sexta-feira, 7 de setembro de 2012

"Intolerância"(1916) - D. W. Griffith




"Intolerância" é um gênio mordendo os beiços de raiva e dando uma resposta à altura.Mas a tal intolerância à que ele se colocava contra,era perigosa.Seu filme "O Nascimento de uma Nação"(1914),o primeiro blockbuster,com mais de duas horas de duração,era claramente racista e glorificava a Ku Klux Klan.Essa visão racista histórica comum na época,encontrou forte reação numa sociedade que aos poucos conseguiam direitos para pessoas de cor.O filme foi proibido em algum lugares,e em outros pessoas protestaram abertamente.Mesmo que isso não tivesse conseguido prejudicar o seu sucesso de forma geral,deixou Griffith profundamente irritado,e "Intolerância" foi o seu soco na cara,o seu dedo do meio.
E foi caro...uma mega produção envolvendo Paris,Babilônia e Jesus Cristo sem ser racista e conter uma mensagem tão propositalmente virtuosa,foi estranhamente desprezado pelo público.

Sim,o chilique de Griffith não foi só caro mas artisticamente avançado,com os paralelos entre diferentes eras na narrativa surgindo fluidamente na edição muito mais aprimorada que em "O Nascimento de Uma Nação".Depois de assistir o italiano "Cabíria"(1914) de Giovanni Pastrone,outra jóia pioneira da narrativa homérica no cinema em que o Etna entra em erupção e pessoas são queimadas em templos de Moloch,Griffith assumiu as rédeas de um profissional que não deveria ver limites...com ele era "Pensou?Faz!".
O filme se divide em 4 histórias que se alternam durante o filme,cada uma ilustrando a intolerância: Jesus em seu caminho para a condenação,huguenotes antes de serem exterminados pelos Médicis católicos na Paris de 1572 no famoso Massacre do Dia de São Bartolomeu,um conto contemporâneo de crime e puritanismo opressor,e a queda da Babilônia traída pela intolerância religiosa de seus sacerdotes.

O que faz Griffith não ser apenas um diretor visual é o constante humanismo presente em boa parte de sua filmografia,apesar da duvidosa moral de "O Nascimento de uma Nação"(1914).O filme não procura se basear apenas no aspecto visual dos cenários históricos,mas em cada uma das tramas paralelas, personagens são profundamente desenvolvidos como pessoas vítimas da sociedade em sua volta,alguns tendo um fim trágico,outros conseguindo a redenção.Os namorados protestantes na Paris,indefesos e inocentes na véspera de uma carnificina,e ainda sob os olhos de um soldado do rei.A garota das montanhas, selvagem, apaixonada pelo príncipe Belsazar na Antiga Babilônia,cometendo atos heróicos disfarçado de homem para salvar sua cidade dos persas.E principalmente na história moderna,onde um casal é vítima do acaso e personagens coadjuvantes vão interagindo num mundo de crime tentador e velhas puritanas,que tentam tirar a bebê de sua mãe depois que seu marido vai injustamente preso.

A história do cinema muda a partir do momento em que Griffith junta em cross-cutting,em frenesi dignos de suspense moderno,o clímax de cada uma das histórias,num empolgante desfecho que exploram o máximo o poder da edição em se extrair emoção de uma trama cinemática.Todos os destinos dos personagens tomam seu desfecho praticamente ao mesmo tempo,multiplicando caleidoscopicamente o orgasmo visual avassalador.

"Janela Indiscreta"(1954) - Alfred Hitchcock



"Janela Indiscreta" foi a primeira e única vez em que Hitchcock pega um cenário e o transforma num ecossistema vivo e pulsante presenciado por nós numa posição voyeurística.Já mostrando ser mestre em ambientação única como em "Lifeboat"(1944) ,"Rope"(1949) e o anterior "Disque M Para Matar"(1954),a diferença de "Janela Indiscreta" é que a ambientação se divide em duas: o apartamento de Jeffrie e as janelas dos outros apartamentos que ficam em oposição ao seu.Jeffrie é um fotógrafo jornalístico aventureiro que se encontra agonizando com a perna quebrada,e se distrai espiando os vizinhos com seu grande e conveniente aparato de câmeras e lunetas.É quando pensa ter visto um crime numa dessas janelas que a dúvida da verdade entra em contraste com a ilusão do ócio e com a angústia da incapacidade móvel de sua condição física.Numa época em que as distrações domésticas não eram tantas como no mundo atual,Jeffrie tem apenas sua enfermeira,sua namorada,um incrédulo amigo detetive e os barulhos da cidade nevralgica que pulsa lá fora,o colocando como apenas uma formiga entre tantas no formigueiro da metrópole moderna.

"Janela Indiscreta" tambêm é uma prévia de seus filmes mais psicologicamente profundos que ele faria posteriormente,mas ainda aliados aos seus costumeiros estudos de relacionamento.Grace Kelly era o objeto de desejo sexual máximo do diretor,que coloca closes excitantes no rosto da personagem Lisa Fremont, representante da mulher moderna,cosmopolita e independente;protótipo do feminismo.O casamento tantas vezes ironizado por Hitchcock,é a primeira angústia de Jeffrie,que encontra na cadeira de rodas não só o obstaculo para por fim ao perigo de suas dúvidas,como para fugir das algemas matriarcais.
Jeffrie é um homem de aventuras,de nomadismo;Lisa é uma dondoca que escreve para colunas sociais e cada dia está com um vestido novo.Esses opostos românticos são constantemente postos em jogo pelo diretor ao mesmo tempo que uma nova pista surge para trazer barulho novamente à trama.O humor também usual nos filmes de Hitchcock está muito mais nas frases sinceras da enfermeira Stella(Thelma Ritter,uma das melhores coadjuvantes da época),do que nas birras do casal,dando uma seriedade muito mais profunda para um relacionamento tão díspare,além de aprofundar psicologicamente o personagem de Kelly.

Mas para entendermos a verdadeira genialidade do filme não devemos nos ater ao suspense e aos recursos visuais para criar climas de tensão.O suspense,o crime,e a resolução deste,acabam sendo apenas uma ferramenta para o desenvolvimento dos personagens entre si e maneira visionária com que o diretor aprofundou personagens que não falam,não se aproximam,não saem da mesma janela,e nem sabem que estão sendo espiados pela lente de Jeffrie.Personagens como a viúva solitária e suas desventuras amorosas,os namorados da dançarina,o pianista com bloqueio de criatividade,os recém-casados(casamento de novo) e o vendedor Lars Thorwald(Raymond Burr),que supostamente esquartejou sua inválida esposa.Ao final do filme todos esses personagens conseguem uma familiarização satisfatória com o espectador,através apenas de planos distantes,som ambiente,e com o diretor dirigindo seus atores de longe.A simbiose do ponto de vista de Jeffrie com o nosso é uma tradução simbólica da raiz cinematográfica de ser o olho humano expandido,presenciando o pulso do ritmo da cidade em um set de estúdio.


"Psicose"(1960) - Alfred Hitchcock



Que sorte que Hitchcock teve quando Robert Bloch publicou "Psicose" em 1959.Apaixonado pelo enredo que condizia muito com seus filmes psicológicos como "Janela Indiscreta","O Homem Errado" e "Um Corpo Que Cai",Hitchcock teria que driblar os produtores para que financiassem uma trama tão suja e perversa.Com o mesmo esqueleto autoral de "Um Corpo Que Cai", a primeira metade da trama seria um macguffin para que personagens aparentemente importantes fossem descartados para um novo desenvolvimento onde um caminho de intenso poder psicológico começa a ser desvendado.Ao invés do trauma e obsessão  de James Stewart,temos a psicótica insanidade de Norman Bates(Anthony Perkins,simplesmente o cara perfeito pro personagem),ou da influencia da mãe,constante nos filmes do diretor,que aqui atinge um ápice alucinante.
A reviravolta final que o livro propunha chegava à superar a revelação de Judy Barton em "Um Corpo Que Cai",fazendo com que todas as edições  fossem compradas pelo diretor.Um esquema de marketing mostrava um Hitchcock exigindo que as pessoas assistissem o filme desde o começo.Afinal,no auge de sua popularidade,com um programa de tevê,com o sucesso de "Intriga Internacional que foi quase sua Capela Sistina,Hitchcock tinha um alcance tremendo diante do público,que fez filas para assistir o filme.

O que faz "Psicose" ser tão bom nem é o sucesso de publico,a trama mirabolante,o final-surpresa,ou unicamente a cena do chuveiro."Psicose" foi a prova da contemporaneidade do diretor,que vinha como um pioneiro do cinema mudo.Já era grande nos 30,nos 40,nos 50,com grandes filmes em cada década.Em 1960,abrindo a década da libertação e da nouvelle vague,Hitchcock mostra o quanto ele pode usar de sua técnica para abusar da idéia de cinema autoral que estava sendo difundido pelos franceses,entrando em sintonia com cineastas modernos europeus,ou filmes como "A Marca da Maldade" de Orson Welles.Cansado de imitadores que se difundiam cada vez mais,os filmes da década de 60 do mestre abririam uma nova etapa na história da arte do cinema.E ainda pra calhar,colhendo toda a libertação que a década clamava,usa da violência,perversão sexual e psicopatia mental,que abririam a porta não só para o slasher,como para qualquer filme que tivesse como temática o lado obscuro porém real que a  mente humana pode alcançar, como foi em "Os Passaros" e "Marnie",posteriormente.

Assim como a vertigem em "Um Corpo Que Cai",a psicose humana é usada como um leitmotif tanto pros pululantes gráficos pulps de Saul Bass,quanto pras facas de cordas da trilha sonora de Bernard Hermann,talvez a maior  e a mais copiada do cinema.Os storyboards do próprio Saul Bass já não são mais para uma fuga espetacular,mas para assassínios crus e verossímeis,como a cena do chuveiro onde a edição distribui 50 cortes em 3 minutos descambando na sensacional transição do ralo ensanguentado para o olho de Marion Crane(Janet Leigh).

Outro brilhantismo que é importante destacar é o aspecto de filme b que o filme propositalmente abarca para si, aumentando ainda mais  a sensação  de perversidade sexual e de paranóia kafkiana.Produzido de forma independente pelo diretor,numa ótima demonstração de teimosia artística, o preto e branco acaba sendo um recurso de atmosfera opressora alem de favorecer o sangue,amenizando o gore.
Filmado com a cara de um episódio do "Alfred Hitchcock Presents" transformado em filme,os recursos visuais jogam constantemente com o espectador.Os enquadramentos constroem a atmosfera de uma forma tão aproximada com seus personagens como ele não tinha feito antes: na abordagem do policial, na conversa de Marion com Norman,na garganta ansiosa de Norman comendo amendoim sendo interrogado provocativamente pelo detetive Arbogast,a chuva caindo no para-brisa do carro enquanto os olhos de Janet Leigh vão se tornando cada vez mais perversos,...Os movimentos de câmera que falam por si mesmos mostrando aquilo que só nós percebemos e que vale a vida do personagem,se virando em movimentos inusitados para mostrar o ponto de vista de um crime sem que nada seja revelado.
Não é a toa que seja o filme mais reverenciado pelo giallo italiano,porque "Psicose " tem o clima de livrinho de mistério amarelado transformado em arte cinemática,com Hitchcock entrando na era dos auteurs reconhecidos intelectualmente e do rock'n roll,mostrando seu ponto de vista da psicótica sarjeta humana.