quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Apertem os Cintos......O Piloto Sumiu!" by David Zucker,Jim Abrahams e Jerry Zucker - 1980

A Revista Mad nunca exerceu uma influência tão grande no mundo do cinema como em David Zucker,Jim Abrahams e Jerry Zucker e sua obra-prima "Apertem os Cintos,o Piloto Sumiu!".
A catarse anárquica de situações díspares e esquetes satiricos provindo de todas as partes e dialogos,possui uma influencia na posterior comedia norte-americana em outras grandes obras do coletivo ZAZ como "Corra que a Policia Vem Aí!"(1988),até os derivados caça-niqueis nauseantes como "Disaster Movie"(2008).
A Mad tinha o habito de satirizar em seus inteligentes quadrinhos os blockbusters de sucesso,com cada quadro apresentando uma piada em cima de um clichê ou anarquisando o conceito geral da obra tida como "séria".
Assim ZAZ fez aqui,com referências culturais diversas à filmes de catastrofe tão comuns na decada de 1970,misturadas com diversas outras citações que vão da excelente cena remetendo aos "Embalos de Sabado a Noite"(1977),à "Tubarão"(1975),como na cena introdutoria(filmes,aliás,que recentemente tinham derramado sua magica na tela grande).

Não há momento sem piada e não há ritmo igual ao trio de diretores assim como a facilidade em transformar em observações irônicas piadas pré-Farrelys,como o piloto pedófilo,a frase "Prefiro preto,como os meus homens" dita por uma criança,mais crianças doentes(na sensacional cena do violão),freiras,negros falando seu proprio "dialeto",religiões..dentro do cenario de um avião em queda após  o desmaio dos pilotos por terem comido peixe.

A genialidade do filme em não poupar o espectador em nenhum segundo de piadas visuais toma personalidade na aparição absolutamente fora do lugar comum de Stephen Stucker e seu personagem Johnny cujas aparições delirantes resumem conclusivamente o espirito non-sense da falta de linearidade e interrupção do humor de comic-con que o filme nos brinda atraves da linguagm da sétima arte.

Muitas das ferramentas estilisticas cinematograficas ja usadas a epoca a exaustão em prol da proliferação de clichês são revistas e chacotadas com competencia tecnica como zoom-ins melodramaticos,planos sequencias,trilha sonora previsivel(aqui dentro do mesmo espirito satirico do filme numa excelente composição de Elmer Bernstein)...assim como personagens e situações comuns no subconsciente pop,principalmente depois da chegada avassaladora da televisão.
O primor do profissionalismo dos envolvidos vão da seriedade forçada mas convincente de suas atuações,do sempre impassivel Leslie Nielsen num papel que lhe renderia quase que uma aura icônica em trabalhos posteriores,o heróico passional Robert Hays(numa dança travoltiana impecavel),a heroina Julie Hagerty(numa incrivel candice patética),assim como Lloyd Bridges cheirando cola e Robert Stack auto-ironizando o machismo idolatrado do herói salvador.
Só constata mais ainda o valor de obra surreal cômica fundamental do seculo XX as intervenções do imaginario sendo atropelado pelo real como nos lampejos de genialidade de Kareem Abdul-Jabbar sendo reconhecido pelo moleque assediado por Peter Graves(da serie original de "Missão Impossivel") e Ethel Merman como uma tenente enlouquecida que pensa ser Ethel Merman.
Um filme detalhistico,excelente com maconha,salgadinho e pé descalço no carpete....mas detalhistico.           .

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"O Veludo Azul" by David Lynch - 1986

Um dia David Lynch sonhou com um titulo: "Veludo Azul".
Um dia David Lynch imaginou uma orelha humana perdida no gramado.
Um dia David Lynch,quando criança,chorou ao ver uma mulher nua correndo pela rua desesperada.
Um dia David Lynch teve o obscuro desejo de espiar uma mulher de dentro de um armario e descobrir pistas de um crime.
Um dia ele ligou isso com a imagem da orelha e o titulo Veludo Azul atraves da canção homonima "Blue Velvet" de Bobby Vinter,retrato de uma doce geração.

Ironizar o "american way of life" foi o próximo passo depois do subestimado "Duna"(1984) e de ter feito sucesso cult com "Eraserhead" (1977),e figurado entre o mainstream com "O Homem Elefante" (1980).
As cercas brancas rodeadas por rosas vermelho-vivo,as crianças brincando no gramado,o bombeiro acenando para nós,e todo esse otimismo pregado pela alienação social norte-americana não é dessa vez invadido por um psicopata como em "A Sombra de uma Duvida"(1943) de Alfred Hitchcock ou "O Estranho"(1946) de Orson Welles;nem tão devastadoramente destroçada emocionalmente como nos posteriores filmes de Sam mendes como "Beleza Americana"(1999) e "Foi Apenas um Sonho"(2008).Aqui Lynch prefere defrontar o bem com o mal dentro do que seria a visão dele desses opostos pertencentes a qualquer ecossistema,do pré-fabricado ao natural.
Se a idealização da felicidade utópica é corrompida por um ataque(do pai de Jeffrie,causa da sua volta),e um ninho de insetos nojentos sendo usados como metáfora para o que se esconde por tras da fachada de um lindo gramado,assim como um cachorro brincando com o dono enquanto esse pode estar morrendo é o que se esconde por tras de um aparente amigo fiel;vemos que Lynch mostrará atraves de simbolismos o confronto entre esses dois pólos.
Através de uma orelha humana descoberta por Jeffrie no quintal,como que um portal ela nos levara junto com ele numa odisseia de aprendizado da vida como ela realmente é e pode ser:o mundo dos insetos.


Muito se diz da luta entre o bem e o mal nesse filme mas o que se vê é uma ironia sarcastica gritante do modo de se ver o mundo pela inocencia alienatoria.O casal de protagonistas são tidos como os heróis desde o inicio porêm são totalmente aquêm de qualquer conceito de violência,e logo Jeffrey se depara com sadomasoquismo,estupro ritualistico,fetiche,psicose,perigo imediato,assassinato,tudo em pouco tempo,na figura do psicotico inalador de nebulizador afrodisiaco delirante Frank Booth(Dennis Hopper que aceitou o papel dizendo que o personagem era ele?!)e a cantora Dorothy Vallens(Isabella Rossellini totalmente negligenciada fisica e moralmente,no bom sentido...).Impressionante como Lynch constrói a cena em que Jeffries conversa com Sandy no carro,os atores com uma interpretação propositalmente forçada,mostrando a patética visão de mundo deles,deparados com o mal:
- "Porque existe alguem como Frank?!"
Seguido por um bobo discurso de Sandy sobre um sonho onde pintarroxos representavam o amor.
Há de se notar a ironia que Lynch se reveste nesse sentido(e que resume sua mensagem),até no epilogo do pintarroxo com um inseto no bico com mais uma metáfora simbólica do bem vencendo o mal e frases como "Que mundo estranho esse que vivemos!".


Um sonho sim é o que parece ser o filme a todo momento,com Frank levando Jeffrey a um passeio de descoberta onde estranhos personagens vão surgindo de forma quase que Felliniana(mesmo que Lynch tenha inventado uma linguagem propria,a influencia de Fellini e Kubrick é obvia).
Dean Stockwell surge brilhantemente como uma bicha psicotica e misteriosa afetada,assim como Roy Orbinson embala um espancamento após a primeira reação a violencia de Jeffrey.
O misterio policial é apenas um mote referencial ao noir e forma de conduzir o que importa,que é o modo comico-ironico-perversivo com que Lynch retrata a jornada de pessoas pertencentes à um conceito harmônico pateticamente publicitario,para o underground do mal escondido em qualquer um de nós.

domingo, 30 de outubro de 2011

"Ginger e Fred" by Federico Fellini -1986

A televisão surgiu como um furacão pós-moderno perverso e engolidor da verdadeira arte no seculo 20.Suas artimanhas publicitarias e seu entretenimento vazio,forçado e alienatório foi uma das principais causas da decadencia cultural moderna.Nada mais satisfatório do que ver Fellini em seu ultimo grande filme agir com um sarcasmo cortante e engraçadissimo contra essa midia tão despudorada,lidando com temas pessoais seus como a propria "decadência", sua velhice e o medo do futuro.

Amelia(Giulietta Masina) e Pippo(Marcello Mastroianni) são dois veteranos artistas que costumavam imitar Ginger Rogers e Fred Astaire 40 anos antes e decidem se reencontrar depois de um convite feito por um programa de televisão.O mundo se encontra diferente,o aparelho televisor surge como um imã cerebral.Ninguem consegue largar os olhos dela.
O humor é a ferramenta de Fellini.Quando Amelia desembarca em Roma o maremoto cultural moderno ja a engole na figura de funcionarios da televisão,sósias dos mais variados artistas,figuras excentricas como um travesti,um velho heroi de guerra...
Amelia (Masina tão naturalmente perfeita e auto-referenciativa como em "Julieta dos Espiritos"(1965)) se encontra apavorada com todo aquele assalto de perversão e superficialidade,onde as pessoas não conversam,apenas mandam..;e numa Roma perigosa como nunca.
A direção de Fellini  por mais convencional que seja,nunca é convencional.O modo como ele distribui esse bando de personagens emergentes de um novo mundo é com a mesma quadrinização anterior.A musica de Nino Rota não existe mais ali,mas parece que Nicola Piovani(oscarizado por "A Vida é Bela")segue a mesma linha picaresca,visto que a correspondencia psicologica da musica-Fellini ainda é a mesma.

Mas o que carrega realmente o filme é Marcello Mastroianni em uma puta interpretação.O seu Pippo é um verdadeiro artista desbocado,cinico,debochado e frustrado,mesmo que procure não não deixar transparecer em meio a piadas sarcasticas.O ator se joga em seu personagem com sua voz catarrenta e constantes tosses em meio à resmungos e atitudes de escarnio.Um divertido personagem que carrega Amelia pela mão em sua erratica decisão de voltar ao passado ou não,em um programa de televisão de espetaculos passageiros e superfluos(que tem como apresentador Franco Frabrizi,ator recorrente nos primeiros filmes de Fellini como "Os Boas-Vidas" e "A Trapaça").

Enfim o final se mostra ao mesmo tempo que lindo e emocionante,uma lapide na sepultura de um artista.O rock'n roll ja tinha dominado,a televisão extrapolado,sacos de lixo espalhados por toda a cidade.Fellini se despede com sua ultima visão satirica de um futuro incerto...

"E la Nave Va" by Federico Fellini - 1983

Em 1983 Fellini ja tinha se tornado um marco historico no mundo do cinema.Seus filmes sempre satirizavam a sociedade e o ser humano com sua visão particular e extravagante.O termo "Felliniano" pode ser encontrado até em dicionarios.
Porem em seus derradeiros filmes dos anos 80 ele ja parecia se preocupar em abrir mão de muito de suas caracteristicas estilisticas antigas para equilibrar sua tecnica e sua inventividade narrativa  com arroubos artisticos moderados.Sempre exaltando a visão,a mensagem, e a arte em si.

Aqui Fellini conta uma historia que se passa quase inteiramente num grande navio fretado por principes,artistas de teatro,dançarinas,cantores de ópera,condes,barões,grão-duques,paranormais,...com destino na ilha de Erimo onde(como pedido em seu testamento),as cinzas da ilustre e gloriosa cantora Edmea Tetua devem ser espalhadas.
A chegada dos passageiros no porto na cena introdutoria é apresentada por Fellini como um daqueles documentarios mudos do inicio do seculo passado em uma clara metafora fílmica.Logo surge o personagem de Orlando (interpretado pelo ingles Freddie Jones),um jornalista intrometido que será nosso guia em meios aos caricatos personagens e situações dentro do navio,o famoso personagem bufo de Fellini,o mestre de cerimonias.Orlando conversa com nós olhando diretamente pra câmera,sujeito a gags comicas forçadas que quase me decepcionaram nos primeiros 15 minutos.
A musica e o som são tratados de forma quase metafisica nessa obra,onde experimentos aparentemente casuais permite uma interação psiquica com quem assiste.A cor do som da voz,a orquestra de copos nivelados com agua,a galinha hipnotizada.São situações expostas como uma curiosidade que esta sendo partilhada diretamente com nos.

A ironia vem do retrato satirico da belle époque do pre-guerra em meio a personagens quase que todos excentricos em seus comportamentos como o barão  sendo constantemente traido pela sedenta baronesa,o gordo grão-duque e sua prima cega(interpretada por Pina Baush,famosa bailarina artistica daquele numero em que ela sai atropelando as cadeira que está em "Fale Com Ela" do Almodóvar),os cantores de ópera(grandiosos na cena em que cantam pros operarios do navio em meio aos barulhos da caldeira e trabalhadores numa grande alegoria musical).

Na segunda parte o filme dá uma reviravolta ritmica genial com a subida à bordo de um bando de camponeses pobres turcos fugidos do exercito do Império Austro-Húngaro logo após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e o inicio da primeira guerra.
Fellini se veste de uma sutil denuncia e ironia à la Buñuel mostrando o contraste desses dois mundos.A cena em que eles comem enquanto os camponeses famintos ficam assistindo é brilhante,alêm de nos apontar quais são as reações de cada personagem...mesmo que depois das cortinas serem fechadas a unica que se prontifica a alimenta-los é a ninfomaniaca baronesa,logo encontrando um oasis do seus sonhos no rosto rude dos turcos.
 No apoteótico final em meio a vozes,tiros,mares de lona,e cenarios de estudio a camera se distancia no climax da ação pra mostrar todo o aparato do set de filmagem em um longo plano sequencia que fecha num close da camera principal do diretor.
Fica aquela sensação de vazio e pretensão,diferente de outros inumeros filmes do diretor,mas mesmo assim uma bela experiencia de poesia,humanismo e tour de force do Fellini.
Alem de ter a belissima e inebriante "Clair de Lune" de Debussy e a simbolica presença de um rinoceronte fétido e doente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Amarcord" by Federico Fellini - 1973

"Amarcord" é "Me Recordo" se traduzido do dialeto de Rimini,cidade natal do diretor,pro português.A lembrança protagoniza o filme;mesmo que Fellini insista em dizer que não tenha caráter autobiográfico,suas recordações são distribuidas em vinhetas dispersas,porêm ligadas à um nexo rigoroso,mais rigoroso do que muitos dos filmes dele.
 
Não se concentra em nenhum personagem em especial,porêm numa gama de acontecimentos dramaticos,historicos  e comuns em sua magica técnica artistica.O filme talvez se concentre mais em Titta(inspirado num amigo se infancia de Fellini),um endiabrado rapaz que acaba sendo o espelho da adolescência,ou os olhos do proprio  diretor à época.
Se Fellini tinha um dom,era o de filmar tudo como se fosse uma nova descoberta,o que casa com a visão que os jovens tem da puberdade,da masturbação,da bunda da mais gostosa da cidade,da ninfomaniaca que ronda a cidade como um zumbi sedento( a ninfomaniaca era um personagem recorrente de Fellini vide "Roma"(1972) ou "Satyricon"(1969)),das incriveis corridas de carro("Olhem,eu achei uma orelha!!"),dos filmes de Gary Cooper,da escola,...e consequentemente da alienação que a Igreja e o Fascismo de Mussolini exercia nas pessoas.
O modo como Fellini expõe de forma sincera o olhar jovem nesse filme,o torna um pré-teenmovie(tão difamado),repleto de cenas "grotescas" de descoberta sexual e afins,como ja tinha rabiscado em seu segundo filme "Os Boas-Vidas(1953)".

Situações inesperadas como os enormes seios da dona do armazem,a punheta coletiva no carro com direito a briga de quem pensa em quem,a culpa imposta pela igreja na hora da confissão,o discurso do padre sobre o "se tocar",as peraltices na escola(que remete à Jean Vigo),o amor impossivel do personagem gordo(com a sensacional cena da gigante armação de flores com o rosto falante do  Mussolini),....são situações que são extraidas da memoria do aprendizado existente no subconsiente do diretor,isso é palatavel,há um senso de experiência ali,mesmo que não estritamente ligado a vida real de Fellini,mas tão verdadeiros que podem ter nexo as vezes como as nossas proprias lembranças.


O fascismo com toda a sua promessa e capacidade de arregimentar partidarios é visto aqui como algo que está sendo presenciado e não julgado, como um acontecimento de uma época.Sabemos que foi duro pra todos,o pai de Tita sendo obrigado a tomar oleo de ricino até se cagar,o tiroteio maluco contra a torre onde esta um gramofone tocando o "Hino Socialista",a diferença dentro da propria familia,os jovens sendo instigados inocentemente a serem guerrilheiros fascistas e a figura do Dulce sendo idolatrada são vistas aqui como fruto da alienação politica compartilhada ironicamente somente com a  Igreja Católica.Alienações constituidas pelo proprio autor como os famosos "lapsos de consciência".

Se um dia Fellini foi cartoonista e essa qualidade de quadrinização e distribuições de personagens dentro de um quadro são vistas em quase todos seus filmes,em "Amarcord" isso se mostra mais latente devido a sublimação da utilização da cor e do estilo dinamico,sincopado e coerente de Ruggero Mastroiani e sua edição supervisionada(obviamente) pelo conceptor da obra.Em momentos como a corrida de habitantes locais pra poder avistar um cruzeiro belissimo em alto-mar,ou as sequencias de relatos como as do hotel,a visão de um pavão,o tio maluco de Tita em cima de uma arvore atirando pedra em todo mundo e gritando "Eu preciso de Mulher!",nota-se um ajuntamento de iluminação,figurino e ferramentas narrativas visuais com cada cor em seu detalhe emulando a qualidade onirica de um filme de animação.Assim como quando Fellini se utiliza somente da trilha de Nino Rota pra fazer os personagens dançarem com o vento,ou um caricato sanfoneiro cego começar a tocar pra finalizar o filme.

Enfim "Amarcord" foi a prova final da maestria tecnica de Fellini,e que era natural à ele,capaz de transformar qualquer cena do roteiro em belas e memoraveis imagens,o que contribui em absoluto para a força da sua mensagem.
Por tão complexo e grandioso que possa parecer o amalgama de  personagens do filme,o roteiro tem o cuidado de dar a cada um a atenção devida,sendo que ao final da projeção nos lembraremos de todos com a mesma familiaridade que vizinhos de cidades como Rimini possuiam entre si mesmo numa época perdida e nostalgica,testemunhas de fatos e acontecimentos históricos e pessoais que possam causar reviravoltas em seu cotidiano.
O termino desse filme revela um sentimento artistico de despedida de uma era,pois no começo dos anos 70 todos queriam um cinema diferente do artistico,que perdia seu apreço popular.Porêm "Amarcord",com seu doce humor e humanismo,deixou seu status de obra-prima não se perder nos furacões da superficialidade moderna.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"Roma" by Federico Fellini - 1972

Roma mais uma vez por Fellini,após "La Dolce Vita " e "Satyricon";após ser ele na decada de 40 um dos roteiristas a mudar o cenario do cinema com os filmes neo-realistas,mostrando ao mundo uma cidade corrompida com a destruição deixada no pós-guerra.
Em 1972 Fellini ja tinha se tornado dono de um estilo ha muito definido por completo.Em "Roma" a quantidade de situações sobrepostas como uma antologia de memorias dispersas reflete  ao mesmo tempo que a já comum viagem temporal sobre as raizes de sua personalidade se misturam à comparação denunciativa do presente com a nostalgia do passado.
As primeiras cenas revelam a capacidade de Fellini de catar no espaço suas memorias e traduzir em imagens exaltando o simbolo que mais força causa impacto na sua lembrança.Como o ensurdecedor papa no radio,ou os filmes com Garbo,ou os moleques de cabeça raspada aderindo à uma moda fascista.
A tentativa de não se prender às mesmas ferramentas estilisticas de filmes anteriores faz-se perceber num Fellini mais preocupado na construção de quadros perfeitamente construidos como uma pintura,mas movimentados por zoom-ins e travellings lentos como uma possivel aproximação do espectador com a imagem.
O jovem Fellini desembarca no trem e se torna passivo no restante de sua jornada pela capital.O que importa é o que acontece a sua volta.A Roma do passado prioriza a lembrança,personagens e situações.
Subitamente entra o mundo moderno na figura de auto-estradas,carrors,motos e o proprio diretor se conduzindo junto com sua trupe para uma filmagem de Roma.A metalinguagem não é a toa.A Roma do filme é de Fellini e cabe a ele mostrar com seu proprio dedo apontado a modernidade com fabricas pegando fogo,acidentes automibilisticos,prostitutas de estrada,monumentos em ruinas.É como se botassemos o nariz na janela do carro ,e com ele participarmos de uma tour pela desgraça.A Roma moderna sofre a intrusão direta das gruas e câmeras do diretor,com hippies sendo contestados,com jovens pressionando o diretor para uma abordagem mais politica-trabalhista no filme,estudantes apanhando da policia(como não poderia deixar de ter).
Inumeros elementos se contradizem poeticamente no espaço-tempo.A roma dos anos 30 é o teatro,o cinema, e a tranquilidade quebrada pela Guerra.A Roma moderna é o caos capitalista.
Os tidos intocaveis aqui são profanados pela critica audaz de Fellini mais uma vez ,como todo o inebriante desfile de moda eclesiastico,ja aqui um ensaio sublime de criatividade ao se criar um espetaculo alegorico-satirico.A visão temivel do papa a todo instante,a audacia pouco singela de Fellini,seu desprezo pela convenção religiosa seja de qualquer patamar se encontra enraizada em sua memoria,como se vê em seus filmes auto-analiticos.
Os ancestrais romanos vistos como o fruto de uma possivel existencia do inferno na Terra de "Satyricon",de frente à ameaça concreta(em todos os sentidos),se tornam afrescos apagados "pelo ar que vem de fora" diante daqueles que ousam corromper o subterraneo romano,aceitando o esquecimento com o temivel olhar de superioridade e condenação.Assim como as putas do escondido bordel da era fascista,na sua maioria putas fellinianas em sua vulgaridade e feiura,contrastando com o bordel visitado pelo seu alter-ego,e a comparação que o autor faz do sexo livre da decada de 70 com a dificuldade de consegui-lo no passado.

"Roma" é Fellini transformando lapsos memoriais em nostalgia imagetica,e modernidade num semi-realismo letargico.Um pré - "Amarcord" dentro de sua proposta auto-biografica mais conduzida pela vida como ela foi,do que a mente como ela é,no segundo caso como fez em sua inigualavel obra-prima "8 1/2".
Fellini foi um homem que comentava de uma forma ou de outra,as mudanças sociais de seu presente,mostrando a evolução e o onirico não como valvulas de escape,mas como uma leve observação ao alienatorio processo de divulgação de falsas ideologias e ao materialismo do consumismo capitalista.Um quebra-cabeças de pensamentos dispersos de forma poética e que juntos constroem uma historia em que a cidade é a principal atriz,e não Magnani que vira as costas à Fellini.
"Roma" é o retrato definitivo da visão de alguem que sempre a provocou.

domingo, 23 de outubro de 2011

"Satyricon" by Federico Fellini - 1969

"Eu estou examinando a Roma Antiga como se essa fosse um documentario sobre os habitos e costumes dos marcianos."
Fellini.



Realmente sua visão sobre a Roma Antiga não só revela uma caracterização picaresca e exotica unica,como uma idealização de caos infernal decorrente da liberdade perversa dos contemporaneos à Nero.Fellini sempre se utilizou da satira e ironia pra descrever aspectos da sociedade moderna.O escritor Petronius tambem se utilizou dessa mesma forma de linguagem pra retratar aspectos da sociedade de sua época em seu romance "Satyricon",criando em sua literatura um desenvolvimento de personagens e alusões sobre esse periodo historico,dificeis de se achar na literatura antiga.
Fellini releu Petronius durante a recuperação de uma doença e se encantou com o aspecto fragmentado da narrativa(dado que varios pedaços do manuscrito se perderam com o tempo),o que casava diretamente com sua visão onirica e divagante.
O chamado Verão do Amor,o Woodstock,a libertação pós-guerras,a revolução sexual e as diversas manifestações artisticas europeias que exploravam a falta de limite expressivo que uma obra pode ter,casam diretamente com o homossexualismo dos protagonistas(como a maioria dos personagens de romances classicos da Antiguidade,sua vontade não possui limites),com o erotismo pedofilo,com a depravação e caldo de loucuras com os quais Fellini faz paralelo com Petronius.
O filme de Fellini brinca com algumas questões.
Como seria o entretenimento naquela época?
Como seria o amor naquela época?
Como seria a riqueza naquela época?
Como seria a maldade naquela época?
Como seria a arte naquela época?
E constroi uma resposta a cada uma dessas questões subentendendo paralelos com a civilização atual.
Seus personagens surgem rasteiramente,como sobreviventes cada um a seu modo de uma sociedade sem lei e moral.As interligadas e desconexas aventuras de Eucolpious nos dão a sensação de ocorrencias ilogicas como acontece em produções dispares como "Evil Dead 2" ou em alguns episodios de "Twilight Zone".A intenção de Fellini é causar estranheza,é fazer você querer entrar num novo mundo.Não há a simbologia junguiana ou de teorias exotericas,mas uma visão propria de uma era.
O conceito de produção artistica tem seu auge aqui,com Fellini  e seus colaboradores construindo sets extensos e contratando freaks e mais uma quantidade incrivel de figurantes que são colocados de forma importante quadro-a-qaudro.Nesse filme o diretor italiano superlativiza o papel de figurante.Notem como alguns olham estranhamente pra camera como estranhassem nossa intrusão.

A excelente edição do mestre Rugero Mastroianni distribiu essas apariçoes unicas de forma a aumentar o devaneio sensorial de quem esta presenciando essas cenas.Como na cena do Bordel,onde a camera passa de porta em porta apresentando todos os tipos de figuras inimaginaveis em uma ilustre coreografia de atores.Algo jamais visto.Como o banquete do famoso personagem Trimalchio aonde se desenrola uma quantidade unica de situações que dançam entre o improviso e o ensaiado.Com a originalidade indo do figurino a trilha sonora.
Nino Rota aqui faz o mesmo que Bernard Herrman em "Os Passaros" de Hitchcock passando de compositor principal a consultor de compositores experimentais(o produtor de Charles Mingus,Ilhan Mimaroglu)  e  eletronicos(Tock Dockstader cujo album "Eight Eletronic Pieces"  foi utilizado)contratando-os para dar ao filme um aparencia cosmica-espacial.Com sons pinkfloydianos da fase Pompeii misturados com climas sci-fi.
Apesar de tentar não ser um filme auto-referenciativo,muito das problematicas de Fellini se encontram aqui,como o dilema artistico de Emolpious e a anti-valorização da fé.Mas acima de tudo a sexualidade masculina e o subconsciente,com Encolpious(um estudante aqui em vez de um gladiador no livro)lutando contra o minotauro numa metafora de auto-busca numa sequencia inexistente no livro e que  remete a lenda de Teseu,tendo como obejtivo mor em sua peregrinação a cura de sua impotencia sexual.
Enfim "Satyricon" não só é um dos filmes mais originais e criativos da historia do cinema,como é uma daquelas obras  a serem pegadas constatemente na biblioteca da historia da evolução da humanidade e de sua cultura social.Um marco.Um trabalho detalhistico e perfeccionista onde cada elemento,por menor que seja,é colocado contra o exagero e à favor da proposta idealizada pelo auteur.Um dos fimes de Fellini mais Fellini de todos,visto de forma mais abrangente agora,depois de 40 e poucos anos,onde podemos nos contextualizar historicamentea e analisa-lo de modo geral.
Talvez o retrato do amor e da arte em uma sociedade ainda em desenvolvimento moral com aparencias pos-apocalipticas só encontre paralelo em "Andrei Rublev" de Tarkovsky que foi lançado coincidentemente no mesmo ano.E a figura dantesca do protagonista felliniano esta no inferno apropriado dessa vez,na mesma Roma ironizada por ele em "A Doce Vida".
A magnifica cena final traduz de forma magica e misteriosa,a reticencia narrativa do passado.