domingo, 9 de setembro de 2012

"Rebecca"(1940) - Alfred Hitchcock



Quando desembarcou nos EUA,Hitchcock já iniciou com dois filmes no mesmo ano: "Correspondente Estrangeiro" e "Rebecca".
Enquanto o primeiro foi o thriller inglês elevado ao status de super-produção e tinha mais a cara do diretor,o segundo foi o carro-chefe de David O. Selznick para ganhar o Oscar usando do talento alheio.Dinheiro não faltou na produção,o que claramente é mostrado na gótica introdução apresentando uma das maiores mansões cenográficas do cinema,e Hitchcock gostava de Daphne du Maurier,já tendo inclusive filmado a adaptação "Jamaica Inn" na Inglaterra um ano antes.
Independente de ter sido oportunista ou não,o filme abriu as portas para novas possibilidades no cinema de  Hitchcock,sendo o primeiro  a tomar um rumo psicologicamente intenso,se tornando a gênese da análise mental de "A Sombra de uma Dúvida"(1943),"Spellbound"(1945),e do ápice de "Um Corpo Que Cai"(1958),"Psicose"(1960) e Marnie(1964).
"Rebecca" é um dos filmes mais opressores,mais claustrofóbicos de Hitchcock,onde o pânico do deslocamento se reflete de forma angustiante na personagem de Joan Fontaine.

Fontaine é uma jovem órfã tímida e desajeitada que trabalha como acompanhante de uma falastrona ricaça em Monte Carlo quando conhece o viúvo Maxim de Winter(Laurence Olivier),proprietário da mansão de Manderlay,no que parece uma tentativa de suicídio deste.
Meio que seduzido pela forma desajeitada e infantil da jovem,Maxim decide se casar com ela.O problema é que uma nerd ,acostumada sempre a servir os mandos mais reles como acompanhante,está longe de ser a administradora aristocrática de uma mansão.Ao chegar em Manderley ela se depara com a presença opressora da casa,do fantasma presente de Rebecca(a falecida e popular ex-esposa  de Maxim),e da tortura psicológica da Governanta Denvers que ainda guarda uma adoração fantasmagoricamente lésbica com Rebecca e faz de tudo para transformar num inferno a vida da nova Mrs.deWinter.

Num dos primeiros exercícios de manipulação psicológica do cinema,Hitchcock mistura elementos góticos e expressionistas para transformar apenas um nome num protagonista onipresente e que influencia os personagens  em cada uma de suas reações,nem que seja na forma de um R bordado.
O personagem de Fontaine por exemplo,é anônimo,só sendo reconhecida como Mrs. deWinter após se casar,o que aumenta ainda mais o poder do nome Rebecca.
Eu só destaco atuações em filme quando sei que ajuda realmente uma porcentagem do desenvolvimento do filme.E o que Joan Fontaine faz aqui é inacreditável.Vivendo em constante ansiedade e amando um homem que vive num ambiente turbulento e neurastênico de recordações,sua personagem não consegue manter a cabeça ereta em frente aos empregados e é massacrada pelas altas paredes da mansão.
Fontaine era tratada de forma indescritivelmente cruel por Laurence Olivier nos sets,que queria sua mulher Vivien Leigh no filme.Hitchcock sabendo disso mentiu que não só Olivier como toda a produção a odiava,aumentando a autenticidade da incomunicabilidade da personagem e ao mesmo tempo se colocando como um dos diretores mais cruéis da história.
Judith Anderson por sua vez adquire o caráter mais expressionista do filme quando entra em  interação com o cenário da mansão para manipular a mente de Mrs. Denver ou induzi-la ao suicidio,enquanto invoca o fantasma de Rebecca  e se arrasta nosferaticamente como uma necrófila de saia.

"Rebecca" usaria de forma muito mais ampla que em seus filmes anteriores técnicas visuais que influenciariam cineastas posteriores(pleonasmo dizer isso),principalmente aquelas mais assimiladas pelos americanos,como zoom-in dramático,pioneiro uso de deep focus,tensão obtida pela montagem e alternância de closes,movimentos de câmera auto-explicativos(como quando a câmera vai relatando visualmente a confissão de Maxim sobre a morte de Rebecca na cabana),e a trilha sonora climática de Franz Waxman(antes de Bernard Herrman em "Cidadão Kane"),além claro do terror psicológico e da reviravolta que desestrutura a trama.
Os minutos finais continuam sublimes acima de tudo,com a camera invadindo a mansão que se incendeia presenciando o destino trágico da governanta que não se entregou e preferiu a morte,assim como a morte de Rebecca,simbolizada por um traveling em direção à um R bordado num travesseiro em chamas.Orson welles claramente chapou o coco com esse final.


"Alien 3"(1992) - David Fincher



O debut de David Fincher consegue mostrar muito mais das características soturnas e opressoras de seus melhores filmes do que "O Curioso caso de Benjamin Button"(2008) ou "A Rede Social"(2010).Aquela estética do desagradável fria que estaria muito mais elaboradamente expressa posteriormente em filmes em que ele  teria um controle autoral maior como "Seven"(1995) ou "Clube da Luta"(1999),acaba se tornando  superior à intervenções agonizantes que ele sofria do estúdio,fazendo com que o rascunho do estilo de Fincher acabe criando um clima sufocante condizente com a visão de mundo fria dos anos 90.
Conseguindo colocar suas idéias no roteiro,Fincher põe para escanteio qualquer possibilidade de respeito à mitologia dos filmes anteriores.E ele estava certo.O monopólio dos personagens não pertencia à Ridley Scott ou James Cameron.Enquanto o primeiro se mostrou habilidoso no suspense de ficcção científica em 1979,Cameron construiu uma  militarizada carnificina testosterônica americana no espaço.A saga estava ali para que cada autor colocasse a sua visão.Fincher queria extrair o horror autêntico,e se tem um filme da série que mais chegue perto do puro gênero do horror,é "Alien 3".Principalmente do horror vigente na época,com gore realista e câmera subjetiva em corredores.

Em "Aliens - O Resgate"(1986) de Cameron,Ripley tem que defender à duras penas uma criança órfã enquanto se envolve amorosamente com Hicks(Michael Biehn) e adquire confiança no salvador andróide Bishop.Num final feliz e aliviador,os 4 personagens se salvam,quase que numa exaltação alegórica à família,hibernando todos juntos num módulo espacial.
Nos créditos iniciais de "Alien 3" Fincher mata todos esses personagens,deixando apenas Ripley como sobrevivente,quando o módulo é mais uma vez invadido pelo alienígena.Numa negação quase absoluta de bem,o módulo cai numa prisão-refinaria espacial habitada por condenados estrupadores,assassinos e afins, que resguardam a ordem e o respeito por uma fanática religião enquanto convivem numa atmosfera claustrofóbica de ar amarelado,cheiro de podridão,canos que servem de ninhos para vermes,barulho de portas de aço se fechando constantemente e eterna desconfiança.Ripley é afundada num universo de niilismo angustiante.Não só descobre que sua "filha" está morta como,na inevitabilidade de ter que descobrir como a criança morreu,ela tem que presenciar o médico da prisão Dr. Clemens(Charles Dance) abrir seu tórax com a edição de som cuidando dos ruídos mais desconfortáveis.Para concluir com o pessimismo,Ripley descobre não haver armas de fogo no local e estar grávida do alienígena partindo para uma corrida suicida quando qualquer chance de salvamento é implodida.

O niilismo é o que importa em "Alien 3",o niilismo acima de qualquer desenvolvimento psicológico.Se Ripley se encontra constantemente vitima de seu nemesis,aqui ela se encontra vítima do negativismo de Fincher.Dr. Clemens,que satisfaz a seca sexual da tenente,é abruptamente eliminado quando justamente parece ser ele o facho de luz,evitando espertamente a inutilidade romântica do conceito de horror que o diretor resguarda.Sigourney Weaver com sua cabeça raspada  e com sua interação natural e até superiormente masculina diante dos presidiários,entrega sua Ripley mais resignadamente dura,destruida,experiente e devastada.A música do excelente compositor Elliot Goldenthal é igualmente eficiente na simbiose climática que adquire com o filme e que demorou um ano para ser desenvolvida com a colaboração do diretor.
"Aliens 3",se revisto, acaba sendo um dos horrores mais eficientes da década de 90 mesmo em sua incompletude,como o fraco uso do CGI ,inferior ao trabalho de Stan Winston(mas mesmo assim indicado ao Oscar,afinal é 1992),e o final do parto-suicida,por demais exagerado.