sexta-feira, 4 de novembro de 2011

"Tampopo-Os Brutos Tambêm Comem Spaghetti" by Juzo Itami - 1985

 Juzo Itami é considerado por muitos o maior diretor artista japonês desde Akira Kurosawa.Um titulo brilhante visto que depois de atuar em filmes diversos ele começou a dirigir aos 50 anos em 1984 com o filme "Ososhiki".
Mas ao analisarmos essa brilhante obra que foi o seu segundo filme,percebe-se  o uso de diversas vertentes estilisticas ocidentais em contraste com qualquer rigor oriental contemplativo;realmente sua maestria tecnica de contar uma historia com a camera e manter uma narrativa coesa com o uso diverso das mais variadas ferramentas cinematograficas é o mais proximo de um Kurosawa que o Japão se propos a oferecer.
A influencia de Itami é o cinema,e sua possibilidade de contar uma verdadeira historia com as mais variadas emoções.Se o "Tampopo" é considerado um western-spaghetti por reverenciar diversos recursos estilisticos de Leone ou conter as qualidades narrativas de tal gênero,surge a pergunta:
Da onde vem a origem da influencia?
Se os filmes de Leone eram totalmente tributos italianos ao um genero americano inspirados pelos filmes de samurai de Kurosawa?

"Tampopo" é a prova viva de que as influencias artisticas transcorrem como ondas no inconsciente coletivo.Um filme gastronomico que usa o talharim como mote satirico do diretor em sua visão dos costumes da sociedade japonesa.O talharim e sua mega-popularidade é o cerne da historia central em que Tampopo(a excelente atriz e mulher do diretor Nobuko Miamoto) é dona de um restaurante cujo talharim é feito com total despreparo.
Com a chegada de Goro(Tsutomo Yamazaki,um forasteiro a la Clint que em vez de chegar a cavalo chega num caminhão)e seu ajudante Gun(um jovem Ken Watanabe),sua vida passará por uma transformação evolutiva dentro da arte de se preparar um noodles.Por cuidar de Goro depois dele defender ela numa briga perdida,ele aceita a dificil decisão de ajuda-la a achar a receita perfeita pro seu talharime pro visual de seu restaurante(numa especie de Gordon Ramsay japones),encontrando nessa curiosa jornada diversos personagens pitorescos,ironicos e profundos.

O filme é vendido como uma comédia,mas não é uma comedia de apelo comico-visual,o humor vem do modo sagaz e ironico do diretor em relação aos seus conterraneos(de gangsters da yakuza à mendigos) e ao modo como a comida e seus prazeres podem ser inseridos dentro de uma sociedade.
A introdução do filme ja é por si só criativa,com uma sala de cinema onde um gangster de terno branco começa a conversar com a camera perguntando "O que vocês estão comendo agora?".
De repente as luzes se apagam e a historia de Goro e Tampopo se desenrola na tela grande.
Essa metalinguagem de cinema dentro do cinema e arte dentro da arte continua logo apos os creditos iniciais quando percebemos que a excelente descrição artistica de como se comer e apreciar um prato de talharim por um mestre ao seu aprendiz nada mais é que um livro lido por Gun.
 A qualidade do cinema japonês de filmar rituais cotidianos como se fossem eles mesmo uma arte é usada aqui como uma saudavel auto-parodia,como o modo em que os restaurantes levam a serio suas receitas,o seu preparo e o profissionalismo de seus restaurantes.
O alimento na vida social é retratado de forma surreal em diversas vinhetas que intercalam a historia principal.Tais vinhetas fogem do aspecto western da historia de Tampopo e são misturadas com o amalgama estilistico presente na mente de Itami e com o surrealismo perversamente ironico de um Buñuel,só pra fazer uma comparação.Aspectos vistos como uma cronica-social tendo como base a alimentação do homem moderno.
Como uma das principais qualidades do brilhante roteiro,escrito pelo diretor,está tambem o modo como ele intercala essa vinhetas com a vida de outros personagens dando uma sensação de vida corrente,como se tudo tivesse acontecendo ao mesmo tempo, o que é reforçado com a presença constante do trem.
Por exemplo:o subordinado que dá um show de conhecimento culinario num restaurante chique em contraste com o descaso de seus superiores em relação ao cardapio ja é intercalado(com a camera seguindo o maitre)com a outra parte do restaurante onde temos uma aula de etiqueta sobre como sugar um talharim sem fazer barulho;o gangster(do inicio do filme e que reflete o lado erotico-violento-perverso da comida)que faz sua amante atingir o orgasmo com uma gema de ovo seguido de uma cena simbolica envolvendo sangue,ostra e...tesão;o homem com dor de dente que após se livrar da dor e ter a possibilidade de degustar loucamente um sorvete ajuda um moleque com uma placa no pescoço dizendo:"Só como alimentos naturais,mensagem da minha mãe.";a mãe de familia que cozinha sua ultima refeição antes de morrer;todas historias conduzidas com uma maestria original e brilhante.

Se ha uma forma de qualificar o filme de modo geral é:
um grande trabalho artistico,original em seu tema e fruto de um auteur provindo de uma geração que costumava usar uma colcha de retalhos do cinema dos mestres.A emoção que o diretor consegue tirar de um bando de mendigos cantando em homenagem ao seu benfeitor,a homenagem chapliniana na cena em que um desses mendigos entra clandestinamente num restaurante pra fritar um omelete de arroz, a violencia,o amor,o humor, todas as emoções são extraidas por Itami de sua propria historia assim como o os mais diversos termos da linguagem do cinema de verdade.Meu texto é pouco pra aprofundar todos os temas tocados por Itami,mesmo que levemente.

Se reverencia Kurosawa,Leone,Buñuel,Ford(como nas brigas de soco,ou na despedia final do herói) ou até mesmo Kubrick(no modo como posiciona as lampadas em prol de um cenario autentico artisticamente e na trilha sonora) não importa.O que importa é que Juzo Itami é um nome a ser reconhecido e reconhecido pelas novas gerações,e que seu segundo filme é uma das principais obras a surigirem do universo cinematografico nos anos 80.
A cena dos creditos finais resume a origem de tudo o que o filme se propos a relatar a seu modo:a veneração da humanidade pela comida e sua conotação quase que sexual.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Apertem os Cintos......O Piloto Sumiu!" by David Zucker,Jim Abrahams e Jerry Zucker - 1980

A Revista Mad nunca exerceu uma influência tão grande no mundo do cinema como em David Zucker,Jim Abrahams e Jerry Zucker e sua obra-prima "Apertem os Cintos,o Piloto Sumiu!".
A catarse anárquica de situações díspares e esquetes satiricos provindo de todas as partes e dialogos,possui uma influencia na posterior comedia norte-americana em outras grandes obras do coletivo ZAZ como "Corra que a Policia Vem Aí!"(1988),até os derivados caça-niqueis nauseantes como "Disaster Movie"(2008).
A Mad tinha o habito de satirizar em seus inteligentes quadrinhos os blockbusters de sucesso,com cada quadro apresentando uma piada em cima de um clichê ou anarquisando o conceito geral da obra tida como "séria".
Assim ZAZ fez aqui,com referências culturais diversas à filmes de catastrofe tão comuns na decada de 1970,misturadas com diversas outras citações que vão da excelente cena remetendo aos "Embalos de Sabado a Noite"(1977),à "Tubarão"(1975),como na cena introdutoria(filmes,aliás,que recentemente tinham derramado sua magica na tela grande).

Não há momento sem piada e não há ritmo igual ao trio de diretores assim como a facilidade em transformar em observações irônicas piadas pré-Farrelys,como o piloto pedófilo,a frase "Prefiro preto,como os meus homens" dita por uma criança,mais crianças doentes(na sensacional cena do violão),freiras,negros falando seu proprio "dialeto",religiões..dentro do cenario de um avião em queda após  o desmaio dos pilotos por terem comido peixe.

A genialidade do filme em não poupar o espectador em nenhum segundo de piadas visuais toma personalidade na aparição absolutamente fora do lugar comum de Stephen Stucker e seu personagem Johnny cujas aparições delirantes resumem conclusivamente o espirito non-sense da falta de linearidade e interrupção do humor de comic-con que o filme nos brinda atraves da linguagm da sétima arte.

Muitas das ferramentas estilisticas cinematograficas ja usadas a epoca a exaustão em prol da proliferação de clichês são revistas e chacotadas com competencia tecnica como zoom-ins melodramaticos,planos sequencias,trilha sonora previsivel(aqui dentro do mesmo espirito satirico do filme numa excelente composição de Elmer Bernstein)...assim como personagens e situações comuns no subconsciente pop,principalmente depois da chegada avassaladora da televisão.
O primor do profissionalismo dos envolvidos vão da seriedade forçada mas convincente de suas atuações,do sempre impassivel Leslie Nielsen num papel que lhe renderia quase que uma aura icônica em trabalhos posteriores,o heróico passional Robert Hays(numa dança travoltiana impecavel),a heroina Julie Hagerty(numa incrivel candice patética),assim como Lloyd Bridges cheirando cola e Robert Stack auto-ironizando o machismo idolatrado do herói salvador.
Só constata mais ainda o valor de obra surreal cômica fundamental do seculo XX as intervenções do imaginario sendo atropelado pelo real como nos lampejos de genialidade de Kareem Abdul-Jabbar sendo reconhecido pelo moleque assediado por Peter Graves(da serie original de "Missão Impossivel") e Ethel Merman como uma tenente enlouquecida que pensa ser Ethel Merman.
Um filme detalhistico,excelente com maconha,salgadinho e pé descalço no carpete....mas detalhistico.           .

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"O Veludo Azul" by David Lynch - 1986

Um dia David Lynch sonhou com um titulo: "Veludo Azul".
Um dia David Lynch imaginou uma orelha humana perdida no gramado.
Um dia David Lynch,quando criança,chorou ao ver uma mulher nua correndo pela rua desesperada.
Um dia David Lynch teve o obscuro desejo de espiar uma mulher de dentro de um armario e descobrir pistas de um crime.
Um dia ele ligou isso com a imagem da orelha e o titulo Veludo Azul atraves da canção homonima "Blue Velvet" de Bobby Vinter,retrato de uma doce geração.

Ironizar o "american way of life" foi o próximo passo depois do subestimado "Duna"(1984) e de ter feito sucesso cult com "Eraserhead" (1977),e figurado entre o mainstream com "O Homem Elefante" (1980).
As cercas brancas rodeadas por rosas vermelho-vivo,as crianças brincando no gramado,o bombeiro acenando para nós,e todo esse otimismo pregado pela alienação social norte-americana não é dessa vez invadido por um psicopata como em "A Sombra de uma Duvida"(1943) de Alfred Hitchcock ou "O Estranho"(1946) de Orson Welles;nem tão devastadoramente destroçada emocionalmente como nos posteriores filmes de Sam mendes como "Beleza Americana"(1999) e "Foi Apenas um Sonho"(2008).Aqui Lynch prefere defrontar o bem com o mal dentro do que seria a visão dele desses opostos pertencentes a qualquer ecossistema,do pré-fabricado ao natural.
Se a idealização da felicidade utópica é corrompida por um ataque(do pai de Jeffrie,causa da sua volta),e um ninho de insetos nojentos sendo usados como metáfora para o que se esconde por tras da fachada de um lindo gramado,assim como um cachorro brincando com o dono enquanto esse pode estar morrendo é o que se esconde por tras de um aparente amigo fiel;vemos que Lynch mostrará atraves de simbolismos o confronto entre esses dois pólos.
Através de uma orelha humana descoberta por Jeffrie no quintal,como que um portal ela nos levara junto com ele numa odisseia de aprendizado da vida como ela realmente é e pode ser:o mundo dos insetos.


Muito se diz da luta entre o bem e o mal nesse filme mas o que se vê é uma ironia sarcastica gritante do modo de se ver o mundo pela inocencia alienatoria.O casal de protagonistas são tidos como os heróis desde o inicio porêm são totalmente aquêm de qualquer conceito de violência,e logo Jeffrey se depara com sadomasoquismo,estupro ritualistico,fetiche,psicose,perigo imediato,assassinato,tudo em pouco tempo,na figura do psicotico inalador de nebulizador afrodisiaco delirante Frank Booth(Dennis Hopper que aceitou o papel dizendo que o personagem era ele?!)e a cantora Dorothy Vallens(Isabella Rossellini totalmente negligenciada fisica e moralmente,no bom sentido...).Impressionante como Lynch constrói a cena em que Jeffries conversa com Sandy no carro,os atores com uma interpretação propositalmente forçada,mostrando a patética visão de mundo deles,deparados com o mal:
- "Porque existe alguem como Frank?!"
Seguido por um bobo discurso de Sandy sobre um sonho onde pintarroxos representavam o amor.
Há de se notar a ironia que Lynch se reveste nesse sentido(e que resume sua mensagem),até no epilogo do pintarroxo com um inseto no bico com mais uma metáfora simbólica do bem vencendo o mal e frases como "Que mundo estranho esse que vivemos!".


Um sonho sim é o que parece ser o filme a todo momento,com Frank levando Jeffrey a um passeio de descoberta onde estranhos personagens vão surgindo de forma quase que Felliniana(mesmo que Lynch tenha inventado uma linguagem propria,a influencia de Fellini e Kubrick é obvia).
Dean Stockwell surge brilhantemente como uma bicha psicotica e misteriosa afetada,assim como Roy Orbinson embala um espancamento após a primeira reação a violencia de Jeffrey.
O misterio policial é apenas um mote referencial ao noir e forma de conduzir o que importa,que é o modo comico-ironico-perversivo com que Lynch retrata a jornada de pessoas pertencentes à um conceito harmônico pateticamente publicitario,para o underground do mal escondido em qualquer um de nós.

domingo, 30 de outubro de 2011

"Ginger e Fred" by Federico Fellini -1986

A televisão surgiu como um furacão pós-moderno perverso e engolidor da verdadeira arte no seculo 20.Suas artimanhas publicitarias e seu entretenimento vazio,forçado e alienatório foi uma das principais causas da decadencia cultural moderna.Nada mais satisfatório do que ver Fellini em seu ultimo grande filme agir com um sarcasmo cortante e engraçadissimo contra essa midia tão despudorada,lidando com temas pessoais seus como a propria "decadência", sua velhice e o medo do futuro.

Amelia(Giulietta Masina) e Pippo(Marcello Mastroianni) são dois veteranos artistas que costumavam imitar Ginger Rogers e Fred Astaire 40 anos antes e decidem se reencontrar depois de um convite feito por um programa de televisão.O mundo se encontra diferente,o aparelho televisor surge como um imã cerebral.Ninguem consegue largar os olhos dela.
O humor é a ferramenta de Fellini.Quando Amelia desembarca em Roma o maremoto cultural moderno ja a engole na figura de funcionarios da televisão,sósias dos mais variados artistas,figuras excentricas como um travesti,um velho heroi de guerra...
Amelia (Masina tão naturalmente perfeita e auto-referenciativa como em "Julieta dos Espiritos"(1965)) se encontra apavorada com todo aquele assalto de perversão e superficialidade,onde as pessoas não conversam,apenas mandam..;e numa Roma perigosa como nunca.
A direção de Fellini  por mais convencional que seja,nunca é convencional.O modo como ele distribui esse bando de personagens emergentes de um novo mundo é com a mesma quadrinização anterior.A musica de Nino Rota não existe mais ali,mas parece que Nicola Piovani(oscarizado por "A Vida é Bela")segue a mesma linha picaresca,visto que a correspondencia psicologica da musica-Fellini ainda é a mesma.

Mas o que carrega realmente o filme é Marcello Mastroianni em uma puta interpretação.O seu Pippo é um verdadeiro artista desbocado,cinico,debochado e frustrado,mesmo que procure não não deixar transparecer em meio a piadas sarcasticas.O ator se joga em seu personagem com sua voz catarrenta e constantes tosses em meio à resmungos e atitudes de escarnio.Um divertido personagem que carrega Amelia pela mão em sua erratica decisão de voltar ao passado ou não,em um programa de televisão de espetaculos passageiros e superfluos(que tem como apresentador Franco Frabrizi,ator recorrente nos primeiros filmes de Fellini como "Os Boas-Vidas" e "A Trapaça").

Enfim o final se mostra ao mesmo tempo que lindo e emocionante,uma lapide na sepultura de um artista.O rock'n roll ja tinha dominado,a televisão extrapolado,sacos de lixo espalhados por toda a cidade.Fellini se despede com sua ultima visão satirica de um futuro incerto...

"E la Nave Va" by Federico Fellini - 1983

Em 1983 Fellini ja tinha se tornado um marco historico no mundo do cinema.Seus filmes sempre satirizavam a sociedade e o ser humano com sua visão particular e extravagante.O termo "Felliniano" pode ser encontrado até em dicionarios.
Porem em seus derradeiros filmes dos anos 80 ele ja parecia se preocupar em abrir mão de muito de suas caracteristicas estilisticas antigas para equilibrar sua tecnica e sua inventividade narrativa  com arroubos artisticos moderados.Sempre exaltando a visão,a mensagem, e a arte em si.

Aqui Fellini conta uma historia que se passa quase inteiramente num grande navio fretado por principes,artistas de teatro,dançarinas,cantores de ópera,condes,barões,grão-duques,paranormais,...com destino na ilha de Erimo onde(como pedido em seu testamento),as cinzas da ilustre e gloriosa cantora Edmea Tetua devem ser espalhadas.
A chegada dos passageiros no porto na cena introdutoria é apresentada por Fellini como um daqueles documentarios mudos do inicio do seculo passado em uma clara metafora fílmica.Logo surge o personagem de Orlando (interpretado pelo ingles Freddie Jones),um jornalista intrometido que será nosso guia em meios aos caricatos personagens e situações dentro do navio,o famoso personagem bufo de Fellini,o mestre de cerimonias.Orlando conversa com nós olhando diretamente pra câmera,sujeito a gags comicas forçadas que quase me decepcionaram nos primeiros 15 minutos.
A musica e o som são tratados de forma quase metafisica nessa obra,onde experimentos aparentemente casuais permite uma interação psiquica com quem assiste.A cor do som da voz,a orquestra de copos nivelados com agua,a galinha hipnotizada.São situações expostas como uma curiosidade que esta sendo partilhada diretamente com nos.

A ironia vem do retrato satirico da belle époque do pre-guerra em meio a personagens quase que todos excentricos em seus comportamentos como o barão  sendo constantemente traido pela sedenta baronesa,o gordo grão-duque e sua prima cega(interpretada por Pina Baush,famosa bailarina artistica daquele numero em que ela sai atropelando as cadeira que está em "Fale Com Ela" do Almodóvar),os cantores de ópera(grandiosos na cena em que cantam pros operarios do navio em meio aos barulhos da caldeira e trabalhadores numa grande alegoria musical).

Na segunda parte o filme dá uma reviravolta ritmica genial com a subida à bordo de um bando de camponeses pobres turcos fugidos do exercito do Império Austro-Húngaro logo após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e o inicio da primeira guerra.
Fellini se veste de uma sutil denuncia e ironia à la Buñuel mostrando o contraste desses dois mundos.A cena em que eles comem enquanto os camponeses famintos ficam assistindo é brilhante,alêm de nos apontar quais são as reações de cada personagem...mesmo que depois das cortinas serem fechadas a unica que se prontifica a alimenta-los é a ninfomaniaca baronesa,logo encontrando um oasis do seus sonhos no rosto rude dos turcos.
 No apoteótico final em meio a vozes,tiros,mares de lona,e cenarios de estudio a camera se distancia no climax da ação pra mostrar todo o aparato do set de filmagem em um longo plano sequencia que fecha num close da camera principal do diretor.
Fica aquela sensação de vazio e pretensão,diferente de outros inumeros filmes do diretor,mas mesmo assim uma bela experiencia de poesia,humanismo e tour de force do Fellini.
Alem de ter a belissima e inebriante "Clair de Lune" de Debussy e a simbolica presença de um rinoceronte fétido e doente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Amarcord" by Federico Fellini - 1973

"Amarcord" é "Me Recordo" se traduzido do dialeto de Rimini,cidade natal do diretor,pro português.A lembrança protagoniza o filme;mesmo que Fellini insista em dizer que não tenha caráter autobiográfico,suas recordações são distribuidas em vinhetas dispersas,porêm ligadas à um nexo rigoroso,mais rigoroso do que muitos dos filmes dele.
 
Não se concentra em nenhum personagem em especial,porêm numa gama de acontecimentos dramaticos,historicos  e comuns em sua magica técnica artistica.O filme talvez se concentre mais em Titta(inspirado num amigo se infancia de Fellini),um endiabrado rapaz que acaba sendo o espelho da adolescência,ou os olhos do proprio  diretor à época.
Se Fellini tinha um dom,era o de filmar tudo como se fosse uma nova descoberta,o que casa com a visão que os jovens tem da puberdade,da masturbação,da bunda da mais gostosa da cidade,da ninfomaniaca que ronda a cidade como um zumbi sedento( a ninfomaniaca era um personagem recorrente de Fellini vide "Roma"(1972) ou "Satyricon"(1969)),das incriveis corridas de carro("Olhem,eu achei uma orelha!!"),dos filmes de Gary Cooper,da escola,...e consequentemente da alienação que a Igreja e o Fascismo de Mussolini exercia nas pessoas.
O modo como Fellini expõe de forma sincera o olhar jovem nesse filme,o torna um pré-teenmovie(tão difamado),repleto de cenas "grotescas" de descoberta sexual e afins,como ja tinha rabiscado em seu segundo filme "Os Boas-Vidas(1953)".

Situações inesperadas como os enormes seios da dona do armazem,a punheta coletiva no carro com direito a briga de quem pensa em quem,a culpa imposta pela igreja na hora da confissão,o discurso do padre sobre o "se tocar",as peraltices na escola(que remete à Jean Vigo),o amor impossivel do personagem gordo(com a sensacional cena da gigante armação de flores com o rosto falante do  Mussolini),....são situações que são extraidas da memoria do aprendizado existente no subconsiente do diretor,isso é palatavel,há um senso de experiência ali,mesmo que não estritamente ligado a vida real de Fellini,mas tão verdadeiros que podem ter nexo as vezes como as nossas proprias lembranças.


O fascismo com toda a sua promessa e capacidade de arregimentar partidarios é visto aqui como algo que está sendo presenciado e não julgado, como um acontecimento de uma época.Sabemos que foi duro pra todos,o pai de Tita sendo obrigado a tomar oleo de ricino até se cagar,o tiroteio maluco contra a torre onde esta um gramofone tocando o "Hino Socialista",a diferença dentro da propria familia,os jovens sendo instigados inocentemente a serem guerrilheiros fascistas e a figura do Dulce sendo idolatrada são vistas aqui como fruto da alienação politica compartilhada ironicamente somente com a  Igreja Católica.Alienações constituidas pelo proprio autor como os famosos "lapsos de consciência".

Se um dia Fellini foi cartoonista e essa qualidade de quadrinização e distribuições de personagens dentro de um quadro são vistas em quase todos seus filmes,em "Amarcord" isso se mostra mais latente devido a sublimação da utilização da cor e do estilo dinamico,sincopado e coerente de Ruggero Mastroiani e sua edição supervisionada(obviamente) pelo conceptor da obra.Em momentos como a corrida de habitantes locais pra poder avistar um cruzeiro belissimo em alto-mar,ou as sequencias de relatos como as do hotel,a visão de um pavão,o tio maluco de Tita em cima de uma arvore atirando pedra em todo mundo e gritando "Eu preciso de Mulher!",nota-se um ajuntamento de iluminação,figurino e ferramentas narrativas visuais com cada cor em seu detalhe emulando a qualidade onirica de um filme de animação.Assim como quando Fellini se utiliza somente da trilha de Nino Rota pra fazer os personagens dançarem com o vento,ou um caricato sanfoneiro cego começar a tocar pra finalizar o filme.

Enfim "Amarcord" foi a prova final da maestria tecnica de Fellini,e que era natural à ele,capaz de transformar qualquer cena do roteiro em belas e memoraveis imagens,o que contribui em absoluto para a força da sua mensagem.
Por tão complexo e grandioso que possa parecer o amalgama de  personagens do filme,o roteiro tem o cuidado de dar a cada um a atenção devida,sendo que ao final da projeção nos lembraremos de todos com a mesma familiaridade que vizinhos de cidades como Rimini possuiam entre si mesmo numa época perdida e nostalgica,testemunhas de fatos e acontecimentos históricos e pessoais que possam causar reviravoltas em seu cotidiano.
O termino desse filme revela um sentimento artistico de despedida de uma era,pois no começo dos anos 70 todos queriam um cinema diferente do artistico,que perdia seu apreço popular.Porêm "Amarcord",com seu doce humor e humanismo,deixou seu status de obra-prima não se perder nos furacões da superficialidade moderna.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"Roma" by Federico Fellini - 1972

Roma mais uma vez por Fellini,após "La Dolce Vita " e "Satyricon";após ser ele na decada de 40 um dos roteiristas a mudar o cenario do cinema com os filmes neo-realistas,mostrando ao mundo uma cidade corrompida com a destruição deixada no pós-guerra.
Em 1972 Fellini ja tinha se tornado dono de um estilo ha muito definido por completo.Em "Roma" a quantidade de situações sobrepostas como uma antologia de memorias dispersas reflete  ao mesmo tempo que a já comum viagem temporal sobre as raizes de sua personalidade se misturam à comparação denunciativa do presente com a nostalgia do passado.
As primeiras cenas revelam a capacidade de Fellini de catar no espaço suas memorias e traduzir em imagens exaltando o simbolo que mais força causa impacto na sua lembrança.Como o ensurdecedor papa no radio,ou os filmes com Garbo,ou os moleques de cabeça raspada aderindo à uma moda fascista.
A tentativa de não se prender às mesmas ferramentas estilisticas de filmes anteriores faz-se perceber num Fellini mais preocupado na construção de quadros perfeitamente construidos como uma pintura,mas movimentados por zoom-ins e travellings lentos como uma possivel aproximação do espectador com a imagem.
O jovem Fellini desembarca no trem e se torna passivo no restante de sua jornada pela capital.O que importa é o que acontece a sua volta.A Roma do passado prioriza a lembrança,personagens e situações.
Subitamente entra o mundo moderno na figura de auto-estradas,carrors,motos e o proprio diretor se conduzindo junto com sua trupe para uma filmagem de Roma.A metalinguagem não é a toa.A Roma do filme é de Fellini e cabe a ele mostrar com seu proprio dedo apontado a modernidade com fabricas pegando fogo,acidentes automibilisticos,prostitutas de estrada,monumentos em ruinas.É como se botassemos o nariz na janela do carro ,e com ele participarmos de uma tour pela desgraça.A Roma moderna sofre a intrusão direta das gruas e câmeras do diretor,com hippies sendo contestados,com jovens pressionando o diretor para uma abordagem mais politica-trabalhista no filme,estudantes apanhando da policia(como não poderia deixar de ter).
Inumeros elementos se contradizem poeticamente no espaço-tempo.A roma dos anos 30 é o teatro,o cinema, e a tranquilidade quebrada pela Guerra.A Roma moderna é o caos capitalista.
Os tidos intocaveis aqui são profanados pela critica audaz de Fellini mais uma vez ,como todo o inebriante desfile de moda eclesiastico,ja aqui um ensaio sublime de criatividade ao se criar um espetaculo alegorico-satirico.A visão temivel do papa a todo instante,a audacia pouco singela de Fellini,seu desprezo pela convenção religiosa seja de qualquer patamar se encontra enraizada em sua memoria,como se vê em seus filmes auto-analiticos.
Os ancestrais romanos vistos como o fruto de uma possivel existencia do inferno na Terra de "Satyricon",de frente à ameaça concreta(em todos os sentidos),se tornam afrescos apagados "pelo ar que vem de fora" diante daqueles que ousam corromper o subterraneo romano,aceitando o esquecimento com o temivel olhar de superioridade e condenação.Assim como as putas do escondido bordel da era fascista,na sua maioria putas fellinianas em sua vulgaridade e feiura,contrastando com o bordel visitado pelo seu alter-ego,e a comparação que o autor faz do sexo livre da decada de 70 com a dificuldade de consegui-lo no passado.

"Roma" é Fellini transformando lapsos memoriais em nostalgia imagetica,e modernidade num semi-realismo letargico.Um pré - "Amarcord" dentro de sua proposta auto-biografica mais conduzida pela vida como ela foi,do que a mente como ela é,no segundo caso como fez em sua inigualavel obra-prima "8 1/2".
Fellini foi um homem que comentava de uma forma ou de outra,as mudanças sociais de seu presente,mostrando a evolução e o onirico não como valvulas de escape,mas como uma leve observação ao alienatorio processo de divulgação de falsas ideologias e ao materialismo do consumismo capitalista.Um quebra-cabeças de pensamentos dispersos de forma poética e que juntos constroem uma historia em que a cidade é a principal atriz,e não Magnani que vira as costas à Fellini.
"Roma" é o retrato definitivo da visão de alguem que sempre a provocou.