sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"O Grande Desfile" (1925) - A Guerra do Rei Vidor


Antes da Segunda Guerra estourar,antes dos filmes pós-Vietnã da New Hollywood demonstrarem um brilhantismo no seu modo de denunciar os conflitos, antes de blockbusters como "Tubarão" ou "Titanic" ficarem por meses nas salas de cinema,lá nos pioneiros anos 20 King Vidor dirigiu "O Grande Desfile",primeiro grande filme de guerra que viria a formar as bases de um subgênero tão cheio de possibilidades de erros do que de acertos.
Filmes tendo como ponto de partida uma familia destroçada pela guerra ja existiam desde "O Nascimento de uma Nação" de D. W. Griffith.Mas o individuo alienado que é pego pelo patriotismo e acorda para uma realidade avassaladora e mortífera tem  a sua epopéia exposta primeiramente por esse filme de King Vidor.

Pressionando Irving Thalberg,cabeça-chefe genial da MGM,para que produzisse um filme tão realístico quanto ambicioso,Vidor e o roteirista Harry Behn adaptaram o romance autobiográfico "Plumes" de Laurence Stallings o transformando no filme que o faria um dos diretores top de sua época.

Antecipando "O Franco Atirador",a primeira hora do filme se concentra na apresentação dos personagens e suas diferentes nuances psicológicas misturando romance e humor e se distanciando de qualquer ato de violência.Uma hora lúdica.Conhecemos o protagonista James Apperson(Lewis Gilbert,que se tornaria um dos maiores astros da época),um jovem rico e mimado que a principio não vê muita vantagem em se alistar no momento em que os EUA entram na Primeira Guerra Mundial,mas como o patriotismo surge em cada esquina através de bandeiras,confetes e desfiles,como o seu pai se sentiria mais orgulhoso com seu alistamento e na tentativa de se juntar à freneticidade empolgada de seus amigos ao mesmo tempo que tenta agradar a namorada,James acaba cedendo à "honra"estabelecida pelo dever à patria.
Vivendo num stand-by com o resto de sua tropa num vilarejo francês,James se apaixona por Melisande, atraente dentro de sua vulgaridade,estranha a um rapaz acostumado com patricinhas da alta sociedade.Junto com mais dois de seus amigos James vai aprendendo a compartilhar,a viver conforme a necessidade,e a fortalecer seus laços com a  francesinha cobiçada pelo resto da tropa devido ao distanciamento sexual que a guerra proporciona.
Assim somos mergulhados num clima absolutamente lúdico com a mistura de versatilidade tanto de Vidor quanto de Gilbert que contrabalanceiam o humor físico com o romance,enquanto que o personagem se desenvolve psicologicamente com o nosso acompanhamento.

Enfim as tropas são chamadas para a guerra,e num choque atmosférico somos levados ao inferno de Vidor.
Com a idéia de expor de forma crua e sangrenta o que uma guerra realmente é,ele constrói cenas magníficas em uma tour de force inédita.
Os soldados invadindo uma floresta cheia de metralhadoras e snipers assim como o momento em que seu amigo Slim sai da trincheira se escondendo entre sinalizadores para cumprir uma missão cujos resultados respondem à todo o destino que a vida de James toma pela frente estão entre as maiores do cinema de guerra conseguindo aproximar o espectador da tensão que o momento representado proporcionaria e fazendo com que julguemos por nós mesmos a decisão que iríamos tomar em tal situação,ao mesmo tempo que nos colocamos do lado do protagonista de uma forma indgnada ao ver que o que está sendo mostrado na tela é uma arbitrariedade comum na politica humana.

O senso de cenário e iluminação de Vidor proporcionam pela primeira vez a guerra como forma de arte,o que seria repetido por "Apocalypse Now"(1979),"Gloria Feita de Sangue"(1957) e por "Sem Novidade no Front"(1930,um filme mais recente à esse e injustamente mais conhecido).
As ruinas de um bombardeio dispostas no background como um quebra-cabeças gigante,o flashback no abraço de sua mãe quando James retorna com seus olhos frios fazem desse filme não só uma das grandes obras de arte anti-bélicas como tambêm dá o grande chute necessario para que um dos maiores diretores de sua época deslanchasse sem ser uma marionete-capitalista,mas um dos primeiros autores a imporem uma marca propria ao mesmo tempo que lidavam com grandes estudios : King Vidor.


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