Em 1999 esse foi o ápice da originalidade cinematografica.
Um filme sobe um titereiro que descobre o portal para a mente de John Malkovich.
Quem é John Malkovich?
O primeiro roteiro de Charlie Kaufman,uma das mentes mais brilhantes a surgirem em meio ao repetitivo meio cinematografico norte-americano do final da decada de 90.
Um roteiro passado pra tras por varios,uma historia absurda,e de pouco apelo comercial.
Chegou nas mãos de Copolla e esse passou pro seu genro Spike Jonze,um diretor de videoclipes.
Videoclipes?!
Sim,o que seria mais apropriado senão uma cria do mundo surreal da MTV?
Não se mostrou apenas apropriado,mas surpreendente.
Seria a escolha certa pra conseguir fazer alguem cair do nada na auto-estrada de New Orleans,filmar o ponto de vista de um chimpanzé tendo que salvar seus parentes da captura de caçadores,ou fazer varias personas malkovichianas se esbarrarrem num restaurante...mas o mais incrivel foi a habilidade Jonze de manter o pé na realidade em uma sobriedade que equilibra todo o aspecto surreal da trama numa sensação de veracidade e realismo,como se aquilo pudesse realmente acontecer.
Se o roteiro de Kaufman é responsavel pela parte teórica e espiritual do desenvolvimento de seus personagens,Jonze é responsavel em dar vida à esses personagens dirigindo seus atores de forma tão magistral a ponto de fazer alguns sairem de sua costumeira persona cinematografica.
Como Cameron Diaz,aqui toda relaxada e de cabelo desgrenhado;assim como uma atuação impressionante de John Cusack com seu jeito largado passando a sensação de fracasso e frustração suficiente para que haja uma identificação profunda com seu aspecto deploravel de artista sem apoio estrutural.
John Malkovich acaba sendo um personagem interessante por si só com a atuação deste indo da comica auto-referencia inicial até o brilhantismo de quando é manipulado pr Craig.
As metaforas visuais são usadas em prol de questões referentes ao desejo obscuro de se estar na pele de alguêm,de se manipular uma pessoa a beneficio proprio.
A cena introdutoria do filme ja é uma mini obra-de-arte,com a marionete de Craig dançando a dança do desespero em movimentos que refletem(como na cena em que o boneco olha pra cima em direção ao seu manipulador)toda a alma conturbada de Craig.
E por mais que passe os anos o frescor ainda continua.
E se até hoje a falta de originalidade é um grande pecado recorrente no mundo artistico do cinema norte-americano isso não se deve nem a Jonze e nem a Kaufman,que juntos meio que inauguraram uma série de filmes metalinguisticos e metaforicos envolvendo a mente e as emoções humanas.
"Quero Ser John Malkovich" é um filme que te manipula como uma marionete do começo ao fim.
domingo, 6 de novembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
"A Festa de Babette" by Gabriel Axel - 1987
A pessoa de Isac Dinesen,escritora do livro no qual o filme é baseado,está fortemente ligada à adaptação de Axel,visto a presença constante de uma narradora e o caráter estritamente literario do roteiro.Axel conduz a historia com a complacencia do preparo ao esturpor final de um Dreyer de "Ordet"(1955),uma das grandes contribuições dinamarquesas para o cinema.A mudança do vilarejo com casas coloridas da Noruega do livro para um cinzento amontoado de tijolos num constante céu nublado da Jutland aumenta o exilo,a solidão e a alienação a qual seus habitantes vivem.
A descrição inicial das irmãs após um plano aberto desse minusculo vilarejo ja fortalece a situação de austeridade moral quando seus nomes são apresentados:Martine(batizada após Martinho Lutero) e Phillipa(batizada após Philip Melanchton).
Aquela comunidade aparentemene soturna é embalada pela esperança da fé em reuniões tristes compostas por gente velha e feia.
De repente a aparencia selvagem de Setephane Audran e sua Babette(escolha sugerida por Chabrol,seu ex-marido).
A sua origem em meio a um ecossistema tão estranho é explicada por um brilhante flashback que mostra as duas irmãs no auge da beleza dinamarquesa onde eram adoradas por jovens,e o destino que elas tiveram na vida de um general e um cantor de ópera.
A presença constante do pai ,tido como um lider daquela sociedade,reprime qualquer possibilidade de relacionamento e é claro que elas querem sexo.
Um jovem soldado sueco foge do estilo de vida levado por elas mas nunca esquece de Martine.
Nota-se o lado imparcial e levemente ironico que Axel filma os diversos personagens estereotipados,do pai pastor às exageradas continencias do soldado,ironia que traz ao filme um grande toque comico até a libertação final.
Mas a aparição mais fulgurante artisticamente é de um tenor que se enamora da voz de Philippa na igreja e pede a seu pai que lhe conceda dar-lhe lições de canto.Essas lições representam o tronco estutural de um dos temas abordados,a arte;alêm da vida e da religião.As aulas de canto são cenas de um sublime apuro artistico,o que releva condição do cinema sueco e dinamarques como obras absolutamente sensitivas.Nós entendemos a paixão do tenor e do soldado,as garotas dinamarquesas são lindas;e assim como entendemos a paixão acabamos por entender a repressão sexual e religiosa na qual elas vivem sem perceber.
Ambos o tenor e o soldado vão ter as suas vidas e 35 anos depois,após a morte de seu pai(que se tornou praticamente o messias daquela sociedade)elas recebem em casa Babette,fugida da França,a pedido do tambem envelhecido tenor.
Babette se mostra servil por 14 anos até o principal mote do filme acontecer:Babette ganhar 10.000 francos na loteria.
Martina e Philipa se tornaram herdeiras de seu pai no comando religioso da comunidade,ambas com atitudes quase iguais as de um anjo.
Só o fato de Babette ser uma mulher fugida da França,cujo marido e filho foram assassinados,ja demonstra não ser ela uma pessoa qualquer.O deslumbre final fica por conta de um banquete de despedida oferecido por Babette antes de ela retornar a França após ter ganho o prêmio.Depos de desembarcar codornas,tartarugas e uma poção de especiarias e bebidas caras pra deslumbre dos austeros moradores serventes da humildade daquele minusculo vilarejo,o assombro toma conta das irmãs que profetizam o ato final e diabolico de uma pessoa que veio não se sabe porque ou daonde.
Se todo o retrato da fé e religião é visto como opressor e anti artistico,a surpresa da descoberta de quem é Babette se mostra na tão falada festa dada aos discipulos do falecido pastor na data de seu aniversario de morte.E é deslumbrante ver todos aqueles velhos irritadiços que apena mencionam a Biblia descobrir a cada minuto da festa o quanto a verdadeira libertação se encontra na paixão,no amor e na boa comida.
A cena do banquete é uma aula de interpretação e simbolismo.Com a presença do soldado agora coronel,antigo amor de Martine e suas observações auspiciosas e experientes sobre codornas no sarcofago e uma cozinheira magica do Cafe Anglais.Depois do café com licor,o beijo na boca e o excelente céu estrelado em contraste com os telhados pitorescos se reunem em prol da celebração da vida como ela dever ser,com o fogo do vinho fazendo antigos conhecidos cantarem de mãos dadas em volta do poço.
Um dos mais belos filmes dinamarqueses desde Dreyer(vejam o modo como Axel nos traduz a fé nos olhos de uma discipula procurando Deus no firmamento),"A Festa de Babette" traz no final uma daquelas epifanias otimistas que poucas obras conseguem trazer.
Mesmo que a realidade daquelas pessoas sejam diferente das nossas,sabemos que temas como fé,arte e vida são universais.A grande mensagem é,não se deixe levar pela alienação hipocrita,o grande viver está no viver sem medo,muito menos medo de Deus.O verdadeiro amor é que salva.
Eu não sei se acredito em Deus,mas acredito no cinema dinamarques.
A descrição inicial das irmãs após um plano aberto desse minusculo vilarejo ja fortalece a situação de austeridade moral quando seus nomes são apresentados:Martine(batizada após Martinho Lutero) e Phillipa(batizada após Philip Melanchton).
Aquela comunidade aparentemene soturna é embalada pela esperança da fé em reuniões tristes compostas por gente velha e feia.
De repente a aparencia selvagem de Setephane Audran e sua Babette(escolha sugerida por Chabrol,seu ex-marido).
A sua origem em meio a um ecossistema tão estranho é explicada por um brilhante flashback que mostra as duas irmãs no auge da beleza dinamarquesa onde eram adoradas por jovens,e o destino que elas tiveram na vida de um general e um cantor de ópera.
A presença constante do pai ,tido como um lider daquela sociedade,reprime qualquer possibilidade de relacionamento e é claro que elas querem sexo.
Um jovem soldado sueco foge do estilo de vida levado por elas mas nunca esquece de Martine.
Nota-se o lado imparcial e levemente ironico que Axel filma os diversos personagens estereotipados,do pai pastor às exageradas continencias do soldado,ironia que traz ao filme um grande toque comico até a libertação final.
Mas a aparição mais fulgurante artisticamente é de um tenor que se enamora da voz de Philippa na igreja e pede a seu pai que lhe conceda dar-lhe lições de canto.Essas lições representam o tronco estutural de um dos temas abordados,a arte;alêm da vida e da religião.As aulas de canto são cenas de um sublime apuro artistico,o que releva condição do cinema sueco e dinamarques como obras absolutamente sensitivas.Nós entendemos a paixão do tenor e do soldado,as garotas dinamarquesas são lindas;e assim como entendemos a paixão acabamos por entender a repressão sexual e religiosa na qual elas vivem sem perceber.
Ambos o tenor e o soldado vão ter as suas vidas e 35 anos depois,após a morte de seu pai(que se tornou praticamente o messias daquela sociedade)elas recebem em casa Babette,fugida da França,a pedido do tambem envelhecido tenor.
Babette se mostra servil por 14 anos até o principal mote do filme acontecer:Babette ganhar 10.000 francos na loteria.
Martina e Philipa se tornaram herdeiras de seu pai no comando religioso da comunidade,ambas com atitudes quase iguais as de um anjo.
Só o fato de Babette ser uma mulher fugida da França,cujo marido e filho foram assassinados,ja demonstra não ser ela uma pessoa qualquer.O deslumbre final fica por conta de um banquete de despedida oferecido por Babette antes de ela retornar a França após ter ganho o prêmio.Depos de desembarcar codornas,tartarugas e uma poção de especiarias e bebidas caras pra deslumbre dos austeros moradores serventes da humildade daquele minusculo vilarejo,o assombro toma conta das irmãs que profetizam o ato final e diabolico de uma pessoa que veio não se sabe porque ou daonde.
Se todo o retrato da fé e religião é visto como opressor e anti artistico,a surpresa da descoberta de quem é Babette se mostra na tão falada festa dada aos discipulos do falecido pastor na data de seu aniversario de morte.E é deslumbrante ver todos aqueles velhos irritadiços que apena mencionam a Biblia descobrir a cada minuto da festa o quanto a verdadeira libertação se encontra na paixão,no amor e na boa comida.
A cena do banquete é uma aula de interpretação e simbolismo.Com a presença do soldado agora coronel,antigo amor de Martine e suas observações auspiciosas e experientes sobre codornas no sarcofago e uma cozinheira magica do Cafe Anglais.Depois do café com licor,o beijo na boca e o excelente céu estrelado em contraste com os telhados pitorescos se reunem em prol da celebração da vida como ela dever ser,com o fogo do vinho fazendo antigos conhecidos cantarem de mãos dadas em volta do poço.
Um dos mais belos filmes dinamarqueses desde Dreyer(vejam o modo como Axel nos traduz a fé nos olhos de uma discipula procurando Deus no firmamento),"A Festa de Babette" traz no final uma daquelas epifanias otimistas que poucas obras conseguem trazer.
Mesmo que a realidade daquelas pessoas sejam diferente das nossas,sabemos que temas como fé,arte e vida são universais.A grande mensagem é,não se deixe levar pela alienação hipocrita,o grande viver está no viver sem medo,muito menos medo de Deus.O verdadeiro amor é que salva.
Eu não sei se acredito em Deus,mas acredito no cinema dinamarques.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
"Tampopo-Os Brutos Tambêm Comem Spaghetti" by Juzo Itami - 1985
Juzo Itami é considerado por muitos o maior diretor artista japonês desde Akira Kurosawa.Um titulo brilhante visto que depois de atuar em filmes diversos ele começou a dirigir aos 50 anos em 1984 com o filme "Ososhiki".
Mas ao analisarmos essa brilhante obra que foi o seu segundo filme,percebe-se o uso de diversas vertentes estilisticas ocidentais em contraste com qualquer rigor oriental contemplativo;realmente sua maestria tecnica de contar uma historia com a camera e manter uma narrativa coesa com o uso diverso das mais variadas ferramentas cinematograficas é o mais proximo de um Kurosawa que o Japão se propos a oferecer.
A influencia de Itami é o cinema,e sua possibilidade de contar uma verdadeira historia com as mais variadas emoções.Se o "Tampopo" é considerado um western-spaghetti por reverenciar diversos recursos estilisticos de Leone ou conter as qualidades narrativas de tal gênero,surge a pergunta:
Da onde vem a origem da influencia?
Se os filmes de Leone eram totalmente tributos italianos ao um genero americano inspirados pelos filmes de samurai de Kurosawa?
"Tampopo" é a prova viva de que as influencias artisticas transcorrem como ondas no inconsciente coletivo.Um filme gastronomico que usa o talharim como mote satirico do diretor em sua visão dos costumes da sociedade japonesa.O talharim e sua mega-popularidade é o cerne da historia central em que Tampopo(a excelente atriz e mulher do diretor Nobuko Miamoto) é dona de um restaurante cujo talharim é feito com total despreparo.
Com a chegada de Goro(Tsutomo Yamazaki,um forasteiro a la Clint que em vez de chegar a cavalo chega num caminhão)e seu ajudante Gun(um jovem Ken Watanabe),sua vida passará por uma transformação evolutiva dentro da arte de se preparar um noodles.Por cuidar de Goro depois dele defender ela numa briga perdida,ele aceita a dificil decisão de ajuda-la a achar a receita perfeita pro seu talharime pro visual de seu restaurante(numa especie de Gordon Ramsay japones),encontrando nessa curiosa jornada diversos personagens pitorescos,ironicos e profundos.
O filme é vendido como uma comédia,mas não é uma comedia de apelo comico-visual,o humor vem do modo sagaz e ironico do diretor em relação aos seus conterraneos(de gangsters da yakuza à mendigos) e ao modo como a comida e seus prazeres podem ser inseridos dentro de uma sociedade.
A introdução do filme ja é por si só criativa,com uma sala de cinema onde um gangster de terno branco começa a conversar com a camera perguntando "O que vocês estão comendo agora?".
De repente as luzes se apagam e a historia de Goro e Tampopo se desenrola na tela grande.
Essa metalinguagem de cinema dentro do cinema e arte dentro da arte continua logo apos os creditos iniciais quando percebemos que a excelente descrição artistica de como se comer e apreciar um prato de talharim por um mestre ao seu aprendiz nada mais é que um livro lido por Gun.
A qualidade do cinema japonês de filmar rituais cotidianos como se fossem eles mesmo uma arte é usada aqui como uma saudavel auto-parodia,como o modo em que os restaurantes levam a serio suas receitas,o seu preparo e o profissionalismo de seus restaurantes.
O alimento na vida social é retratado de forma surreal em diversas vinhetas que intercalam a historia principal.Tais vinhetas fogem do aspecto western da historia de Tampopo e são misturadas com o amalgama estilistico presente na mente de Itami e com o surrealismo perversamente ironico de um Buñuel,só pra fazer uma comparação.Aspectos vistos como uma cronica-social tendo como base a alimentação do homem moderno.
Como uma das principais qualidades do brilhante roteiro,escrito pelo diretor,está tambem o modo como ele intercala essa vinhetas com a vida de outros personagens dando uma sensação de vida corrente,como se tudo tivesse acontecendo ao mesmo tempo, o que é reforçado com a presença constante do trem.
Por exemplo:o subordinado que dá um show de conhecimento culinario num restaurante chique em contraste com o descaso de seus superiores em relação ao cardapio ja é intercalado(com a camera seguindo o maitre)com a outra parte do restaurante onde temos uma aula de etiqueta sobre como sugar um talharim sem fazer barulho;o gangster(do inicio do filme e que reflete o lado erotico-violento-perverso da comida)que faz sua amante atingir o orgasmo com uma gema de ovo seguido de uma cena simbolica envolvendo sangue,ostra e...tesão;o homem com dor de dente que após se livrar da dor e ter a possibilidade de degustar loucamente um sorvete ajuda um moleque com uma placa no pescoço dizendo:"Só como alimentos naturais,mensagem da minha mãe.";a mãe de familia que cozinha sua ultima refeição antes de morrer;todas historias conduzidas com uma maestria original e brilhante.
Se ha uma forma de qualificar o filme de modo geral é:
um grande trabalho artistico,original em seu tema e fruto de um auteur provindo de uma geração que costumava usar uma colcha de retalhos do cinema dos mestres.A emoção que o diretor consegue tirar de um bando de mendigos cantando em homenagem ao seu benfeitor,a homenagem chapliniana na cena em que um desses mendigos entra clandestinamente num restaurante pra fritar um omelete de arroz, a violencia,o amor,o humor, todas as emoções são extraidas por Itami de sua propria historia assim como o os mais diversos termos da linguagem do cinema de verdade.Meu texto é pouco pra aprofundar todos os temas tocados por Itami,mesmo que levemente.
Se reverencia Kurosawa,Leone,Buñuel,Ford(como nas brigas de soco,ou na despedia final do herói) ou até mesmo Kubrick(no modo como posiciona as lampadas em prol de um cenario autentico artisticamente e na trilha sonora) não importa.O que importa é que Juzo Itami é um nome a ser reconhecido e reconhecido pelas novas gerações,e que seu segundo filme é uma das principais obras a surigirem do universo cinematografico nos anos 80.
A cena dos creditos finais resume a origem de tudo o que o filme se propos a relatar a seu modo:a veneração da humanidade pela comida e sua conotação quase que sexual.
Mas ao analisarmos essa brilhante obra que foi o seu segundo filme,percebe-se o uso de diversas vertentes estilisticas ocidentais em contraste com qualquer rigor oriental contemplativo;realmente sua maestria tecnica de contar uma historia com a camera e manter uma narrativa coesa com o uso diverso das mais variadas ferramentas cinematograficas é o mais proximo de um Kurosawa que o Japão se propos a oferecer.
A influencia de Itami é o cinema,e sua possibilidade de contar uma verdadeira historia com as mais variadas emoções.Se o "Tampopo" é considerado um western-spaghetti por reverenciar diversos recursos estilisticos de Leone ou conter as qualidades narrativas de tal gênero,surge a pergunta:
Da onde vem a origem da influencia?
Se os filmes de Leone eram totalmente tributos italianos ao um genero americano inspirados pelos filmes de samurai de Kurosawa?
"Tampopo" é a prova viva de que as influencias artisticas transcorrem como ondas no inconsciente coletivo.Um filme gastronomico que usa o talharim como mote satirico do diretor em sua visão dos costumes da sociedade japonesa.O talharim e sua mega-popularidade é o cerne da historia central em que Tampopo(a excelente atriz e mulher do diretor Nobuko Miamoto) é dona de um restaurante cujo talharim é feito com total despreparo.
Com a chegada de Goro(Tsutomo Yamazaki,um forasteiro a la Clint que em vez de chegar a cavalo chega num caminhão)e seu ajudante Gun(um jovem Ken Watanabe),sua vida passará por uma transformação evolutiva dentro da arte de se preparar um noodles.Por cuidar de Goro depois dele defender ela numa briga perdida,ele aceita a dificil decisão de ajuda-la a achar a receita perfeita pro seu talharime pro visual de seu restaurante(numa especie de Gordon Ramsay japones),encontrando nessa curiosa jornada diversos personagens pitorescos,ironicos e profundos.
O filme é vendido como uma comédia,mas não é uma comedia de apelo comico-visual,o humor vem do modo sagaz e ironico do diretor em relação aos seus conterraneos(de gangsters da yakuza à mendigos) e ao modo como a comida e seus prazeres podem ser inseridos dentro de uma sociedade.
A introdução do filme ja é por si só criativa,com uma sala de cinema onde um gangster de terno branco começa a conversar com a camera perguntando "O que vocês estão comendo agora?".
De repente as luzes se apagam e a historia de Goro e Tampopo se desenrola na tela grande.
Essa metalinguagem de cinema dentro do cinema e arte dentro da arte continua logo apos os creditos iniciais quando percebemos que a excelente descrição artistica de como se comer e apreciar um prato de talharim por um mestre ao seu aprendiz nada mais é que um livro lido por Gun.
A qualidade do cinema japonês de filmar rituais cotidianos como se fossem eles mesmo uma arte é usada aqui como uma saudavel auto-parodia,como o modo em que os restaurantes levam a serio suas receitas,o seu preparo e o profissionalismo de seus restaurantes.
O alimento na vida social é retratado de forma surreal em diversas vinhetas que intercalam a historia principal.Tais vinhetas fogem do aspecto western da historia de Tampopo e são misturadas com o amalgama estilistico presente na mente de Itami e com o surrealismo perversamente ironico de um Buñuel,só pra fazer uma comparação.Aspectos vistos como uma cronica-social tendo como base a alimentação do homem moderno.
Como uma das principais qualidades do brilhante roteiro,escrito pelo diretor,está tambem o modo como ele intercala essa vinhetas com a vida de outros personagens dando uma sensação de vida corrente,como se tudo tivesse acontecendo ao mesmo tempo, o que é reforçado com a presença constante do trem.
Por exemplo:o subordinado que dá um show de conhecimento culinario num restaurante chique em contraste com o descaso de seus superiores em relação ao cardapio ja é intercalado(com a camera seguindo o maitre)com a outra parte do restaurante onde temos uma aula de etiqueta sobre como sugar um talharim sem fazer barulho;o gangster(do inicio do filme e que reflete o lado erotico-violento-perverso da comida)que faz sua amante atingir o orgasmo com uma gema de ovo seguido de uma cena simbolica envolvendo sangue,ostra e...tesão;o homem com dor de dente que após se livrar da dor e ter a possibilidade de degustar loucamente um sorvete ajuda um moleque com uma placa no pescoço dizendo:"Só como alimentos naturais,mensagem da minha mãe.";a mãe de familia que cozinha sua ultima refeição antes de morrer;todas historias conduzidas com uma maestria original e brilhante.
Se ha uma forma de qualificar o filme de modo geral é:
um grande trabalho artistico,original em seu tema e fruto de um auteur provindo de uma geração que costumava usar uma colcha de retalhos do cinema dos mestres.A emoção que o diretor consegue tirar de um bando de mendigos cantando em homenagem ao seu benfeitor,a homenagem chapliniana na cena em que um desses mendigos entra clandestinamente num restaurante pra fritar um omelete de arroz, a violencia,o amor,o humor, todas as emoções são extraidas por Itami de sua propria historia assim como o os mais diversos termos da linguagem do cinema de verdade.Meu texto é pouco pra aprofundar todos os temas tocados por Itami,mesmo que levemente.
Se reverencia Kurosawa,Leone,Buñuel,Ford(como nas brigas de soco,ou na despedia final do herói) ou até mesmo Kubrick(no modo como posiciona as lampadas em prol de um cenario autentico artisticamente e na trilha sonora) não importa.O que importa é que Juzo Itami é um nome a ser reconhecido e reconhecido pelas novas gerações,e que seu segundo filme é uma das principais obras a surigirem do universo cinematografico nos anos 80.
A cena dos creditos finais resume a origem de tudo o que o filme se propos a relatar a seu modo:a veneração da humanidade pela comida e sua conotação quase que sexual.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
"Apertem os Cintos......O Piloto Sumiu!" by David Zucker,Jim Abrahams e Jerry Zucker - 1980
A Revista Mad nunca exerceu uma influência tão grande no mundo do cinema como em David Zucker,Jim Abrahams e Jerry Zucker e sua obra-prima "Apertem os Cintos,o Piloto Sumiu!".
A catarse anárquica de situações díspares e esquetes satiricos provindo de todas as partes e dialogos,possui uma influencia na posterior comedia norte-americana em outras grandes obras do coletivo ZAZ como "Corra que a Policia Vem Aí!"(1988),até os derivados caça-niqueis nauseantes como "Disaster Movie"(2008).
A Mad tinha o habito de satirizar em seus inteligentes quadrinhos os blockbusters de sucesso,com cada quadro apresentando uma piada em cima de um clichê ou anarquisando o conceito geral da obra tida como "séria".
Assim ZAZ fez aqui,com referências culturais diversas à filmes de catastrofe tão comuns na decada de 1970,misturadas com diversas outras citações que vão da excelente cena remetendo aos "Embalos de Sabado a Noite"(1977),à "Tubarão"(1975),como na cena introdutoria(filmes,aliás,que recentemente tinham derramado sua magica na tela grande).
Não há momento sem piada e não há ritmo igual ao trio de diretores assim como a facilidade em transformar em observações irônicas piadas pré-Farrelys,como o piloto pedófilo,a frase "Prefiro preto,como os meus homens" dita por uma criança,mais crianças doentes(na sensacional cena do violão),freiras,negros falando seu proprio "dialeto",religiões..dentro do cenario de um avião em queda após o desmaio dos pilotos por terem comido peixe.
A genialidade do filme em não poupar o espectador em nenhum segundo de piadas visuais toma personalidade na aparição absolutamente fora do lugar comum de Stephen Stucker e seu personagem Johnny cujas aparições delirantes resumem conclusivamente o espirito non-sense da falta de linearidade e interrupção do humor de comic-con que o filme nos brinda atraves da linguagm da sétima arte.
Muitas das ferramentas estilisticas cinematograficas ja usadas a epoca a exaustão em prol da proliferação de clichês são revistas e chacotadas com competencia tecnica como zoom-ins melodramaticos,planos sequencias,trilha sonora previsivel(aqui dentro do mesmo espirito satirico do filme numa excelente composição de Elmer Bernstein)...assim como personagens e situações comuns no subconsciente pop,principalmente depois da chegada avassaladora da televisão.
O primor do profissionalismo dos envolvidos vão da seriedade forçada mas convincente de suas atuações,do sempre impassivel Leslie Nielsen num papel que lhe renderia quase que uma aura icônica em trabalhos posteriores,o heróico passional Robert Hays(numa dança travoltiana impecavel),a heroina Julie Hagerty(numa incrivel candice patética),assim como Lloyd Bridges cheirando cola e Robert Stack auto-ironizando o machismo idolatrado do herói salvador.
Só constata mais ainda o valor de obra surreal cômica fundamental do seculo XX as intervenções do imaginario sendo atropelado pelo real como nos lampejos de genialidade de Kareem Abdul-Jabbar sendo reconhecido pelo moleque assediado por Peter Graves(da serie original de "Missão Impossivel") e Ethel Merman como uma tenente enlouquecida que pensa ser Ethel Merman.
Um filme detalhistico,excelente com maconha,salgadinho e pé descalço no carpete....mas detalhistico. .
A catarse anárquica de situações díspares e esquetes satiricos provindo de todas as partes e dialogos,possui uma influencia na posterior comedia norte-americana em outras grandes obras do coletivo ZAZ como "Corra que a Policia Vem Aí!"(1988),até os derivados caça-niqueis nauseantes como "Disaster Movie"(2008).
A Mad tinha o habito de satirizar em seus inteligentes quadrinhos os blockbusters de sucesso,com cada quadro apresentando uma piada em cima de um clichê ou anarquisando o conceito geral da obra tida como "séria".
Assim ZAZ fez aqui,com referências culturais diversas à filmes de catastrofe tão comuns na decada de 1970,misturadas com diversas outras citações que vão da excelente cena remetendo aos "Embalos de Sabado a Noite"(1977),à "Tubarão"(1975),como na cena introdutoria(filmes,aliás,que recentemente tinham derramado sua magica na tela grande).
Não há momento sem piada e não há ritmo igual ao trio de diretores assim como a facilidade em transformar em observações irônicas piadas pré-Farrelys,como o piloto pedófilo,a frase "Prefiro preto,como os meus homens" dita por uma criança,mais crianças doentes(na sensacional cena do violão),freiras,negros falando seu proprio "dialeto",religiões..dentro do cenario de um avião em queda após o desmaio dos pilotos por terem comido peixe.
A genialidade do filme em não poupar o espectador em nenhum segundo de piadas visuais toma personalidade na aparição absolutamente fora do lugar comum de Stephen Stucker e seu personagem Johnny cujas aparições delirantes resumem conclusivamente o espirito non-sense da falta de linearidade e interrupção do humor de comic-con que o filme nos brinda atraves da linguagm da sétima arte.
Muitas das ferramentas estilisticas cinematograficas ja usadas a epoca a exaustão em prol da proliferação de clichês são revistas e chacotadas com competencia tecnica como zoom-ins melodramaticos,planos sequencias,trilha sonora previsivel(aqui dentro do mesmo espirito satirico do filme numa excelente composição de Elmer Bernstein)...assim como personagens e situações comuns no subconsciente pop,principalmente depois da chegada avassaladora da televisão.
O primor do profissionalismo dos envolvidos vão da seriedade forçada mas convincente de suas atuações,do sempre impassivel Leslie Nielsen num papel que lhe renderia quase que uma aura icônica em trabalhos posteriores,o heróico passional Robert Hays(numa dança travoltiana impecavel),a heroina Julie Hagerty(numa incrivel candice patética),assim como Lloyd Bridges cheirando cola e Robert Stack auto-ironizando o machismo idolatrado do herói salvador.
Só constata mais ainda o valor de obra surreal cômica fundamental do seculo XX as intervenções do imaginario sendo atropelado pelo real como nos lampejos de genialidade de Kareem Abdul-Jabbar sendo reconhecido pelo moleque assediado por Peter Graves(da serie original de "Missão Impossivel") e Ethel Merman como uma tenente enlouquecida que pensa ser Ethel Merman.
Um filme detalhistico,excelente com maconha,salgadinho e pé descalço no carpete....mas detalhistico. .
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
"O Veludo Azul" by David Lynch - 1986
Um dia David Lynch sonhou com um titulo: "Veludo Azul".
Um dia David Lynch imaginou uma orelha humana perdida no gramado.
Um dia David Lynch,quando criança,chorou ao ver uma mulher nua correndo pela rua desesperada.
Um dia David Lynch teve o obscuro desejo de espiar uma mulher de dentro de um armario e descobrir pistas de um crime.
Um dia ele ligou isso com a imagem da orelha e o titulo Veludo Azul atraves da canção homonima "Blue Velvet" de Bobby Vinter,retrato de uma doce geração.
Ironizar o "american way of life" foi o próximo passo depois do subestimado "Duna"(1984) e de ter feito sucesso cult com "Eraserhead" (1977),e figurado entre o mainstream com "O Homem Elefante" (1980).
As cercas brancas rodeadas por rosas vermelho-vivo,as crianças brincando no gramado,o bombeiro acenando para nós,e todo esse otimismo pregado pela alienação social norte-americana não é dessa vez invadido por um psicopata como em "A Sombra de uma Duvida"(1943) de Alfred Hitchcock ou "O Estranho"(1946) de Orson Welles;nem tão devastadoramente destroçada emocionalmente como nos posteriores filmes de Sam mendes como "Beleza Americana"(1999) e "Foi Apenas um Sonho"(2008).Aqui Lynch prefere defrontar o bem com o mal dentro do que seria a visão dele desses opostos pertencentes a qualquer ecossistema,do pré-fabricado ao natural.
Se a idealização da felicidade utópica é corrompida por um ataque(do pai de Jeffrie,causa da sua volta),e um ninho de insetos nojentos sendo usados como metáfora para o que se esconde por tras da fachada de um lindo gramado,assim como um cachorro brincando com o dono enquanto esse pode estar morrendo é o que se esconde por tras de um aparente amigo fiel;vemos que Lynch mostrará atraves de simbolismos o confronto entre esses dois pólos.
Através de uma orelha humana descoberta por Jeffrie no quintal,como que um portal ela nos levara junto com ele numa odisseia de aprendizado da vida como ela realmente é e pode ser:o mundo dos insetos.
Muito se diz da luta entre o bem e o mal nesse filme mas o que se vê é uma ironia sarcastica gritante do modo de se ver o mundo pela inocencia alienatoria.O casal de protagonistas são tidos como os heróis desde o inicio porêm são totalmente aquêm de qualquer conceito de violência,e logo Jeffrey se depara com sadomasoquismo,estupro ritualistico,fetiche,psicose,perigo imediato,assassinato,tudo em pouco tempo,na figura do psicotico inalador de nebulizador afrodisiaco delirante Frank Booth(Dennis Hopper que aceitou o papel dizendo que o personagem era ele?!)e a cantora Dorothy Vallens(Isabella Rossellini totalmente negligenciada fisica e moralmente,no bom sentido...).Impressionante como Lynch constrói a cena em que Jeffries conversa com Sandy no carro,os atores com uma interpretação propositalmente forçada,mostrando a patética visão de mundo deles,deparados com o mal:
- "Porque existe alguem como Frank?!"
Seguido por um bobo discurso de Sandy sobre um sonho onde pintarroxos representavam o amor.
Há de se notar a ironia que Lynch se reveste nesse sentido(e que resume sua mensagem),até no epilogo do pintarroxo com um inseto no bico com mais uma metáfora simbólica do bem vencendo o mal e frases como "Que mundo estranho esse que vivemos!".
Um sonho sim é o que parece ser o filme a todo momento,com Frank levando Jeffrey a um passeio de descoberta onde estranhos personagens vão surgindo de forma quase que Felliniana(mesmo que Lynch tenha inventado uma linguagem propria,a influencia de Fellini e Kubrick é obvia).
Dean Stockwell surge brilhantemente como uma bicha psicotica e misteriosa afetada,assim como Roy Orbinson embala um espancamento após a primeira reação a violencia de Jeffrey.
O misterio policial é apenas um mote referencial ao noir e forma de conduzir o que importa,que é o modo comico-ironico-perversivo com que Lynch retrata a jornada de pessoas pertencentes à um conceito harmônico pateticamente publicitario,para o underground do mal escondido em qualquer um de nós.
Um dia David Lynch imaginou uma orelha humana perdida no gramado.
Um dia David Lynch,quando criança,chorou ao ver uma mulher nua correndo pela rua desesperada.
Um dia David Lynch teve o obscuro desejo de espiar uma mulher de dentro de um armario e descobrir pistas de um crime.
Um dia ele ligou isso com a imagem da orelha e o titulo Veludo Azul atraves da canção homonima "Blue Velvet" de Bobby Vinter,retrato de uma doce geração.
Ironizar o "american way of life" foi o próximo passo depois do subestimado "Duna"(1984) e de ter feito sucesso cult com "Eraserhead" (1977),e figurado entre o mainstream com "O Homem Elefante" (1980).
As cercas brancas rodeadas por rosas vermelho-vivo,as crianças brincando no gramado,o bombeiro acenando para nós,e todo esse otimismo pregado pela alienação social norte-americana não é dessa vez invadido por um psicopata como em "A Sombra de uma Duvida"(1943) de Alfred Hitchcock ou "O Estranho"(1946) de Orson Welles;nem tão devastadoramente destroçada emocionalmente como nos posteriores filmes de Sam mendes como "Beleza Americana"(1999) e "Foi Apenas um Sonho"(2008).Aqui Lynch prefere defrontar o bem com o mal dentro do que seria a visão dele desses opostos pertencentes a qualquer ecossistema,do pré-fabricado ao natural.
Se a idealização da felicidade utópica é corrompida por um ataque(do pai de Jeffrie,causa da sua volta),e um ninho de insetos nojentos sendo usados como metáfora para o que se esconde por tras da fachada de um lindo gramado,assim como um cachorro brincando com o dono enquanto esse pode estar morrendo é o que se esconde por tras de um aparente amigo fiel;vemos que Lynch mostrará atraves de simbolismos o confronto entre esses dois pólos.
Através de uma orelha humana descoberta por Jeffrie no quintal,como que um portal ela nos levara junto com ele numa odisseia de aprendizado da vida como ela realmente é e pode ser:o mundo dos insetos.
Muito se diz da luta entre o bem e o mal nesse filme mas o que se vê é uma ironia sarcastica gritante do modo de se ver o mundo pela inocencia alienatoria.O casal de protagonistas são tidos como os heróis desde o inicio porêm são totalmente aquêm de qualquer conceito de violência,e logo Jeffrey se depara com sadomasoquismo,estupro ritualistico,fetiche,psicose,perigo imediato,assassinato,tudo em pouco tempo,na figura do psicotico inalador de nebulizador afrodisiaco delirante Frank Booth(Dennis Hopper que aceitou o papel dizendo que o personagem era ele?!)e a cantora Dorothy Vallens(Isabella Rossellini totalmente negligenciada fisica e moralmente,no bom sentido...).Impressionante como Lynch constrói a cena em que Jeffries conversa com Sandy no carro,os atores com uma interpretação propositalmente forçada,mostrando a patética visão de mundo deles,deparados com o mal:
- "Porque existe alguem como Frank?!"
Seguido por um bobo discurso de Sandy sobre um sonho onde pintarroxos representavam o amor.
Há de se notar a ironia que Lynch se reveste nesse sentido(e que resume sua mensagem),até no epilogo do pintarroxo com um inseto no bico com mais uma metáfora simbólica do bem vencendo o mal e frases como "Que mundo estranho esse que vivemos!".
Um sonho sim é o que parece ser o filme a todo momento,com Frank levando Jeffrey a um passeio de descoberta onde estranhos personagens vão surgindo de forma quase que Felliniana(mesmo que Lynch tenha inventado uma linguagem propria,a influencia de Fellini e Kubrick é obvia).
Dean Stockwell surge brilhantemente como uma bicha psicotica e misteriosa afetada,assim como Roy Orbinson embala um espancamento após a primeira reação a violencia de Jeffrey.
O misterio policial é apenas um mote referencial ao noir e forma de conduzir o que importa,que é o modo comico-ironico-perversivo com que Lynch retrata a jornada de pessoas pertencentes à um conceito harmônico pateticamente publicitario,para o underground do mal escondido em qualquer um de nós.
domingo, 30 de outubro de 2011
"Ginger e Fred" by Federico Fellini -1986
A televisão surgiu como um furacão pós-moderno perverso e engolidor da verdadeira arte no seculo 20.Suas artimanhas publicitarias e seu entretenimento vazio,forçado e alienatório foi uma das principais causas da decadencia cultural moderna.Nada mais satisfatório do que ver Fellini em seu ultimo grande filme agir com um sarcasmo cortante e engraçadissimo contra essa midia tão despudorada,lidando com temas pessoais seus como a propria "decadência", sua velhice e o medo do futuro.
Amelia(Giulietta Masina) e Pippo(Marcello Mastroianni) são dois veteranos artistas que costumavam imitar Ginger Rogers e Fred Astaire 40 anos antes e decidem se reencontrar depois de um convite feito por um programa de televisão.O mundo se encontra diferente,o aparelho televisor surge como um imã cerebral.Ninguem consegue largar os olhos dela.
O humor é a ferramenta de Fellini.Quando Amelia desembarca em Roma o maremoto cultural moderno ja a engole na figura de funcionarios da televisão,sósias dos mais variados artistas,figuras excentricas como um travesti,um velho heroi de guerra...
Amelia (Masina tão naturalmente perfeita e auto-referenciativa como em "Julieta dos Espiritos"(1965)) se encontra apavorada com todo aquele assalto de perversão e superficialidade,onde as pessoas não conversam,apenas mandam..;e numa Roma perigosa como nunca.
A direção de Fellini por mais convencional que seja,nunca é convencional.O modo como ele distribui esse bando de personagens emergentes de um novo mundo é com a mesma quadrinização anterior.A musica de Nino Rota não existe mais ali,mas parece que Nicola Piovani(oscarizado por "A Vida é Bela")segue a mesma linha picaresca,visto que a correspondencia psicologica da musica-Fellini ainda é a mesma.
Mas o que carrega realmente o filme é Marcello Mastroianni em uma puta interpretação.O seu Pippo é um verdadeiro artista desbocado,cinico,debochado e frustrado,mesmo que procure não não deixar transparecer em meio a piadas sarcasticas.O ator se joga em seu personagem com sua voz catarrenta e constantes tosses em meio à resmungos e atitudes de escarnio.Um divertido personagem que carrega Amelia pela mão em sua erratica decisão de voltar ao passado ou não,em um programa de televisão de espetaculos passageiros e superfluos(que tem como apresentador Franco Frabrizi,ator recorrente nos primeiros filmes de Fellini como "Os Boas-Vidas" e "A Trapaça").
Enfim o final se mostra ao mesmo tempo que lindo e emocionante,uma lapide na sepultura de um artista.O rock'n roll ja tinha dominado,a televisão extrapolado,sacos de lixo espalhados por toda a cidade.Fellini se despede com sua ultima visão satirica de um futuro incerto...
Amelia(Giulietta Masina) e Pippo(Marcello Mastroianni) são dois veteranos artistas que costumavam imitar Ginger Rogers e Fred Astaire 40 anos antes e decidem se reencontrar depois de um convite feito por um programa de televisão.O mundo se encontra diferente,o aparelho televisor surge como um imã cerebral.Ninguem consegue largar os olhos dela.
O humor é a ferramenta de Fellini.Quando Amelia desembarca em Roma o maremoto cultural moderno ja a engole na figura de funcionarios da televisão,sósias dos mais variados artistas,figuras excentricas como um travesti,um velho heroi de guerra...
Amelia (Masina tão naturalmente perfeita e auto-referenciativa como em "Julieta dos Espiritos"(1965)) se encontra apavorada com todo aquele assalto de perversão e superficialidade,onde as pessoas não conversam,apenas mandam..;e numa Roma perigosa como nunca.
A direção de Fellini por mais convencional que seja,nunca é convencional.O modo como ele distribui esse bando de personagens emergentes de um novo mundo é com a mesma quadrinização anterior.A musica de Nino Rota não existe mais ali,mas parece que Nicola Piovani(oscarizado por "A Vida é Bela")segue a mesma linha picaresca,visto que a correspondencia psicologica da musica-Fellini ainda é a mesma.
Mas o que carrega realmente o filme é Marcello Mastroianni em uma puta interpretação.O seu Pippo é um verdadeiro artista desbocado,cinico,debochado e frustrado,mesmo que procure não não deixar transparecer em meio a piadas sarcasticas.O ator se joga em seu personagem com sua voz catarrenta e constantes tosses em meio à resmungos e atitudes de escarnio.Um divertido personagem que carrega Amelia pela mão em sua erratica decisão de voltar ao passado ou não,em um programa de televisão de espetaculos passageiros e superfluos(que tem como apresentador Franco Frabrizi,ator recorrente nos primeiros filmes de Fellini como "Os Boas-Vidas" e "A Trapaça").
Enfim o final se mostra ao mesmo tempo que lindo e emocionante,uma lapide na sepultura de um artista.O rock'n roll ja tinha dominado,a televisão extrapolado,sacos de lixo espalhados por toda a cidade.Fellini se despede com sua ultima visão satirica de um futuro incerto...
"E la Nave Va" by Federico Fellini - 1983
Em 1983 Fellini ja tinha se tornado um marco historico no mundo do cinema.Seus filmes sempre satirizavam a sociedade e o ser humano com sua visão particular e extravagante.O termo "Felliniano" pode ser encontrado até em dicionarios.
Porem em seus derradeiros filmes dos anos 80 ele ja parecia se preocupar em abrir mão de muito de suas caracteristicas estilisticas antigas para equilibrar sua tecnica e sua inventividade narrativa com arroubos artisticos moderados.Sempre exaltando a visão,a mensagem, e a arte em si.
Aqui Fellini conta uma historia que se passa quase inteiramente num grande navio fretado por principes,artistas de teatro,dançarinas,cantores de ópera,condes,barões,grão-duques,paranormais,...com destino na ilha de Erimo onde(como pedido em seu testamento),as cinzas da ilustre e gloriosa cantora Edmea Tetua devem ser espalhadas.
A chegada dos passageiros no porto na cena introdutoria é apresentada por Fellini como um daqueles documentarios mudos do inicio do seculo passado em uma clara metafora fílmica.Logo surge o personagem de Orlando (interpretado pelo ingles Freddie Jones),um jornalista intrometido que será nosso guia em meios aos caricatos personagens e situações dentro do navio,o famoso personagem bufo de Fellini,o mestre de cerimonias.Orlando conversa com nós olhando diretamente pra câmera,sujeito a gags comicas forçadas que quase me decepcionaram nos primeiros 15 minutos.
A musica e o som são tratados de forma quase metafisica nessa obra,onde experimentos aparentemente casuais permite uma interação psiquica com quem assiste.A cor do som da voz,a orquestra de copos nivelados com agua,a galinha hipnotizada.São situações expostas como uma curiosidade que esta sendo partilhada diretamente com nos.
A ironia vem do retrato satirico da belle époque do pre-guerra em meio a personagens quase que todos excentricos em seus comportamentos como o barão sendo constantemente traido pela sedenta baronesa,o gordo grão-duque e sua prima cega(interpretada por Pina Baush,famosa bailarina artistica daquele numero em que ela sai atropelando as cadeira que está em "Fale Com Ela" do Almodóvar),os cantores de ópera(grandiosos na cena em que cantam pros operarios do navio em meio aos barulhos da caldeira e trabalhadores numa grande alegoria musical).
Na segunda parte o filme dá uma reviravolta ritmica genial com a subida à bordo de um bando de camponeses pobres turcos fugidos do exercito do Império Austro-Húngaro logo após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e o inicio da primeira guerra.
Fellini se veste de uma sutil denuncia e ironia à la Buñuel mostrando o contraste desses dois mundos.A cena em que eles comem enquanto os camponeses famintos ficam assistindo é brilhante,alêm de nos apontar quais são as reações de cada personagem...mesmo que depois das cortinas serem fechadas a unica que se prontifica a alimenta-los é a ninfomaniaca baronesa,logo encontrando um oasis do seus sonhos no rosto rude dos turcos.
No apoteótico final em meio a vozes,tiros,mares de lona,e cenarios de estudio a camera se distancia no climax da ação pra mostrar todo o aparato do set de filmagem em um longo plano sequencia que fecha num close da camera principal do diretor.
Fica aquela sensação de vazio e pretensão,diferente de outros inumeros filmes do diretor,mas mesmo assim uma bela experiencia de poesia,humanismo e tour de force do Fellini.
Alem de ter a belissima e inebriante "Clair de Lune" de Debussy e a simbolica presença de um rinoceronte fétido e doente.
Porem em seus derradeiros filmes dos anos 80 ele ja parecia se preocupar em abrir mão de muito de suas caracteristicas estilisticas antigas para equilibrar sua tecnica e sua inventividade narrativa com arroubos artisticos moderados.Sempre exaltando a visão,a mensagem, e a arte em si.
Aqui Fellini conta uma historia que se passa quase inteiramente num grande navio fretado por principes,artistas de teatro,dançarinas,cantores de ópera,condes,barões,grão-duques,paranormais,...com destino na ilha de Erimo onde(como pedido em seu testamento),as cinzas da ilustre e gloriosa cantora Edmea Tetua devem ser espalhadas.
A chegada dos passageiros no porto na cena introdutoria é apresentada por Fellini como um daqueles documentarios mudos do inicio do seculo passado em uma clara metafora fílmica.Logo surge o personagem de Orlando (interpretado pelo ingles Freddie Jones),um jornalista intrometido que será nosso guia em meios aos caricatos personagens e situações dentro do navio,o famoso personagem bufo de Fellini,o mestre de cerimonias.Orlando conversa com nós olhando diretamente pra câmera,sujeito a gags comicas forçadas que quase me decepcionaram nos primeiros 15 minutos.
A musica e o som são tratados de forma quase metafisica nessa obra,onde experimentos aparentemente casuais permite uma interação psiquica com quem assiste.A cor do som da voz,a orquestra de copos nivelados com agua,a galinha hipnotizada.São situações expostas como uma curiosidade que esta sendo partilhada diretamente com nos.
A ironia vem do retrato satirico da belle époque do pre-guerra em meio a personagens quase que todos excentricos em seus comportamentos como o barão sendo constantemente traido pela sedenta baronesa,o gordo grão-duque e sua prima cega(interpretada por Pina Baush,famosa bailarina artistica daquele numero em que ela sai atropelando as cadeira que está em "Fale Com Ela" do Almodóvar),os cantores de ópera(grandiosos na cena em que cantam pros operarios do navio em meio aos barulhos da caldeira e trabalhadores numa grande alegoria musical).
Na segunda parte o filme dá uma reviravolta ritmica genial com a subida à bordo de um bando de camponeses pobres turcos fugidos do exercito do Império Austro-Húngaro logo após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e o inicio da primeira guerra.
Fellini se veste de uma sutil denuncia e ironia à la Buñuel mostrando o contraste desses dois mundos.A cena em que eles comem enquanto os camponeses famintos ficam assistindo é brilhante,alêm de nos apontar quais são as reações de cada personagem...mesmo que depois das cortinas serem fechadas a unica que se prontifica a alimenta-los é a ninfomaniaca baronesa,logo encontrando um oasis do seus sonhos no rosto rude dos turcos.
No apoteótico final em meio a vozes,tiros,mares de lona,e cenarios de estudio a camera se distancia no climax da ação pra mostrar todo o aparato do set de filmagem em um longo plano sequencia que fecha num close da camera principal do diretor.
Fica aquela sensação de vazio e pretensão,diferente de outros inumeros filmes do diretor,mas mesmo assim uma bela experiencia de poesia,humanismo e tour de force do Fellini.
Alem de ter a belissima e inebriante "Clair de Lune" de Debussy e a simbolica presença de um rinoceronte fétido e doente.
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