas foi o filme que rendeu tanto sucesso,e graças a ele que a serie foi romanceada e o personagem se tornou popular.
As suas entradas inesperadas em cena,o seu estilo dinâmico com a espada e seus voos acrobáticos se misturando ao cenário abrem as portas para um novo tipo de herói que seria muito explorado pelo cinema desde então.Um herói irônico que não se contenta em ferir com a espada o rosto de seus inimigos,mas ainda tira onda e ri da cara.
A historia se passa no seculo XIX,na Califórnia hispânica,onde Don Diego,o filho de um poderoso rancheiro local,volta da Espanha e se depara com o povo sofrendo nas garras de um governo sujo e de uma policia cruel.
Assim como Batman quase 20 anos depois,ele se reveste de um personagem para combater os inimigos enquanto que como Don Diego ele não passa de um playboy mimado fazendo magicas bobas,inclusive na frente de sua amada.
Todas as suas lutas são bem coreografadas e sua elasticidade só era comparável à de Buster Keaton na época,fazendo com que a torcida pelo herói atinja o publico e tornando Fairbanks como o fundador de um gênero enchendo a sua conta bancaria.
Divertidíssimo.










"O Pirata Negro" foi um dos filmes que se seguiriam após o sucesso de Zorro e que entra pra historia tambêm por ser o que primeiro contou uma historia envolvendo piratas e a transformou num subgênero.O conto de um duque que após sobreviver à um assalto de piratas que matam seu pai e decide se vingar se infiltrando  no meio dos inimigos como o invencivel Pirata Negro,ainda contem os mesmos elementos de falsa identidade e maniqueismo bem contra o mal.
Para se manter no grupo ele desafia o melhor lutador e assalta sozinho um navio cheio de canhões.E claro, ainda tem que salvar uma garota refêm do perigo.

Assistir aos filmes do Fairbanks,principalmente na sua época,é como ler "As Viagens de Gulliver" ou "A Ilha do Tesouro" com 8 anos.
É a arte que tem que ser apreciada com olhos de criança.São historias em que a coragem individual é usada para o bem de quem se ama,ou para se firmar com a honestidade brigando contra os vicios de uma sociedade ruim.

"Anjo das Ruas"(1928) -Borzage e os planos





A influencia do cinema autoral do cinema alemão no cinema em Hollywood é incontestável.
Principalmente Murnau,que desembarcou nos EUA e filmou "Aurora" filme de 1927 com Janet Gaynor e que viria a influenciar até mesmo John Ford.
Um dos mais influenciados por ele foi Frank Borzage,que coincidentemente faria sucesso no final dos anos 20 com dois filmes tendo a Janet Gaynor como protagonista e sendo ambos presença na primeira festa do oscar junto com o filme do alemão.
A atriz seria a primeira laureada...pelos três filmes.

Quanado eu digo influenciar eu não estou dizendo que ele se ajoelhava aos pés do expressionismo alemão e copiava descaradamente,muito pelo contrário.
O que ele fazia era se prover da ideia de auteur/diretor e fazer com que o elemento puro do cinema seja tirado de uma historia,seja com movimentos de camera,fotografia deslumbrante e efeitos ópticos;seja com grandes atuações.
Os planos-sequencia de Borzage eram sensacionais e iam muito alêm do que o cinema alemão fazia,a apresentação do cenário da viela no inicio do filme,ou quando Gino sai desesperado no meio da multidão a procurar a fugitiva Angela.
Não é a toa que Scorcese ama Borzage.
O mais expressionista do filme  é a fotografia cheio de névoas e escuridão tendo como o auge o momento em que Gino sai com um fosforo procurando o rosto de uma mulher no final do filme.
Os enquadramentos tambem são obras de arte à parte seja para colocar os personagens numa posição hierarquica(como a camera por tras dos juizes no tribunal),seja pra posicionar os personagens distantes numa mesma situação(quando Angela está  se equilibrando antes de cair,tendo Gino ao longe com um policial à assistindo),um grande trabalho de profundidade de campo.

A historia se passa na Italia e conta a historia de Angela,uma garota que resolve pedir esmolas pra salvar a mãe moribunda.Num roubo ela é pega pela policia e numa sequencia de acrobacias se esconde numa trupe circense.Junto com essa trupe ela viaja como equilibrista e se apaixona por um pintor optando por levar uma vida de casada.Quando tudo parece estar realmente bem,um dos policiais a reconhece e o passado volta pra atormentar.

Esse filme mostra toda a capacidade dramatica da atriz que vai da garota de rua corajosa e durona sempre comendo uma maçã pra pagar de fodon, à uma mulher sensivel e apaixonada como qualquer outra.Uma das maiores atrizes de sua época compondo um personagem bem diferente da esposa sofrida e indefesa de "Aurora".
Como comum na maioria dos filmes do diretor,o tema acaba se distanciando de uma realismo denunciativo(principalmente antes dos filmes anti-nazi dele)e descamba para uma paixão avassaladora e carnal sendo separada pelo destino.Mas a técnica e o conjunto tanto histórico como artístico atemporal do filme salva de qualquer lugar comum melodramatico.

"O Leque de Lady Windermere"(1925) - Lubitsch encontra Oscar Wilde

Nada mais viável ter uma obra do satírico dândi Oscar Wilde sendo adaptada no cinema por Lubitsch.
Mas na época muda isso era um desafio para o diretor que só contava com os intertitulos e com a atuação dos atores para tentar passar a fleuma dos diálogos que a peça original proporcionou em 1892.
O resultado nesse caso foi uma das grandes obras do cineasta alemão em solo americano.

A maioria dos cinefilos-listas-de-web conhecem Lubitsch de filmes falados onde ele soube usar ao seu favor o recurso para se destacar ainda mais como o sofisticado das comedias de costumes.
Mas dentre  o grande àpice do cinema alemão da era Weimar ele ja fazia filmes considerados como os melhores de sua época.Se distanciando do expressionismo de seus colegas ele conseguiu com obras históricas,como "Madame Du barry"(1919) e "Anna Boleyn"(1920) ser o primeiro a ter uma distribuição norte americana;em 1922 ja se encontrava em Hollywood.

"O Leque de Lady Windermere" foi um dos seus filmes para Warner e está entre os que melhor exemplificam atraves do sarcasmo de Oscar Wilde ao vitorianismo hipócrita,o talento do diretor em reações humanas que descambam em situações cômicas envolvendo tabus,sexo,casamento,adultério,..tudo isso em um simples enredo.
Num resumo a historia é a seguinte:
 a linda Lady Windermere tem um feliz  e bonitinho bem-visto socialmente casamento com Lord Windermere até começar a desconfiar que seu marido tem um caso com a notória e mal falada Mrs. Elynne
.Antes disso o filme nos mostra que Mrs Elynne na verdade é a mãe de Lady Windermere que entra em contato com o genro pra revelar sua identidade;receoso de que o choque da descoberta iria afetar muito sua esposa que tem a mãe como morta,Lord Windermere decide entrar em um acordo e envia um cheque para que sua sogra permaneça calada.
Quando Mrs Elynne é convidada por Lord Windermer para a festa de aniversario de Lady Windermere,esta resolve se vingar dando chance para o conquistador Lorde Darlingnton(Ronald Colman muito bom como o fura-olho).Ao saber disso,a mãe Mrs Elynne corre contra o tempo para salvar o casamento da filha e resolver o mal-entendido.

Como eu disse,um grande feito para o cinema mudo conseguir de forma não menos que brilhante,adaptar uma peça tão mordaz e tão humana .
E o leque?
O leque serve como leitmotiv do filme.
É com o leque que Lady Windermere ameaça dar na cara de Mrs Elynne causando toda a tensão do primeiro encontro entre elas na festa.
É o leque que causa o desfecho angustiante e que pode causar todo o caos,assim como pode salvar.Ainda mais se depender do amor de mãe mesmo que escondido.
O titulo inteiro da peça de Wilde é "O Leque de Lady Margarida:Uma Peça Sobre Uma Boa Mulher".
Sim ,uma boa mulher que foi guiada por instintos verdadeiros sem se abater por convenções,sem baixar a cabeça para o adultério e vendo que quando era traida resolve responder na mesma moeda.Assim como boa mulher é tambem a tão mal falada Mrs Elynne que não se abstem de sua maternidade não revelada para por em jogo o seu proprio futuro.
Um grande filme de um mestre das relações urbanas.