quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Rashomon"(1950) - Akira Kurosawa



"Rashomon" foi o primeiro filme a definir para o mundo ocidental o que o cinema de Kurosawa tinha a oferecer visualmente,e viria apresentar em seus posteriores filmes.Vindo de uma série de ótimas produções,alguns noirs japoneses na década de 40,"Rashomon" conta uma história medieval através de uma narrativa múltipla,aberta à interpretações sobre a verdade subjetiva de cada ponto de vista.Com o coração de pintor mas a mente e as mãos de um cineasta,Kurosawa se utiliza de enquadramentos pictóricos que reverenciam o cinema-mudo para contar um crime sobre um caleidoscópio de falsas verdades impostas pelo orgulho pessoal.

O filme abre sob o templo Rashomon,onde se abrigam da chuva um lenhador(Takashi Shimura),um sacerdote e um vagabundo.O lenhador conta ter descoberto três dias antes o corpo de um samurai assassinado,mesmo samurai que foi visto viajando com sua mulher pelo sacerdote,minutos antes da tragédia.Ambos foram chamados para testemunhar junto com o auto-proclamado autor do crime,o feroz  bandido Tajomaru(Toshiro Mifune);a esposa estrupada;e o morto através de um médium.
Incrédulos sobre qualquer redenção humana,em flashback a história dos três pontos de vista são contadas,mostrando cada uma um resultado satisfatório para quem conta.

O bandido conta que com a intenção inicial de apenas roubar e violar a mulher,ele foi induzido por esta à duelar com o marido devido a vergonha de ter dois homens vivos conhecedores de sua desonra.Numa luta justa e virtuosa Tajomaru vence mas a mulher consegue fugir de seu alcance.

A mulher conta que após ver os olhos de desprezo de seu marido após ter sido violentada,o libertou e implorou à ele que a matasse.Entrou então num transe e desmaiou com a faca não mão,quando acordou a faca se encontrava no peito do marido.

O falecido conta,através da assustadora presença de um médium,que sua esposa pede descaradamente para que Tajomaru o mate.O bandido despreza tal pedido,vil até mesmo para ele,e deixa a mulher escapar.Libertado por Tajomaru,o samurai se suicida de desgosto.

É o surgimento de um quarto depoimento porem que revela uma verdade nua de qualquer soberba e prepotência mostrando o quanto a "verdade" subjetiva é carregada não por fatos,mas pelo interesse individual,inclusive dos espíritos.
Kurosawa faz questão de simbolizar a presença constante do mal que esconde o sol,e do enfrentamento duelístico,com o brilhante diretor de fotografia Kazuo Miyagawa utilizando sequencias de closes dos três oponentes(técnica que seria amplamente utilizada no cinema de Leone,como no final da obra-prima"Três Homens em Conflito").E é nessa consciência plena do mal pairando sobre os céus,que todo o pessimismo incrédulo dos envolvidos se desvanecem na figura de um bebê abandonado e a esperança surge como raios de sol em meio à nebulosa nuvem sobre o templo de Rashomon.Não é o subjetivismo relativista de Protágoras,é a mentira,o confrontamento de egos e a covardia humana.


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